Moda

Tudo que rolou no 3º dia de SPFW

Entre estreias e retornos, comentamos os principais destaques das marcas que se apresentaram nesta sexta-feira.

Foto Cortesia | Renata Buzzo

Lucas Leão


Como uma grande metáfora do que aconteceu em nossas vidas durante a quarentena, o desfile de Lucas Leão se viu limitado ao virtual. "Fizemos todas as roupas fisicamente e depois as digitalizamos", diz ele. O processo contou com a parceria dos artistas 3D Pepapuke e Bruno Meira, responsáveis pelas imagens que reproduzem algumas das peças de formas amplas e acolchoadas, pelas quais a marca ficou conhecida.

Ainda que não exatamente nova, trata-se de uma tecnologia em rápida expansão na moda — pode ser usada, por exemplo, para produção mais precisa e com menos desperdício de roupas, ou para facilitar a visualização e entendimento num processo de compra à distância. O assunto, aliás, já foi pauta de ELLE. Aqui, porém, o 3D é utilizado com fins meramente conceituais.

Segundo Lucas, a ideia é explorar "um futuro distópico e novas possibilidades de existência". Daí o cenário desértico com figuras quase humanas meio sem expressão. As estampas, assinadas por Jemima Kos, também se conectam a essa narrativa: "são como glitches, estáticas e com interferências comuns aos televisores antigos", nas palavras do designer. Criativamente funciona – a apresentação fez sucesso no chat da transmissão no YouTube. Já em termos de roupa, deixa um tanto a desejar. O que é uma pena, pois esta coleção é uma das melhores que o estilista já apresentou no SPFW.

Foto Cortesia | Lucas Leão

Existe todo um trabalho de proporção e volumetria bastante interessante, principalmente quando contraposto à alfaiataria – parte da visão de futuro do designer, com mil possibilidades de corpos. Além das estampas com efeitos ópticos e texturas, mais visíveis nas fotos do que no vídeo.

LED


"Essa coleção partiu de um processo de enfrentamento à realidade", diz Célio Dias, nome por trás da LED. Num vídeo animado, que combinada passarela, dança e um quase editorial de moda, a marca mineira consegue feito aparentemente raro nesta edição digital do SPFW: combinar uma boa visualização e apresentação das roupas, despertar desejo e ainda causar algum tipo de emoção no espectador.

Em termos práticos, a coleção se desenvolve em cima de códigos já conhecidos da grife: camisetas com mensagens políticas ("uma bicha para presidente" e "abaixo o macho astral"), peças amplas com jeitão street, jeans, um pouco de alfaiataria, outro tanto de camisaria e muito crochê. O caldo começa a engrossar quando tudo isso ganha corpo — literalmente. A LED sempre se posicionou como uma marca LGBTQIA +, conformidades de gênero e conceitos binários não se aplicam aqui. Dessa vez, a mensagem da roupa que veste qualquer corpo é reforçada por um time de modelos com acting coreografado em clima de paquera, meio flerte de buatchy, sabe? (Saudades). Junto com a Another Place, a etiqueta mineira se destaca como uma das poucas a abordar algum tipo de sensualidade — e sexualidade — na construção de imagem.

Outra mensagem importante nessa coleção diz respeito ao Brasil ou ao que é brasileiro. Para Célio, trata-se de se reapropriar de símbolos que nos foram tirados. E aí vai desde o artesanato (com peças feitas manualmente por artesãos locais) até nossa própria bandeira. Esta aparece reinterpretada em branco e preto e com uma carinha triste no lugar do ordem e progresso. "A moda, enquanto forma de autoexpressão, deve evidenciar não apenas traços de personalidade, mas também nossa visão de mundo e posicionamentos."

Misci


Estreante no evento, Airon Martins também levanta bandeiras e propõe a ressignificação de elementos brasileiros — ainda que à sua maneira. São estampas de filtro de barro, pontos que lembram aqueles usados no artesanato típico de regiões do nordeste, motivos tipo xilogravura e filetagem, além de algumas texturas de tramas manuais. Tudo isso aplicado em peças de design minimalista, com modelagens afastadas do corpo e caimento quase sempre fluido.

São roupas belas, com extremo cuidado no feitio. Quase tudo tem acabamento manual, os tecidos vêm de fornecedores com produção responsável e alguns são feitos com material reciclado ou em parceria com comunidades regionais. Embaladas pela narração e trilha da cantora Josyara, e imersas em um cenário cotidiano, comunicam uma poesia e delicadeza bastante interessante, quase naive. Não por acaso (ou justamente por acaso), Airon deu à coleção o nome de Brasil Impúbere. Impúbere diz respeito àquela fase da vida de transição entre infância e adolescência, antes da puberdade. É um período de incertezas, ingenuidades e impulsos. Lançada em 2018, não seria forçado pensar na Misci exatamente nesta situação.

"A marca é minha válvula de escape, onde consigo trabalhar algumas desconstruções", diz Airon, de um ponto de vista pessoal, cultural e profissional. Suas intenções são sinceras, seus questionamentos, aprofundados e muitos. Só nesta coleção, ele aborda a pauta ambiental, questões de representação de gênero, a causa indígena e a valorização da cultura e identidade nacional. São temas urgentes, porém complexos, que poderiam ser mais expressivos e efetivos se trabalhados a fundo, para além de conceitos estéticos. Mas tudo bem, afinal, trata-se de um começo.

