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Um aspecto interessante do formato digital desta edição do SPFW é a ideia de acesso. A ausência de uma plateia com número restrito de convidados aparenta uma suposta democracia de informação que quase sempre morre ao fim de cada transmissão. Tudo bem, existe a interação nos chats e os comentários nas redes sociais. Tem também as minientrevistas após cada apresentação numa espécie de release falado. Ainda assim, o nível de abertura e profundidade de informação disponível ao público não é muito diferente de quando não precisávamos assistir os desfiles dentro de nossas casas.

É importante dizer que não se trata de uma questão exclusiva da moda nacional. Em junho e julho deste ano, as primeiras fashion weeks digitais de Londres, Milão e Paris também passaram por problemáticas semelhantes. Mas com todas as oportunidades tecnológicas disponíveis, soa no mínimo frustrante a reprodução do status quo. Ainda mais em um momento de revisões intensas de valores e práticas.

Pela primeira vez, é possível abrir os processos criativos e de produção, dar acesso irrestrito aos bastidores e proporcionar experiências imersivas para permitir um entendimento mais aprofundado sobre fazer moda. Em outras palavras, é ir além da imagem e aproveitar as atuais limitações para informar e transformar. E isso não tem necessariamente a ver com dinheiro ou recursos ilimitados.

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Ponto Firme

Há cinco anos, Gustavo Silvestre comanda o Ponto Firme, projeto que tem como uma de suas principais frentes o curso de crochê para detentos na Penitenciária Adriano Marrey, em Guarulhos. Devido à pandemia do novo coronavírus, o sistema carcerário foi fechado para visitas externas e as aulas e oficinas, suspensas. Muitos egressos, porém, passaram a trabalhar ao lado do estilista e encontraram no trabalho manual – e na moda – uma forma de sustento. Juntos, eles realizaram uma das apresentações mais emocionantes deste SPFW até agora.

O vídeo é uma mistura de fashion film com documentário. Imagens poéticas de modelos dançando entre roupas suspensas por balões (releitura de um dos desfiles mais lindos de Karlla Girotto, aqui responsável pela direção de arte), se misturam aos depoimentos de Gustavo, dos artesãos Anderson Figueiredo, Anderson Joaquim e Thiago Araújo e cenas de bastidores.


O resultado é potente pelo poder de síntese de tudo que importa no momento. Na parte técnica, chama atenção a qualidade de captação, iluminação, direção e edição – o vídeo é dirigido por de Laura Artigas e tem direção de fotografia de Danilo Sorrino. Em termos de conteúdo, a combinação de imagem e informação permite um entendimento mais aprofundado sobre o que está envolvido nas entrelinhas – o poder de transformação social, a valorização dos processos artesanais e a importância de uma moda reponsável. Já sobre a roupa, bom, apenas algumas das mais belas vistas até agora.

Para Gustavo, "essa coleção é um símbolo de retomada". Não havia material, mão de obra nem tempo para produzir algo 100% focado no crochê. A solução veio de uma parceria com a NK Store. A marca tem um projeto de comprar peças usadas de suas clientes e doá-las para o reuso. Boa parte do que foi visto aqui veio de itens fornecidos pela empresa de Natalie Klein. São vestidos-camisola com detalhes rendados, camisas e blusas de inspiração vitoriana com decorações crochetadas e alguns looks inteiramente feitos com esta técnica manual.

"Como toda a mão de obra é composta por egressos, poderemos, pela primeira vez, colocar essas peças à venda e gerar uma renda extra para os artesãos", diz Gustavo. Como o Ponto Firme é um projeto educacional, a comercialização do que é lá produzido não é permitida. As peças apresentadas nesta quinta-feira (05.11), estarão à venda na NK Store.

"É o ciclo completo do reaproveitamento, de tecidos e de mão de obra", pontua o estilista, mencionando a dificuldade de inserção no mercado de trabalho por parte dos egressos do sistema prisional. "Sofremos muita discriminação quando saímos", diz o artesão Anderson Figueirido. Ele conta que foi obrigado a participar das aulas de Gustavo enquanto cumpria pena. "Mas hoje não acho ruim, me ajudou demais. Me deu outra perspectiva de vida, um futuro e é com isso que posso sustentar minha família."


Em paralelo à apresentação no SPFW, aconteceu o lançamento do O Ponto Firme, documentário dirigido por Laura Artigas sobre o projeto. Durante nove meses, a diretora e jornalista acompanhou as aulas de Gustavo e o processo de criação da coleção que culminou no primeiro desfile do grupo na semana de moda, em abril de 2018. O longa permite uma imersão ainda maior no poder transformador do trabalho de Gustavo e do crochê em termos sociais. "Foi um processo de escuta muito interessante", diz Laura. "São pessoas muitas vezes excluídas da sociedade e dar voz e visibilidade é muito importante."

Alexandre Herchcovitch, 50 anos


Também em linguagem documental, Alexandre Herchcovitch antecipou seu aniversário de 50 anos (a ser celebrado em 21 de julho de 2021) com um vídeo em que comenta seis looks de coleções passadas de sua marca homônima. O filme começa com um das primeiras peças desfilada pelo estilista: um vestido de crochê de 8kg, feito pela sua mãe. Em seguida, vem uma pelerine de gobelin (um tipo de jacquard francês) com motivos tropicais, de 20 anos atrás. Na sequência, um vestido de crepe georgete de seda, uma fibra natural superleve, porém costurada com correntes de metal para dar mais peso ao look. Depois vêm o vestido de coração, de nove anos atrás, da coleção inspirada em Boy George; um casaco de látex e vestido de seda estampada, já com sete anos de história e um vestido com tecido vintage dos anos 1950, apresentado há dez anos.

Alexandre sempre foi notoriamente reservado nos comentários e explicações sobre suas coleções e processos criativos. Parte essencial de seu trabalho, aliás, vem desse mistério e provocação para interpretações e análises diversas. Agora, numa quase retrospectiva, o estilista abre suas inspirações, referências e pensamentos. Estes são quase sempre direcionados a algum tipo de subversão: tornar o avesso aparente, pesar o tecido por natureza leve, questionar padrões de comportamento e vestimenta e explorar questões de expressão corporal, sexual e de identidade através das roupas.




Em parceria com SPFW e profissionais da área, uma das medidas institui que desfiles deverão ter pelo menos metade de seus castings compostos por modelos negras, indígenas e asiáticas.

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