Em março, durante a semana de moda de inverno 2026, filas enormes se formaram em frente às lojas da Chanel em Paris, num fenômeno apelidado de Chanelmania. Entre os produtos mais procurados (e esgotados) estavam os sapatos bicolores de bico quadrado apresentados pelo diretor criativo Matthieu Blazy na sua coleção de estreia, seis meses antes. “Os calçados são uma boa porta de entrada para conquistar clientes e, desde a chegada de Matthieu, eles ficaram mais ousados”, disse Bruno Pavlovsky, presidente de moda da maison, em entrevista ao The Business of Fashion.

O episódio e a fala do executivo ilustram bem algo que vem se consolidando pouco a pouco no mercado de luxo: os sapatos deixaram de ser mero complemento do look para se tornarem uma das categorias mais estratégicas do setor. Uma atualização do relatório da consultoria Bain & Co., divulgada em junho, mostra que as vendas do primeiro semestre de 2026 permaneceram estáveis após dois anos de recuo. O ponto de retomada de crescimento, segundo o mesmo estudo, está previsto para o segundo semestre de 2026.

De acordo com a análise da empresa Mordor Intelligence, o mercado global de calçados foi avaliado em 50,55 bilhões de dólares em 2026. Ele deve crescer a um ritmo anual de 4,35% até alcançar 62,54 bilhões em 2031. Conglomerados como LVMH e Kering vêm investindo pesado no segmento. Na LVMH, por exemplo, o desempenho da Louis Vuitton e da Dior na divisão de moda e couro é um dos principais motores do crescimento orgânico do grupo. 

“A categoria de sapatos é uma das que mais registrou aumentos de preço ao longo dos anos”, analisa Claudia D’Arpizio, sócia sênior e responsável global pela área de moda da Bain & Co., em reportagem publicada no WWD. Mas isso está mudando. “Por conta da desaceleração no mercado, as etiquetas estão recalibrando a precificação, criando opções mais acessíveis e reforçando a categoria”, continua. 

É possível ainda traçar um paralelo da movimentação com o chamado lipstick effect, teoria criada em 2001 pelo então CEO da Estée Lauder, Leonard Lauder. Nela, Leonard nota que, em períodos de incerteza econômica (como os posteriores ao 11 de setembro), o consumidor tende a manter gastos com pequenos luxos. Não que os valores praticados pelas marcas sejam acessíveis, mas os pares costumam custar menos do que uma peça de roupa.

Há, no entanto, um segundo fator em jogo: depois de anos em que bolsas concentraram o desejo do público, cresce também o apetite pelos calçados irreverentes e um tanto excêntricos vistos nas passarelas. Bicos alongados, materiais inusitados e construções pouco convencionais respondem a essa busca por um item capaz de transformar um look básico. Eles também ajudam a explicar por que, mesmo em contração de faturamento, o segmento segue concentrando tanto investimento criativo das maisons.

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Neste report, analisamos as principais tendências vistas nas temporadas de inverno 2026 (apresentada entre fevereiro e março) e no cruise 2027 (desfilado entre maio e junho). Você também descobre quais modelos melhor acompanham os visuais em alta e quais tipos de meia dominaram os desfiles para atualizar a sua gaveta.

As mais-mais: tendências que se destacaram 

As temporadas de inverno 2026 e cruise 2027 provaram que o quiet luxury ficou para trás, mesmo quando o assunto é sapato. E quanto mais inusitado, melhor. As botas ganharam força em versões que vão dos modelos de salto agulha e bico fino às que ultrapassam a linha do joelho. Também chamaram atenção os kitten heels e os escarpins superdecorados. No Brasil, a sandália de dedo lidera a tendência, reinventada com franjas, volumes inflados e salto alto.

Superdecorados

Entre os calçados mais marcantes da estação, estão justamente os ultradecorados, capazes de transformar até o look mais básico. A Prada desfilou botas vitorianas com plumas, a Miu Miu cobriu tênis e rasteiras com cristais, a Blue Man aplicou franjas em chinelos plataforma e a Bottega Veneta criou sapatilhas revestidas de spikes. 

Peludinhos

A pelúcia desce dos casacos para os pés. Ela aparece com pelos longos ou curtos, tanto em versões rasteiras quanto de salto alto.

Sapatos slim

Parece que a era dos tênis gigantes, à la dad shoes, chegou ao fim – ou pelo menos, vai dar um tempo. Além do solado fino, o formato dos tênis agora é estreito, como os de chuteiras, sapatilhas de corrida ou modelos usados por boxeadores. Exemplos de sapatos slim também incluem os jazz shoes, imortalizados pela Repetto e reinterpretados na Celine. Outras marcas que investiram na trend foram Fendi, Loewe, Erdem, Calvin Klein e Osklen.

