Da primeira vez que falei em voz alta sobre ter um filho, completei a frase com “mas eu não me vejo tendo filho com uma mulher”. Estava numa viagem com amigos no Maranhão, tinha acabado de viver uma relação apaixonada (e conturbada) com uma mulher. Me achava desconstruída, “zero preconceito”. Tinha 30 anos e já tinha namorado algumas mulheres. Como é que eu ia ter preconceito comigo mesma? Quando deitei na cama, depois de um dia inteiro de alegria e conversas infinitas com amigos de uma vida inteira, me veio outra coisa na cabeça: “se tem alguém que teria coragem de ter um filho com uma mulher… Sou eu”.

Corta para alguns anos depois, aqui estou, mãe de um menino maravilhoso de 5 anos. Um menino que tem duas mães: a mamãe Dani e a mamãe Laura. E é sobre essa jornada que eu vou falar nesta reportagem, mostrando não só que nossas famílias existem como já são muitas — e diversas também.

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Laura, Martin e Dani Arrais. Foto: arquivo pessoal

Embora o casamento homoafetivo seja reconhecido no Brasil desde 2013, ainda é difícil ter dados consolidados sobre nós e nossas famílias, até pelo fato de muitos casais viverem em união estável não registrada e também porque há subnotificação por questões de medo, insegurança e estigma social. Dados recentes da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-BR) apontam que 50.838 crianças foram registradas por casais homoafetivos no Brasil entre 2021 e 2023. 

A gente se reconhece no que vê. Se hoje os feeds de redes sociais conseguem trazer famílias de duas mães, isso não era realidade para millennials que cresceram nos anos 1990 e 2000. Mal existia referência de mulheres lésbicas na cultura — o que já mudou bastante, ainda bem! Hoje, temos Ludmilla e Brunna Gonçalves, mães da Zuri; Nanda Costa e Lan Lahn, mães da Kim e da Tiê; Márcia Castro e Nanda Oliveira, mães da Maria Flor.

Mas vou lembrar sempre das personagens lésbicas “explodidas” num shopping center por conta da rejeição que tiveram na novela Torre de Babel, de 1998. Não dava nem para ser lésbica, imagina se dava para imaginar ser mãe? 

Quando a cantora Cássia Eller morreu, em 2001, um imbróglio se desenrolou com cobertura da mídia. Ela era uma das mães do Chicão — hoje o cantor Chico Chico — ao lado de Maria Eugênia Vieira Martins, que precisou lutar pela guarda do filho. A decisão da Justiça foi considerada ousada para a época: reconheceu o direito dela de ser mãe, mesmo sem ter gestado. 

A cena marcou a vida de muitas meninas que estavam descobrindo sua sexualidade. “Quem foi a bandeirante dessa seara pra mim foi a Cássia Eller”, diz Milena Cabral, 34, diretora de arte e uma das mães da Gal, de 4 anos, ao lado de Gabriela Oliveira.

Keka Ribeiro, 39, coordenadora de projetos educacionais, também tinha a mesma referência, mas aponta o que havia de ambíguo nisso: “Era uma história linda e forte, mas permeada por muitos desafios. Foi contada a partir das dores dessa família, do questionamento de direitos fundamentais”, lembra ela, que também é diretora executiva do Coletivo Dupla Maternidade e casada com Jurah Di Anin, 48, educadora ambiental. “Cássia e Maria Eugênia foram e serão sempre grandes referências para famílias de duas mães, por serem mães fortes, pelo amor com que maternaram, mas também pelas batalhas e vitórias no acesso a direitos”, completa. 

Mariana Quintanilha, 44, executiva de marketing, uma das mães dos gêmeos Stella e Gabriel, de 9 anos, acrescenta as personagens da série The L Word à sua formação de repertório. “Lembro do casal de mulheres que conseguiu registrar a filha no nome das duas. Mas tudo era muito distante. Eu não conhecia absolutamente ninguém na ‘vida real’ que vivesse algo parecido.”

A falta de referências também marcou Joyce Ribeiro, 41, gestora de políticas públicas, casada com Priscila Annunciato. Elas são mães de Alice e Gael, de 7 e 5 anos, respectivamente. “Não conhecíamos outras mulheres lésbicas com filhos, nem famílias próximas que tivessem passado pela adoção. Fomos desbravando. E isso, ao mesmo tempo que traz insegurança, também fortalece, porque você constrói o seu próprio caminho.”

Ninguém pergunta se uma lésbica quer ser mãe

Enquanto mulheres heterossexuais são pressionadas a constituir família (e não deveriam), quase ninguém faz essa pergunta para casais de mulheres. E isso ressoa de formas bem diferentes em cada uma.

“Esse desejo da maternidade não veio atravessado por pressão social. Pelo contrário, ele veio quase no silêncio. Ninguém pergunta para duas mulheres se elas querem ter filhos”, diz Joyce.

Para Keka, o silêncio também pesou. “Desde sempre desejei ser mãe, foi o sonho de uma vida toda. Mas, quando me entendi lésbica, ouvi da minha própria mãe: ‘você vai ficar com mulheres e desistir de ter filhos?’. Precisei de muita resistência pra manter esse sonho vivo.” Ela conta que começou a planejar com a esposa, Jurah Di Anin, educadora, a maternidade. “Cultivamos esse sonho com muito carinho, mas restrito à nossa intimidade. Por medo dos questionamentos e reações, foi um assunto privado até de fato se tornar realidade.”

