Moda

Todos os destaques do 4º dia da Casa de Criadores

Do Brás a um futuro digital e colaborativo, sabia tudo o que rolou nas apresentações de quinta-feira (26.11).

Weider Silveiro | Foto: Pedro Jorge e Leo Fagherazzi

Kengá Bitchwear


Nada do que eu escrever será mais claro do que os 60 segundos do vídeo abaixo:


Pois bem, para Janaína Azevedo e Lívia Barros, o Brás é o Brasil, o Brasil, surreal e a raba, para bilhar. O bairro de São Paulo concentra de maneira caótica e maravilhosa lojas de tecidos, aviamentos, acessórios, vendedores ambulantes e mais um tudo que você possa imaginar – além da trilha sonora própria (só quem viveu sabe). Quem já passou por lá e está familiarizado com o repertório da dupla vai reconhecer alguns elementos em comum: o neon, os brilhos, as roupas justas, os brincos e bijoux douradas. De fato surpreende que o tema não tenha aparecido antes nas várias interpretações sobre moda popular da Kengá.

Mas o timing, no fim, foi perfeito. Na última sexta-feira (20.11), a marca abriu sua primeira loja, na galeria do Edifício Louvre, na República, onde funciona também o ateliê. "Foi a primeira vez que pudemos ter esse espaço e ainda ter tempo para trabalhar e criar com calma", diz Janaína. O resultado é visível no editorial em movimento apresentado na noite desta quinta-feira (26.11). Estão alí todos os códigos essenciais da Kengá: o maiô e body todo recortado, o vestido com comprimento micro, o look colado no corpo, calça com cintura baixa, os brilhos, os brincos e cintos dourados e as cores intensas. Desta vez, porém, tudo é melhor trabalhado, as modelagens mais bem resolvidas e as ideias e propostas de modo mais preciso.

Outro ponto importante é a maneira como cada peça foi feita: "Só usamos materiais em estoque e descartes de fornecedores do Brás", explica Lívia. "E também minhas calças jeans", completa Janaína, sobre a origem do denim da coleção.

Thear


Faz mais ou menos um ano que Theo Alexandre conheceu o projeto Tecendo Liberdade, realizado junto às presidiárias da Penitenciária Feminina Consuelo Nasser, em Goiânia, para criar tecidos de algodão com teares manuais. Era algo em total sintonia com seu trabalho na Thear e decidiu unir forças. Inicialmente, a ideia era que parte dos materiais utilizados fossem tecidos pelas participantes da iniciativa, em um esquema quase de fornecedor mesmo. Porém, depois de algumas reuniões (durante a pandemia elas passaram a ser virtuais) tudo mudou.

"Entendi que essa coleção não era mais sobre mim, mas sobre mulheres", explica o estilista. Para ele, o tear tem impacto positivo e transformador no ser humano. Consigo mesmo, começou com uma postura sustentável de criar peças com mínimo descarte e produzidas de maneira responsável. Agora, veio na forma de escuta e conhecimento vivências, junto a construção de novas possibilidades para pessoas esquecidas pela sociedade.

"Me coloquei como ouvinte daquelas mulheres, queria entender as demandas femininas e criar uma plataforma para que elas pudessem ser ouvidas", diz. Para isso, contou também com a ajuda da artista plástica Cacilda Vitória, responsável por cocriar as peças e estéticas apresentadas junto ao minidoc do vídeo acima.

Reptilia


Heloisa Strobel chamou a nova coleção de sua Reptilia de "Estamos Quase Lá". Onde exatamente fica à gosto do freguês. A Lua, Marte, uma realidade paralela, nosso próprio subconsciente ou formas outras de existências são alguns dos destinos possíveis mencionados no vídeo de apresentação da marca. A imagem é lúdica e numa vibe sci-fi feito em casa, mas a ideia "é representar alguns dos sentimentos pelos quais fomos atravessados nos últimos meses", explica a estilista.

Durante esse tempo, Heloisa aproveitou para revisitar algumas de suas criações e analisar o que faz sentido agora. As modelagens apresentadas no filme são reedições ou versões atualizadas de alguns dos best sellers da etiqueta. Alguns materiais, por sua vez, são novos, como os tecidos planos de algodão, por exemplo. São eles, aliás, que dão forma a algumas das peças mais desejáveis desta estação: como as camisas em tons lavados, as bermudas e calças de alfaiataria.

Ateliê Vou Assim


Estreante na Casa de Criadores, o ateliê Vou Assim é uma coletiva dedicada à empregabilidade, capacitação profissional e artística, representatividade e demais demandas socioculturais LGBTTTQIA+ por meio de trabalhos de arte e moda. Seu surgimento foi em São Paulo, em 2016, pelas mãos e iniciativa de Pimentel, mas o projeto atual se dá mais ao norte, mais especificamente no sertão da Bahia.

É em Caldas do Jorro, cidade a 263,8 km de Salvador, que se passa SERTRANSNEJA, projeto de autoria de Tertuliana Lustosa, travesti piauiense, realizado em parceria com o ateliê Vou Assim. É um mix de minidoc com filme de moda, feito com a colaboração de diferentes profissionais. O objetivo é dar visibilidade e construir novas possibilidades de articulação com artistas, costureiras e artesãs do sertão baiano, região com alto índice de vulnerabilidade social no Brasil.

