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O desfile original estava marcado para quarta-feira, 07.07. Porém, a tempestade tropical Elsa forçou uma mudança de planos. Quem estava on na transmissão ao vivo da primeira apresentação de alta-costura da Pyer Moss sentiu o drama. A passarela era externa e logo ficou alagada. Convidados tentavam se esquivar da água com capas e guarda-chuvas. O clima não deu trégua e, para segurança de todos, o evento foi adiado para este sábado, 10.07.

Apesar de acontecer em Nova York, o desfile faz parte da semana de moda de alta-costura. Como já falamos aqui, a Pyer Moss foi convidada especial da Fédération de la Haute Couture et la Mode nesta temporada. Com isso, o estilista e fundador da etiqueta Kerby Jean-Raymond se torna o primeiro designer negro estadunidense a integrar o calendário oficial de couture. E os ineditismos não param por aí.

Toda a coleção foi pensada para enaltecer pessoas e trabalhos de pessoas negras que foram pioneiros em suas respectivas áreas. Podemos começar pela locação: a Villa Lewaro, residência da primeira mulher negra milionária dos EUA. O casarão, às margens do rio Hudson, em Irvington, também serviu de ponto de encontro para alguns dos nomes mais importantes do Harlem Renaissance, movimento que influenciou boa parte da produção artística e musical dos anos 1920.

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Antes do desfile começar, Elaine Brown, a primeira e única líder mulher do Partido dos Panteras Negras, discursou sobre a luta e movimento pela liberdade e equidade racial. Suas palavras reforçam as mensagens sobre racismo estrutural e apagamento negro, temas centrais no trablaho da Pyer Moss, desde sua criação, em 2013. Exemplos recentes, são as coleções American, Also: Lesson 1, sobre cowboys negros, e American, Also: Lesson 3, em homengagem a Sister Rosseta Tharpe, percursora do rock'n'roll.

O que se viu na passarela é uma extensão disso tudo. É, ao mesmo tempo, uma celebração de trabalhos e invenções de pessoas negras, e denúncia sobre a invisibilização sistêmica pela hegemonia branca.

A imagem é lúdica – ou camp, para usar um termo da moda. Pense num vestido em forma de semáforo ou num tubinho preto recortado, com um telefone celular gigante pendurado em um dos ombros. Um dos looks era composto de calça inspirada em casquinhas de sorvete e um top sinuoso cor de rosa à la Moschino. Outro, era um robe laranja de matelassê como uma capa feita de bobs de cabelo. Um dos modelos mais emblemáticos é um casaco de couro marrom, com volumes arredondados, como se fossem dedos de uma mão segurando um esfregão. A escolha dos objetos não foi à toa. São todos invenções de pessoas negras.

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Já o humor é uma referência ao designer Patrick Kelly, um dos pioneiros em confrontar estereótipos racistas na moda e na cultura pop, e um nome ao qual Jean-Raymond menciona com frequência. Dá ainda para destilar referências sobre a comoditização da cultura, num esquema meio Warholiano, e até lembrar do dadaísmo de Marcel Duchamp. Mas o que importa mesmo é entender como todos esses mecanismos acabam por tirar do foco o protagonismo de seus autores e de toda uma comunidade.

A imagem pode parecer um tanto caricata de início, mas um olhar mais atento revela toda uma sofisticação e elaboração por debaixo das peças não-convencionais. É uma alta-costura bem mais autêntica e viva do que aquelas feitas nas atmosferas rarefeitas dos salões parisienses. Tem mais a ver com contexto, reparação e valores ignorados pela tradição do métier. É todo um novo paradigma fashion. Melhor exemplo são os vestidos de abajur e a noiva-geladeira, que encerra a apresentação com a melhor "estampa" possível: "mas quem inventou o trauma negro"? Esse inventor não foi nem é silenciado. No caso, é quem silencia.

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