Bico fino e salto alto

Se você já vinha desejando botas nos últimos meses, com certeza não está sozinha. O interesse pelo acessório cresceu consideravelmente nas últimas temporadas. Agora, a tendência ganha versão sexy e chique com opções de cano alto (até o joelho de preferência), salto e bico finos. Vide os desfiles de Tom Ford, Celine, Gucci, Calvin Klein e Maison Margiela.

Sandálias de dedo

As sandálias de dedo dominaram a primeira edição da Rio Fashion Week, realizada em abril. Dendezeiro e Karoline Vitto apostaram nos modelos de saltos altos, enquanto Aluf, Angela Brito e Salinas preferiram versões infladas. Na Osklen, as tiras ganham novas configurações e envolvem o pé pela lateral.

Barely there shoes

Uma das tendências mais controversas da temporada, os barely there shoes, como são chamados em inglês, são sapatos que aparentam nem existir. A intenção, no caso, é parecer que você está descalça. O efeito pode ser conseguido por meio de telas, como nas famosas sapatilhas da The Row, ou se resumir a uma estrutura que sustenta apenas o calcanhar, caso da sandália apresentada pela Chanel no desfile de cruise 2027. 

High vamp

Os escarpins high vamp são aqueles com o cabedal mais alto que cobre boa parte do peito do pé. O design dominou as passarelas, muito por conta da influência de Matthieu Blazy, diretor criativo da Chanel, um de seus maiores entusiastas. Eles também aparecem nas coleções de Isabel Marant, Jean Paul Gaultier, Louis Vuitton, Marni, Moschino, Calvin Klein, Khaite, Proenza Schouler, Tory Burch e Lucas Leão.

Low vamp

Na direção oposta do high vamp, a temporada valoriza também o escarpin decotado, modelo em que o cabedal deixa a base dos dedos aparente. Ele marca presença nas coleções da Balenciaga, Gucci e Ferragamo.

Bicolor 

A principal referência dessa tendência é o clássico sapato bicolor da Chanel, reinventado por Matthieu Blazy algumas vezes desde que estreou na maison. As versões do diretor criativo combinam desde a paleta clássica de preto e branco até ocre e marrom, rosa e vinho e dourado e prateado. Outras etiquetas seguiram no mesmo caminho: na Dior, o estilista Jonathan Anderson criou escarpins brancos com poás contrastantes e o designer Alessandro Michele, da Valentino, apresentou mary janes pretas com bico colorido. 

Loafer-mule

No inverno 2026, o loafer perde a parte de trás. A novidade aparece com o calcanhar pisado em propostas como as da Celine, ganha salto na Carven e é totalmente rasteiro na Mondepars e na Gucci.

Bico quadrado

Em oposição aos visuais de bico fino, a ponta quadrada também vem ganhando espaço. Na Hermès, ela é vista em botas coloridas, enquanto, na Jean Paul Gaultier, ganha uma interpretação em forma de sapato aberto com cadarço no tornozelo.

Bota over the knee

A bota over the knee, que cobre o joelho, é uma opção sexy e quentinha para o inverno. Na Boss e na Chloé, o calçado é usado com calças justíssimas, enquanto na Courrèges e na Khaite, é combinado com saias. Já na Givenchy e na Dries van Noten, ele é bordado ou feito de jacquard. 

Kitten heel

O kitten heel, ou microssalto, está de volta às passarelas. Criado nos anos 1950 para ensinar jovens a caminhar de salto alto, o modelo com altura de 2 a 5 centímetros recupera espaço no inverno 2026 impulsionado pelo conforto. Ele aparece tanto em propostas limpas e minimalistas, como na Celine, quanto em versões de bico fino e cheias de detalhes, caso de Marni e Burberry. Até o icônico Rockstud, da Valentino, ganha uma interpretação de salto baixinho.

Novas formas de usar cadarço

Esqueça a função prática. Nesta temporada, o cadarço não se mostra mais necessário para prender o sapato ao pé, ele é puramente ornamental. A tendência foi vista na Off-White, Marni, McQueen e Simone Rocha. 

As tendências de meias – e outros complementos que podem mudar a cara do seu sapato

Como o foco está nos sapatos, vale prestar atenção também nas meias que os acompanham. Dos designs mais divertidos, como as caneladas decoradas da Prada, às versões mais sensuais, como a meia-calça de bolinhas da Tom Ford, elas são parte essencial dos looks. As calças fusô também voltam aos holofotes, reforçando o destaque das roupas que enaltecem certos sapatos.

Meia canelada e chunky

A meia grossa, antes reservada aos dias mais frios, agora pode acompanhar escarpins kitten heel (como na Marni), clogs (Chloé) e peep toes (Fendi). As versões caneladas também funcionam com sandálias de tiras e modelos high vamp.