Durante a produção, a coletiva mapeou 13 pessoas (Dulce Pimentel, Divanildo Pimentel, Andreia Rosa de Melo, Cadu Pimentel, Albert Magno, Gabriele do Arrocha, Marco Antônio de Lima, Ubiratan Queiroz, Iago, Marcos dos santos, Ayrlan, Gilucci Augusto e Eric Silva) que foram convidadas a participar de forma colaborativa e voluntária na construção do figurino, performance, imagem e som do filme.

Shitsurei


O trabalho de Marcella Maiumi pode ser dividido em duas frentes: as ilustrações e a ressignificação de peças antigas ou descartadas. A coleção-cápsula apresentada hoje (26.11) é a união desses dois lados. "Toda vez que surto, desenho padronagens para me acalmar. É uma válvula de escape, uma terapia", diz. A diferença, agora, é que essa terapia foi forçada, dada todas as limitações dos últimos meses. Vem daí os desenhos manuais sobre jaquetas, moletons e calças amplas, com jeitão street desta minilançamento.

David Lee


É cruel a pressão por novidade a qualquer custo imperativa no atual sistema de moda. Também não faz o menor sentido, quando levamos em conta que muito do que vemos é uma eterna repetição ou reprodução de códigos, referências, símbolos e imagens. Muitas vezes, o novo não é nem visível, está no processo, na mensagem, no pensamento.

Tudo isso para dizer que David Lee apresentou a mesma coleção de um ano atrás – e foi ótimo. Muito devido ao fato de, nas últimas temporadas, o estilista ter conseguido se livrar de certos modismos para focar no que há de mais autoral e precioso no seu trabalho. Seu olhar esperto para construção de imagens e narrativas também conta. "Fiz tudo com celular, mas, desta vez, quis mostrar um pouco dos ambientes em que vivo e que influenciam meu trabalho." No caso, a cidade onde mora, Fortaleza. É na orla da cidade que todo o vídeo é ambientado e o cenário deu toda uma nova perspectiva e contexto para suas roupas.

Devido aos fechamentos e interrupções causados pela Covid-19, David não conseguiu vender sua coleção de inverno. "Foi um banho de água fria, tinha conseguido um bom investimento para aumentar equipe, melhorar o ateliê e expandir a produção, quando veio a pandemia", fala. Os pedidos das multimarcas foram todos cancelados e, de repente, seu estoque estava lotado. Com a reestruturação do negócio como um todo, aproveitou para rever o que havia criado e adaptou algumas peças "para ter mais cara de verão". Deixou tecidos mais finos, tirou alguns fios do crochê e incluiu cores suaves na cartela.

Weider Silveiro


A coleção de Weider Silveiro também não parte de um impulso novidadeiro. O resultado, contudo, talvez seja um dos conteúdos mais atuais e com perspectivas de futuro vistos até agora nesta edição da Casa de Criadores. Mas vamos por partes.

Tudo começou a partir de quatro looks que ele não desfilou em julho de 2018. "Sentia que não explorei e expressei tudo o que podia naquele momento", diz o estilista. A partir de então, outros quatros modelos foram criados seguindo a vibe utilitária-glam das peças originais – bolsos mil, muito paetê, um tantinho de estampa militar e um pouco de xadrez de alfaiataria.

Para elaborar a apresentação, Weider chamou os amigos Pedro Bazani e Leo Fagherazzi (diretor de arte/arquiteto e fotógrafo, respectivamente). Pedro, colocou a pesquisadora e curadora Andréia Matos na jogada. Ela, por sua vez, apresentou um conceito de encruzilhada para o estilista, "mas não como algo negativo", pontua ele. "Como um lugar de encontro, de troca, de contato com experiências, estéticas, visões e corpas diferentes", continua.

Pronto. O ano já vinha cheio de questionamentos e apenas reproduzir padrões e práticas de antes não era mais uma opção para o estilista. Foi aí que Weider entrou em contato com todos seus colaboradores (o stylist João Victor Borges, os maquiadores Helder Rodrigues e Carlos Rosa, a produtora musical Malka, Pedro e Leo) e pediu para que cada um deles escolhesse um profissional (com oportunidades reduzidas por fazerem parte de alguma minoria social e cultural) para co-assinar os trabalhos na produção do filme.

O styling, então, é de Miranda Luz e Victor Borges. A beleza, de Magô Tonhon, Rapha da Cruz, Carlos e Helder. A fotografia, de Pedro Jorge e Leo. A arte, de Jean Petra, Paula Tsuyama, Andréia e Pedro. A trilha, de Miss Tacacá e Malka. E o casting, igualmente diverso, é composto por Auá Mendes, Caru, Claudia Eunice, Ingrid Andrade, Jade Aza, Sambla Universo, além das já citadas Miranda e Miss Tacacá.

As imagens do vídeo, com intervenções digitais e 3D, falam de uma nova forma de construção estética e de narrativa. Mas vale ir um pouco além e explorar o que essas roupas (criadas quase dois anos atrás) representam nos corpos que vestem atualmente e na interpretação de uma equipe excepcional. É interessante notar como passado, presente e um possível amanhã se cruzam de maneira indissociável. O novo talvez não seja mais uma necessidade, mas o futuro é inevitável.

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