Rafael Caetano


Faz um ano, Rafael Caetano decidiu colocar suas sungas na passarela. Ele já fazia as peças há algum tempo, mas, até então, não tinha dado destaque a elas. O resultado foi tão positivo (e vendeu tão bem), que a coleção atual do estilista é quase toda de beachwear. A escolha contudo, não foi puramente comercial. Devido à pandemia, o estilista quase não tem saído de casa. Por sorte, seu ateliê é onde mora e todo maquinário de costura fica a passos de distância. "Ainda tinha muitos tecidos que comprei no começo do ano e, como consigo fazer tudo sozinho aqui, sem colocar ninguém em risco, foi uma saída natural", explica ele. A novidade vem agora numa oferta mais amplas de peças, com bodies, sutiãs e calcinhas que, de forma alguma, se conformam às definições binárias de gênero.

Estúdio Traça


Os processos de introspecção e autoconhecimento pelos quais muita gente passou durante a quarentena não são exatamente novos para Guilherme Amorim. Há pelo menos um ano o estilista convive com eles. Sua estreia na Casa de Criadores, em novembro de 2019, falava justamente de um reencontro consigo mesmo – à época, ele estava recém-saído de um longo relacionamento e reaprendendo a viver sozinho. A mais nova coleção é uma continuação desse pensamento, porém de forma bem mais madura.

Para além do denim reciclado pelo qual a Estúdio Traça ficou conhecida, agora entram em cena a camisaria e a malharia. "Não faria sentido falar só sobre jeans. Apesar de termos versões bastante confortáveis, não é uma peça que as pessoas gostam de usar em casa, embora continue sendo minha maior paixão", disse, em entrevista à ELLE. Logo de início, chama a atenção peças como o vestido branco acinturado, o preto com recorte circular na parte de cima e as camisas de corte quadrado ou com manga bufante. Além de contabilizarem uma maior oferta de produtos, são itens bem conectados com os desejos do momento e aliados ao universo da marca.

Para apresentação, o estilista convidou a atriz Fernanda Paes Leme para encenar um vídeo de pouco mais de um minuto e meio de duração. Todo filmado com celular, lembra os conteúdos postados no TikTok, o desfile-vídeoclipe da Balenciaga, os cliques de streetstyle dos eventos e semanas de moda e a já tradicional selfie de elevador. E isso fez toda a diferença para o entendimento das roupas. Ambientado na rua, na entrada de um edifício residencial e, desculpem a repetição, no elevador, traz uma sensação de realidade, possibilidade e proximidade para aquelas roupas. Algo que dificilmente veríamos numa passarela.

Kel Ferey


Kel Ferey passou boa parte de 2019 em Milão. Foi à cidade para desenvolver a coleção que apresentou na semana de moda local, como parte de um projeto para novos talentos internacionais. Quando voltou para o Brasil, teve pouco tempo até que a pandemia do novo coronavírus algo extremamente essencial a ela: viajar. "Sou uma pessoa do mundo e, de repente, me vi presa a um só lugar", desabafa.

Pouco antes da quarentena, porém, a estilista conseguiu visitar sua cidade natal, Arraial d'Ajuda, na Bahia. Lá, tomou ciência de como o avanço imobiliário estava destruindo a mata ciliar da região repleta por falésias. Voltou para São Paulo decidida a fazer alguma coisa a respeito. Nasceu assim a coleção apresentada nesta terça-feira (24.11). "Quero chamar a atenção para o desmatamento que corre solto no Brasil, para o genocídio da população indígena e para a desvaloriação da cultural nacional", diz.

Descendente de pataxó, Kel buscou elementos de diferentes povos indígenas para decorar sua coleção. Vem deles as franjas, os bordados de semente, a palhas e a juta. Os crochês em forma de flores são alusão à natureza, junto com os tramas que fazem contraponto aos tecidos planos usados em camisas, vestidos, bermudas e saias. Ah, e quase tudo feito a partir de descartes de empresas do setor têxtil.

Jorge Feitosa


Durante os primeiros meses de pandemia e quarentena, Jorge Feitosa se pegou pensando sobre os pedidos para ficarmos em casa. "Mas e quem não pode ficar em casa? Quem não tem casa ou não encontra nela um lugar seguro e de conforto?", questiona o estilista. A partir daí nasceu sua nova coleção. "Comecei a refletir sobre meu lar atual e lembrar de todos os lugares em que morei." Ao todo, foram 24, porém nem todos podem ser chamados pelo mesmo nome.

Pelo menos não da maneira pela qual Jorge criou a narrativa desta coleção. Num mix de documentário com filme de moda e vídeo de arte, a apresentação do estilista combina cenas de bastidores no ateliê (hoje no mesmo endereço em que mora), dobraduras de papel, roupas em miniatura e um editorial de moda. O roteiro, por sua vez, é dividido em três partes: casa, morada e lar.

Casa, aqui, é uma simples representação do lugar que você habita. Apenas uma estrutura com interior vazio, bem como os desenhos que estampam os vestidos longos e amplos da coleção. A morada são os endereços antigos que, hoje, só existem na memória como lembranças do passado. São aquelas construções que ficam na memória, seja pela suas formas, cores ou pessoas que habitavam nelas. E aí, chegamos no lar, o lugar do afeto, do amor, onde tudo floresce, o corpo se aquece e a mente se acalma.

NotEqual


A coleção da NotEqual, do mineiro Fábio Costa começou a tomar forma pela cabeça: a sua própria e as que estava vestindo com uma série de máscaras e acessórios feito em moulage. Em entrevista, dias atrás, ele disse não estar pensando muito em fazer roupa. Como outros estilistas nesta temporada, se viu perguntando qual era o sentido nisso neste momento tão peculiar. Decidiu ir apenas experimentando com moulages até que as primeiras roupas começaram a surgir.

"Não gosto nem de chamar de coleção. São quatros personagens de um folclore imaginário, personificações de algumas entidades elementares da natureza", explica. Com vibe ritualística o vídeo é bastante autoexplicativo nesse sentido. O que importa notar aqui é como a liberdade de criação e descompromisso generalizado produziram não só uma das imagens mais interessantes vistas até agora na Casa de Criadores, como algumas das melhores peças já apresentadas pelo estilista.

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