Uma mulher trans à frente de um programa matinal ao vivo. Um casal de drag queens comandando uma atração de culinária. Dois homens gays e uma mulher comentando futebol durante a Copa do Mundo. Por muito tempo, formatos como esses pareciam bem distantes da televisão brasileira. Mas, em vez de exceções, essas figuras formam a grade da programação da Dia TV.

Criada por Rafa Dias em 2023, a emissora nasceu no YouTube e acabou se tornando um dos casos mais bem-sucedidos do entretenimento digital do país. Hoje, com um estúdio próprio, localizado em São Paulo, transmite via streaming para outras redes e para os televisores da LG e Samsung.

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Depois de passar pela MTV e outros canais, o CEO estava há uma década à frente da Dia Estúdio, uma produtora audiovisual e agência de influencers fundada em Florianópolis, em 2013, mas se sentia estagnado. “Eu queria vender a empresa, desistir completamente. Já tinha construído um patrimônio que considerava suficiente para a minha vida”, conta à ELLE.

Foi então que ele começou a pensar sobre a maneira como consumia conteúdo. “Eu comprei uma televisão e percebi que praticamente não a ligava. Não me identificava mais com nenhum canal linear. Ao mesmo tempo, também não queria abrir um streaming e ficar procurando alguma coisa para assistir. Eu só queria ligar a TV e ter um canal me acompanhando.”

A ideia ganhou forma rapidamente. Rafa reuniu criadores com quem já trabalhava há muito tempo, desenhou programas sob medida para cada um deles e criou uma grade de programação contínua. “Eu dei um programa para cada um, desenhei formatos específicos e montamos uma grade. Quando estreou, era algo que ninguém tinha feito ainda.”

Feita por quem cresceu na internet, a empresa se apresenta como a primeira TV do mundo feita por criadores de conteúdo – e os números mostram a dimensão do projeto. Em apenas dois anos, ela ultrapassou 5,5 bilhões de visualizações em suas transmissões ao vivo no YouTube. Atualmente, a Dia TV reúne mais de 60 programas e uma média de seis horas inéditas diariamente. Sua programação funciona 24 horas por dia, de forma gratuita, e agora também lidera a categoria de entretenimento disponível na Samsung TV Plus.

Para Rafa, porém, o crescimento da plataforma não pode ser explicado apenas pelos números. “Eu acho que as pessoas estão vivendo uma transformação na forma de enxergar e consumir a televisão”, afirma. “Em 2026, televisão aberta é televisão conectada à internet. Passou o tempo de achar que TV aberta são apenas aqueles quatro canais que todo mundo conhece. Hoje você conecta sua televisão ao wi-fi e tem um mundo inteiro de possibilidades.”

Essa mudança ainda acompanha uma transformação global. “Nos Estados Unidos, pela primeira vez, o YouTube superou todas as emissoras de TV somadas em audiência. Historicamente, o que acontece lá chega ao Brasil pouco tempo depois. A gente sabe que isso vai acontecer aqui em breve.”

Apesar do crescimento acelerado, a Dia TV mantém uma sensação de proximidade com o público. Ainda que grande parte do elenco seja formada por criadores LGBTQIA+ que já possuíam trajetórias consolidadas na internet, como Lorelay Fox, Diva Depressão, Nátaly Neri, Beta Boechat e diversos outros nomes, Rafa diz que a ideia nunca foi construir uma emissora voltada especificamente para a comunidade. Aconteceu por acaso.

“Isso nunca foi pensado dessa forma. Não era uma estratégia nossa. Era simplesmente o nosso grupo. São as pessoas com quem a gente conversava, trabalhava e criava junto”, pontua. “Quando falam que a Dia TV tem diversidade, é porque nosso grupo é realmente diverso. A gente está na casa um do outro, se encontra o tempo inteiro, troca o tempo inteiro e essa convivência se reflete na programação.”

Para quem assiste, essa relação se tornou uma das principais marcas da Dia TV. “Você assiste à estreia de um programa e os outros apresentadores estão lá no chat acompanhando, torcendo. Todo mundo quer o sucesso do outro, porque estamos crescendo juntos.”

Além da bolha

Para Nátaly Neri, que fala sobre beleza, sustentabilidade e bem-estar, fazer parte da Dia TV representou a oportunidade de expandir conversas que durante anos ficaram restritas a nichos específicos.

“Quando eu comecei, falava muito sobre veganismo, questões raciais e sustentabilidade. Eu tinha dificuldade para furar a bolha”, diz ela. “Na Dia TV, eu vi não só uma oportunidade de ampliar meu público, mas também um lugar onde pude descobrir outras versões de mim mesma como criadora.”

