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Vicenta Perrotta


Devido à pandemia da Covid-19, Vicenta Perrotta não pôde juntar as 100 travestis que costuma colocar na passarela da Casa de Criadores. Em vez disso, ao lado da fotógrafa e artista Rafa Kennedy, criou um vídeo sobre a potência da travestilidade no Brasil. "Corpas trans sempre viveram em esquema de isolamento, não foi nenhuma novidade o que se discutiu durante os meses de quarentena", diz a estilista e diretora criativa. "Muitas manas conseguiram organizar processos onde a cisgeneridade perdeu o prumo."

Acontece que esses processos são sistematicamente apagados pela violência. Violência esta que acaba como único elo entre essas pessoas. "É o que a gente não quer viver, então a gente traz essa discussão de como somos violentas umas com a outras, de como a sociedade nos viola e como não devemos construir relações e estéticas que carregue a violência. Estamos construindo processos de naturalizar nossas corpas na sociedade e quebrar a invisibilização", fala Vicenta.

Naturalizar é uma palavra importante na construção estética deste trabalho. O filme começa nas águas de um rio. Segundo a estilista, é sobre conectar a corpa trans à natureza. "A cisgeneridade que é artificial. Isso fica claro quando entramos em contato com nossas ancestralidades, nossa espiritualidade", continua ela. Vem daí as imagens, acting e roupas carregadas de referências ao candomblé e outras religiões de matriz africana. As cenas de cotidiana, bem como as de afeto e uma ideia de família também são poderosas. Principalmente quando se considera a maneira como aquelas pessoas são comumente representadas e vistas por boa parte do mundo.

O filme foi chamado de Dandara, em homenagem a Dandara dos Santos, travesti brutalmente assassinada em 2017. Para a diretora do vídeo, Rafa Kennedy, o nome remete a "um estado de mente e espírito que se transmuta em um ciclo de vida que só é possível quando se rompe com os pactos coloniais, lugar este que tem sido construído por muitas antes de nós, possibilitando nossas existências no agora, estando em constante expansão".

O conceito de transmutação é algo bastante presente no trabalho de Vicenta. A essência de sua criação está na ressignificação de peças e tecidos antigos, descartados, ou como ela mesma diz, jogados no lixo. "Lixo é também como a sociedade enxerga as travestis, as corpas trans. Gosto de usar a estética como ferramenta de transformação, quase como uma metáfora para o poder de transformação da trava em gerar vida em meio a um processo de tanta violência", finaliza.

Nalimo


"Quero colocar na passarela as minhas lutas, minhas questões", diz Day Molina, durante o vídeo que marca sua estreia na Casa de Criadores. Day é artista, ativista indígena, stylist, diretora criativa e proprietária da Nalimo. Para ela, moda é uma plataforma por meio da qual pode amplificar sua voz e as lutas pelo que acredita – direitos originários, demarcações de terras indígenas, antirracismo, decolonização, liberdade de corpas. "Moda pode e deve ser um agente de transformação que contagia, conscientiza e emociona as pessoas", fala.

Sua coleção é uma manifestação de diversidade, força e resistência. Para tanto, se vale de um look minimalista, formas puras, tecidos orgânicos (quase todos reaproveitados do seu estoque), acabamentos manuais (todas peças foram feitas por ela e pela costureira Mara) estampas e decorações inspirados em elementos de culturas indígenas. Casting e equipe também aparecem em perfeita sintonia com sua visão de mundo e profissão. É que, como diz no vídeo, "tanto coração é uma aparelho revolucionário. E todo coração também sangra".

Vivão


A Vivão nasceu em 2017, em Salvador, a partir de uma ideia de comunicar arte através da moda. Foi por meio da pintura que Alexandre Vivão, artista, idealizador e diretor criativo do projeto, conseguiu expressar tudo o que sente em relação à necessidade por atenção, respeito e cuidado com o próximo. Para ele, o que vestimos é como uma armadura, "é com o que a gente vai para rua todos os dias. É na nossa roupa que estão todas as informações, basta ter sensibilidade para entender o que o outro quer passar".

A roupa da Vivão, então, é quase como um retrato da alma (perdão pelo clichê). É que Alexandre fala sobre como suas peças tem a intenção de observar e comunicar um corpo além da materialidade, além do meio físico. Tem a ver, ou melhor, é uma reação aos mecanismos padrões, opressores e limitantes de vários tipo de representações. Não é à toa que as roupas da marca têm modelagens híbridas, são feitas de uma ampla variedade de tecidos (e outros vários materiais) e apresentadas com casting dos mais diversos. O foco, muitas vezes, nem é a peça em si, mas sua relação com o corpo e tudo que se desdobra daí.