Meia-meia

O nome pode soar estranho, mas descreve exatamente o que é: uma meia cortada na altura do peito do pé. Ela apareceu discretamente na temporada de inverno 2026 internacional (na Bottega Veneta), mas ganhou protagonismo na RioFW. Dendezeiro, Angela Brito e Handred a combinaram com sandálias e chinelos de salto.

Meia-calça colorida

Ame ou odeie, a meia-calça colorida está de volta tanto em tons esmaecidos quanto naqueles mais vibrantes. Esse detalhe, muitas vezes pequeno, enaltece escarpins high vamp e loafers com calcanhar pisado. Na Jil Sander, a meia-calça branca tem um aspecto quase encardido, enquanto, na Valentino, o lilás das pernas é contrastado com sapatos de veludo. 

Meia-calça estampada

A meia-calça estampada de poá dominou as passarelas de inverno 2026, aparecendo em desfiles como Tom Ford, Balmain e Isabel Marant, combinada a escarpins e coturnos. Há ainda opções de estampa floral, como na Valentino, e monogramada, caso da Gucci. 

Calça fusô

Criada nos anos 1920 e popularizada na década de 1980, a calça fusô – aquela com alças que passam por baixo dos pés – retorna nesta estação. A combinação mais interessante é com os escarpins low vamp, cuja cava mais baixa ajuda a reforçar o efeito alongador de silhueta.

Com que sapato usar

Selecionamos as principais tendências de vestuário da temporada de inverno 2026. A seguir, explicamos cada uma delas e indicamos os sapatos que melhor funcionam com os visuais mais importantes da estação.

felpudos

Superfícies felpudas

As texturas assumem papel de destaque nesta estação. Pelagens (fake!) volumosas, lãs felpudas e materiais que remetem a ursinhos de pelúcia dão novas dimensões a casacos longos. Com eles, vale apostar em calçados igualmente peludos para reforçar o efeito tátil ou em botas de bico fino, criando um contraste interessante.

vestido folk

Vestido folk

Os vestidos folk de inspiração romântica, marca registrada da Chloé de Chemena Kamali, apareceram também na Fendi e na Gabriela Hearst. A peça é longa, geralmente feita de renda, tem transparências e camadas de babados. Ela funciona tanto com botas mais pesadas quanto com rasteiras e chinelos de dedo. 

vestido colado

Bodycon

Os looks bodycon deixam o corpo em evidência por meio de vestidos colados, tecidos tipo segunda pele e faixas estilo bandagem. A tendência foi vista na Alaïa, marca que domina a valorização de silhuetas ajustadas, e pode ser usada com escarpins low vamp ou com modelos de telinha (o barely there shoe) em versão salto alto.

alfaiataria

Alfaiataria sexy

Nesta temporada, o terno ganha um ar sensual. Os blazers são estruturados e, muitas vezes, usados sem camisa por baixo. A tendência marcou presença na Saint Laurent, na Stella McCartney e na Fendi. Para compor a produção, escolha sapatos low vamp ou ultradecorados. 

ombros largos

Ombros largos

Os ombros marcados seguem em alta, ainda que com volumes mais controlados do que nas estações anteriores, como visto nos desfiles da Balmain, Tom Ford e Saint Laurent. Eles conversam melhor com botas de bico fino e salto agulha, para um visual mais poderoso, ou com loafers com o calcanhar pisado. 

golas estruturais

Golas esculturais

As jaquetas com golas altas e esculturais não dão sinais de cansaço. A peça que emoldura o rosto apareceu novamente nas coleções da Balenciaga, Courrèges e Rick Owens. Com elas, vale combinar calças fusô e escarpins low vamp. 

peplums

Peplum volumoso

A silhueta da temporada é alongada, mas também abre espaço para propostas marcadas por peplums e cinturas bem definidas. A cintura império – posicionada logo abaixo do busto – resgata referências históricas, como na Dior. Na Stella McCartney, o brilho da peça é equilibrado por um suéter cinza de aparência despretensiosa. Já na Givenchy, o blazer ajustado recebe volumes laterais que esculpem a silhueta. Aqui, rola complementar essas proporções com sapatos de amarrações inusitadas ou botas over the knee.

caudas assimetricas

Cauda assimétrica

Alguns estilistas apostaram em modelagens assimétricas no inverno 2026. São saias, vestidos e blusas com caudas longas, geralmente com a parte da frente curta e a de trás comprida ou com tecidos longos partindo da lateral das peças, como visto na Loewe e na Dior. Na passarela, a tendência é usada com sapatos slim, mas ela também pode ser acompanhada de saltos high e low vamp.

lingerie

Lingerie 

Combinada com itens de couro, emborrachados ou de alfaiataria, a tendência da lingerie aparente ganha sobrevida nesta estação. Ela apareceu nas passarelas da Tom Ford e da Balmain e pode ser usada com kitten heels ou loafers.

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