Renata Buzzo


Renata Buzzo chega ao line-up do SPFW em nova forma. Conhecida por um design de superfície elaborado, não era raro suas roupas virem cobertas por incontáveis camadas de texturas e retalhos de tecido residual (sua marca é vegana e reaproveita praticamente tudo). As imagens eram belíssimas. Já as peças, impossíveis.

"Não é bem um viés comercial, mas aprendi a pensar numa roupa que seja usável e não pesa 20kg", diz Renata, em referência à leveza (física e estética) dos vestidos, blusas, saias e calças da nova coleção. As decorações que antes cobriam todo o look, agora, são reservadas aos detalhes na forma de nós, franjas e plissados. É um movimento que já vinha de antes, mas parece ter encontrado um ponto de equilíbrio.

Seu processo criativo, contudo, continua intenso, melancólico e baseado em sentimentos e experiências muito pessoais. A coleção atual nasceu de um texto que escreveu antes da pandemia e batizou de Estudos Melancólicos. "Fala sobre vários gatilhos, solidão, medos, angústias, morte", explica. "Não sei lidar com perdas, com finitudes terceiras."

Nos últimos meses, ficou claro que pouquíssima gente sabe. O motivo, talvez, seja, justamente, a negação e evitação do assunto. O pesar das palavras que aparecem no vídeo como legenda contrasta diretamente com a poesia romântica das roupas. "É a mentira que vestimos para esconder os hematomas e machucados internos que nos fazem entender nossa existência no mundo."

Juliana Jabour


Juliana Jabour pretendia fazer seu retorno ao SPFW na edição que aconteceria em abril, porém a Covid-19 atrasou seus planos. O evento foi cancelado e a estilista se viu com toda uma coleção parada. "No fim, foi bom, pude rever muitas coisas e pensar melhor no modelo de negócio que quero para minha marca neste momento", diz ela.

Que modelo é esse? Um mais exclusivo, com peças limitadas, feitas em pequenas quantidades e no próprio tempo da estilista. "No formato de drops, com vendas no nosso novo e-commerce e lojas parceiras", explica Juliana. O primeiro deles chega na semana que vem, na loja do Shopping Ibirapuera da New Era. É uma coleção-cápsula em parceria com a label, composta por camisetas, moletons e bonés inspirados nos uniformes de alguns times da Liga Norte-Americana de Baseball.

Foi essa collab, em celebração aos 100 anos da New Era, que possibilitou o retorno de Juliana ao SPFW e serviu de mote para a releitura de alguns códigos essenciais de seu próprio estilo: o mix de street com o sportswear, o romantismo com ares vitorianos, os babados, laços, silhuetas esvoaçantes e volumes bufantes.

Se engana quem acha que é mais do mesmo. Com tecidos mais encorpados, cartela de cores quase toda em preto e branco, estampas contidas e referências punks dos anos 1980, a marca chega mais madura e em boa sintonia com os desejos de consumo de agora.

Handred


O primeiro emprego do estilista André Namitala foi em Copacabana. Quando lançou sua marca, a Handred, escolheu o mesmo bairro para sediar seu ateliê. Meses antes da pandemia, mudou sua casa para lá também. Não surpreende, então, que sua mais recente coleção seja uma homenagem a esse endereço histórico do Rio de Janeiro.

Entre o calçadão desenhado por Burle Marx, a praia e um estúdio coberto por areia, André revisita o imaginário estético do bairro em propostas ora mais vintage (a alfaiataria dos anos 1940 e 1950 e as referências náuticas), ora mais atuais, como no mix de blazer oversized com bermuda ou nos shapes com leve toque esportivo. O denominador comum são os tecidos de alta qualidade, quase todos de fibras naturais, e os acabamentos e detalhes manuais, como as estampas aquareladas e bordados.

João Pimenta


"Essa coleção é um resumo de tudo que vivemos nos últimos meses", diz João Pimenta. De forma resumida, é sobre sufoco. Não respirar por doença, por ter alguém pressionando o joelho contra seu pescoço, por ansiedade, por uma máscara. Não fica difícil entender porque os modelos tinham seus rostos completamente cobertos. A imagem, contudo, contém significados mais aprofundados.

João se lançou na moda masculina e, depois de anos, passou a incluir criar peças femininas no seu repertório. Nos últimos meses, porém, começou a se questionar sobre essa divisão e concluiu que não havia sentido em reproduzi-la na passarela. Também se deu conta que precisava ampliar sua grade, expandiu do tamanho 44 ao 60. As restrições sanitárias, entretanto, colocaram um obstáculo na representação de tais pensamentos no desfile.

A solução veio pela não-identidade, pelo foco na roupa. Cobertos da cabeças aos pés, os modelos são corpos indefinidos. As roupas, feitas a partir do que o estilista havia em estoque, são canvas para exploração e construção de identidades e personalidades mil, a gosto e estilo do freguês.

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