Desta vez, o time teve de ser reduzido, devido à pandemia. Mas a mensagem, de modo algum foi prejudicada. "Durante a quarentena, tivemos a ideia de movimentar nossa comunidade, fazer ela crescer, se expandir a fim de que suas pessoas pudessem se tornar independente", explica Vivão. Veio daí o convite para outros quatro artistas (@mofada1, @fruty3000, @studio__64, @plantacao.de.lavanda) colaborarem com a coleção e vídeo. "Cada um criou algo específico contando um pouco sobre si ou seu trabalho." A partir daí, pinturas, intervenções e alterações (coletivas ou pelas mãos de Alexandre) acrescentaram mais algumas camadas de história, vivência e sensibilidade à cada peça.

REIF.LIFE


Reif Life, já falamos aqui, é o projeto multidisciplinar idealizado pelo diretor de arte Marcelo Alcaide. Sua primeira versão surgiu em Berlim como uma alternativa intimista e hedonista para as festas da cidade. Com o tempo, a coisa evoluiu, passou a englobar colaborações com artistas e outros profissionais, participou da Bienal de Veneza e, há poucos meses, lançou seu terceiro ato em solo nacional.

Na atual fase, o foco é a criação colaborativa, fomento e conexão de profissionais, negócios e comunidades brasileiras impactados pela crise desencadeada pelo novo coronavírus. Para isso, Marcelo convidou um time de estilistas e criadores para intervirem em peças descartadas e doadas para o projeto. As estampas, bordados e demais customizações são feitos por costureiras ou artesãos locais. A venda acontece no e-commerce da multimarcas Cartel 011. "A ideia é que as peças não só tenham um valor acessível, para que um maior número de pessoas possa ter acesso àquelas marcas, mas também que sua venda seja revertida para seus produtores e para instituições assistenciais", disse o diretor de arte, à época do lançamento.

"Fico extremamente feliz em ver um projeto lançado neste ano ter todo esse reconhecimento", fala, em conversa por Zoom, de sua casa em Berlim. Marcelo se refere à estreia da Reif.Life nesta edição da Casa de Criadores. Para a ocasião, convidou o diretor criativo e editor Pablo Monaquezi e o produtor Thiago Roberto para interpretar as peças do projeto num vídeo de pouco mais de 3min. "Não é um filme dirigido pela Reif, é a visão de dois artistas sobre a Reif", explica.

Rober Dognani


Rober Dognani é o tipo de estilista apaixonado, que gosta de volume, imagem arrebatadora de moda, passarela em chamas toda vez que a modelo (sempre performática) desfila uma roupa sua. E é por isso que, em 2020, ele já tinha decidido não fazer coleção alguma. Afinal, a celebração em um desfile, o seu show principal, não seria possível em razão da pandemia.

E é aí que Davi Ramos, stylist e criador dos acessórios de cabeça mais interessantes do país, entra em cena: e se a coleção fosse para a modelo, ícone dos anos 1990, o ídolo maior de Rober, Cláudia Liz? Nessas circunstâncias o estilista não pensou duas vezes. Para Cláudia, Rober Dognani tiraria com toda certeza uma coleção do papel. E foi isso o que fez.

São exatos seis looks pretos de vinil, látex e tule. "É a minha coleção mais volumosa", explica – algo que parece absurdo para quem acompanha o trabalho do designer e sabe que ele nunca ponderou tecido. Mas, agora, o próprio recorde do exagero foi quebrado. São mais de trinta metros de vinil formando rosas negras, babadinhos de organza infinitos que montam um vestidão a perder de vista. Um dos modelos, co-produzido com a artista Alma Negrot, teve duzentos metros de lona modelados por um aquecedor térmico, para formar uma roupa escultórica de mais de três metros de altura. (GABRIEL MONTEIRO)

+ Leia nossa entrevista com Cláudia Liz.

Jal Vieira


Jal Vieira passou quase toda a quarentena sozinha. Em boa parte do tempo, sua companhia foi textos e poemas de escritoras e autoras pretas. Há algum tempo passando por descobertas pessoais muito importantes sobre sua identidade e minhas potencialidades, as palavras lidas tiveram efeitos especialmente fortes sobre a estilista. Tanto que, quando chegou a hora de pensar nesta coleção-cápsula, convidou as poetas Ryane Leão, Carol Dall Farra, Luz Ribeiro, Valentine e Gênesis para enviarem um de seus poemas para serem recitados durante o vídeo de apresentação.

Estrelado por Jal em si, o filme evoca alguns sentimentos comuns ao isolamento. A pergunta "o que você sente quando está sozinhe", aliás, foi um dos pontos de partidas para a criação das roupas desta temporada. São peças em tons de branco, feitas de tecidos que a estilista já tinha em casa, em estoque ou em roupas de coleções antigas. A cartela de cores reduzida pode ter vários significados, mas é interessante notar como representam telas vazias, em cima das quais é possível projetar, pintar ou construir de um tudo.

Já as texturas têm explicação bem direta: "Aquelas como plissados, são em referências às páginas dos livros. E as tranças de barbante se conectam ao meu processo de descoberta de ancestralidade, elas foram muito potentes nessa história e o que me colocou em contato com forças interiores."




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