Ela acredita que a plataforma também ajudou a profissionalizar a percepção sobre o trabalho dos influenciadores. “Durante muito tempo, criador de conteúdo era visto como alguém fazendo vídeos de forma amadora. A Dia TV ajuda a mostrar que existe planejamento, estratégia, estudo e responsabilidade.”

Beta, uma das integrantes mais recentes do elenco, no ar de segunda a sexta, às 11h, com o programa Todo Dia, concorda. “A televisão passou muito tempo olhando para os criadores como se fossem apenas pessoas brincando na internet. Hoje é a própria TV que tenta entender e reproduzir essa linguagem.”

Para ela, a diferença está na autoria. “A gente roteiriza, grava, edita, produz. Não somos apenas apresentadores. Existe uma autoria muito forte em tudo o que fazemos. A Dia TV também vai na contramão da tendência dos conteúdos curtos e rápidos. Produzimos vídeos longos, com profundidade e responsabilidade, porque sabemos que quem nos assiste passa muito tempo com a gente.”

Um lugar para realizar sonhos

Se para alguns a Dia TV representou expansão, para outros significou também a possibilidade de realizar projetos que pareciam inviáveis. É o caso dos apresentadores Fih e Edu, do canal Diva Depressão, responsáveis pelo reality Corrida das Blogueiras, em que jovens criadores disputam prêmios e parcerias com grandes marcas, em provas que vão desde criar campanhas publicitárias até reproduzir trends do TikTok. No ar desde 2018, o programa retorna em outubro com sua oitava temporada.

“Desde o começo, no YouTube, nosso sonho era fazer coisas maiores. Ter um reality show, programa de culinária, criar formatos diferentes. A Dia TV virou um lugar para realizar sonhos. Hoje a gente consegue fazer coisas que antes pareciam impossíveis”, explica Edu.

A drag queen Lorelay Fox, que construiu uma carreira nas redes falando sobre diversidade, vivência LGBTQIA+, maquiagem, mistérios e cultura pop, vive uma experiência semelhante. “Eu comecei fazendo lives dentro de casa, durante a pandemia. Era eu sozinha, falando para uma câmera.” Hoje, suas transmissões acontecem diante de uma plateia presencial. “É muito incrível pensar nisso. Os ingressos esgotam antes mesmo de as pessoas saberem quem será o convidado. Elas estão indo porque acreditam no que a gente construiu.”

Crescer junto com a audiência

Depois de mais de uma década produzindo conteúdo, seus criadores passaram a acompanhar o amadurecimento do próprio público. “A frase que a gente mais escuta hoje é: ‘Eu cresci assistindo vocês’. Mas faz sentido. Estamos há mais de dez anos na internet. Já somos a televisão de uma geração”, diz Fih.

“Tem gente que fala que os pais passaram a entender melhor a comunidade LGBTQIA+ assistindo aos nossos conteúdos. As pessoas veem um casal vivendo junto, construindo uma vida, trabalhando e sendo reconhecido por isso, e percebem que aquilo é possível”, completa Edu.

Nátaly destaca o impacto disso a longo prazo. “Hoje encontro mulheres que começaram a me assistir aos 13 anos e agora têm 25. Pessoas que definiram caminhos profissionais ou pessoais por causa de alguma coisa que ouviram em um vídeo meu.” Para ela, isso reforça a responsabilidade de quem produz conteúdo. “Não dá para fingir que o que a gente fala não impacta as pessoas. Impacta. E muito.”

Novas frentes

Em 2026, a Dia TV amplia ainda mais sua atuação. Só em junho, a emissora realizou a transmissão oficial da 30ª Parada do Orgulho LGBT+ e começou um especial sobre a Copa do Mundo através do programa Camisa 24, com Camila Fremder ao lado da dupla Diva Depressão, além de preparar uma cobertura completa das eleições.

A grade segue crescendo. Entre as novidades, estão o Spa da Nátaly, dedicado a bem-estar e autocuidado, o retorno do Arquivo Oculto, de Lorelay Fox, Mônica Total, novo programa apresentado por Mônica Martelli, que contará sempre com uma especialista fixa e um convidado diferente por semana para conversas, além de Casos e Casos, apresentado por Samanta Alves, que promete mediar conflitos familiares e contará com plateia, ampliando a presença de formatos presenciais e de auditório.

“Na Dia TV, conseguimos equilibrar os assuntos sérios, trazer nosso posicionamento e, ao mesmo tempo, fazer isso de uma forma leve e divertida”, reforça Lorelay Fox.

O principal legado da plataforma, segundo Rafa Dias, talvez esteja em algo maior do que qualquer programa específico. “A Dia TV existe porque as pessoas começaram a enxergar a televisão de outra forma. Quando as pessoas conectam a TV à internet, elas descobrem um novo jeito de assistir. E nós queremos fazer parte dessa nova era do entretenimento.”