Ivoneide conhece a sala 1 do Belas Artes da Consolação como quem conhece as particularidades do azulejo do próprio box de banheiro. Aquele quebradinho no canto da saboneteira, aquela mancha no piso do dia em que resolveu passar tinta vermelha no cabelo. Ela sabe que as poltronas vão de A a O, de 1 a 20, sendo o corredor central entre a 10 e a 11. Frequenta a sala de domingo a domingo sempre às 19h. E não, não tem nenhuma paixão especial por cinema. Compra o ingresso sempre na E11 ou E10, a que estiver disponível, e chega 10 minutos depois do horário de início da sessão. Se está na E11, entra pela E20 pedindo licença e se espremendo entre os que já estão sentados. Se está na E10, entra pela E1. Funciona melhor aos sábados, mas você que trabalha, se surpreenderia com a quantidade de gente que come pipoca vendo filminho numa segunda-feira qualquer.
É que Ivoneide é solitária, muito solitária. Sente uma falta tremenda de contato humano, especialmente de contato humano do joelho pra baixo, assim na altura das canelas. Braços, costas, tórax ela resolve no metrô, até quadril e coxas quando sentada. A questão são as barrigas que, quando em pé, produzem espaços vazios na altura das pernas. Esteja onde estiver, para tudo às 17h e embarca na estação mais próxima em direção a Sé, da Sé para a linha amarela do ladinho do Belas Artes. Pronto, no vagão ela sente quase que cada milímetro do corpo encostar em outros corpos e subiria as escadas feliz da vida não fossem as canelas chorosas por falta de contato. A cabeça, ela resolve no salão perto de casa, que também se chama Belas Artes, embora não dê pra ir todos os dias.
Só ontem, depois de 78 sessões de O Agente Secreto na sala 1 (pararam de exibir no Natal e no Ano-Novo), Ivoneide teve a ideia.
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