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A família de Maíra Libertad. Foto: arquivo pessoal

Maíra Libertad, enfermeira obstetra, 45, também sempre quis ter filhos. “Na infância eu dizia que teria cinco. Nunca consegui pensar a vida sem ter filhos em algum momento do futuro, mas aí os anos foram passando e nunca parecia uma boa hora pra pensar nisso. Não acho que eu tive dúvidas se poderia ter filhos por ser lésbica, mas durante um tempo eu só não sabia exatamente como. Quer dizer, eu sempre quis gestar e parir, sabia que de alguma forma era possível, mas fiquei muitos anos sem ter noção concreta de como é que eu faria isso.”

Para Milena, essa ausência de pressão foi, na verdade, libertadora: “Tive tempo e espaço pra traçar meu plano sobre maternidade sem qualquer interferência externa.”

Na minha história e na da Laura, o desejo também foi vivido na intimidade. Eu já tinha começado a me incomodar com a “falta” de pressão social sobre ter um filho. Para você ver como são as coisas. Enquanto mulheres héteros reclamam, com toda a razão, sobre a pressão que sofrem de família e até de desconhecidos, eu queria, de alguma forma, ser vista… O que não acontecia. Minha família não perguntava de relacionamento. Dava até pra imaginá-los pensando: “tá tudo bem ser lésbica, mas não precisa ficar falando pra todo mundo”. Olhando para trás, gosto de ter optado por esse caminho mais reservado. O processo em si já traz muita ansiedade, então nos “blindar” das perguntas e das expectativas das outras pessoas acabou sendo bom.

Como a vontade se concretiza 

Se hoje o acesso à informação é bem mais simples, quando Mariana e Júlia Gutnik começaram o processo rumo à maternidade, ainda era tudo mato. “Peguei o contato do médico que fez a FIV [fertilização in vitro] de uma amiga hétero. Na primeira consulta, ficamos bem tensas sobre como seria a reação dele. Pra nossa sorte, ele tinha uma pessoa lésbica na família. Fomos o primeiro casal de mulheres da clínica.”

Keka lembra que a jornada incluiu muito diálogo e amadurecimento da ideia. “Foi fundamental conhecer (mesmo que virtualmente) histórias de famílias que já existiam, enquanto a gente não sabia nem como começar. Fomos percebendo que poderíamos ser mães por adoção, por inseminação caseira ou artificial, por fertilização in vitro, usando óvulo da mãe que não gestou ou não.”

As redes sociais também tiveram um papel importante para Milena e Gabriela. “Isso foi e é ainda muito importante pra mim: ver pessoas que vivem a maternidade de alguma forma mais próxima à minha faz com que eu não me sinta tão isolada. Afinal as questões da dupla maternidade são bastante diferentes das questões de uma maternidade hétero. Claro que há intersecções, mas ainda é uma experiência de maternidade muito particular.”

Joyce e Priscila sabiam que o caminho decidido não seria automático. A decisão pela adoção foi uma escolha muito consciente. Adoção nunca foi plano B, foi escolha desde o início. A gente mergulhou nesse universo com muita responsabilidade: estudamos leis, entendemos processos, fluxos, tempos. Entendíamos que não bastava desejar, era preciso se preparar para o processo jurídico e, principalmente, para a chegada de uma criança”, lembra ela. “Depois de tempo, espera e preparação, o telefone tocou em um fim de tarde e a nossa vida mudou. Em poucos dias, estávamos com ela no colo. Foi um encontro muito potente, desses que reorganizam tudo.”

Um pouco mais pra frente, elas voltaram para a fila de adoção. Pensaram até em ter três filhos, iniciando um processo de preparação para a FIV. Mas a pandemia chegou, interrompeu esse caminho e, no meio desse tempo, o filho delas chegou. “Nosso filho tão esperado. A vida também respondeu por nós. E entendemos que a nossa família já estava completa. Até hoje, seguimos com essa decisão.”

Na nossa relação, a Laura, sempre mais prática do que eu, logo colocou na mesa o desejo de ter um filho. Eu achava que era necessário fazer uma pós-graduação em infância e cuidado para decidir colocar uma criança no mundo. Se não fosse ela com um desejo já tão bem elaborado, talvez eu estivesse até agora fazendo lista de prós e contras. Optamos por fazer uma FIV, que deu certo de primeira, pra nossa alegria e surpresa também. 

A curiosidade alheia (e seus limites)

São muitas as formas de duas mulheres terem um filho (veja mais em: Caminhos para a maternidade de mulheres lésbicas). Em comum, independentemente do método, todas temos que lidar com uma curiosidade imensa sobre a genética das nossas crias. “Ah, ele é a cara da mamãe X”, “ela faz a mesma coisa que a mamãe Y”. Se a gente for se estressar a cada vez que isso acontece, nossos cabelos vão ficar brancos antes do tempo. 

Mas vale dizer para você, aí do outro lado, que a melhor postura é entender como aquela família topa destrinchar esse tipo de conversa. Não somos experimentos de laboratório disponíveis pra curiosidade de qualquer pessoa. Vale pisar nesse chão devagarinho. 

“Não quisemos contar que estávamos planejando um filho pra quase ninguém. Pessoalmente, achava já bem ansiogênico e não queria adicionar a ansiedade dos outros no processo”, conta Maíra. “Decidimos também que não contaríamos sobre a genética da nossa filha, a não ser que fosse medicamente necessário. Então, nunca comentamos de quem é ou não é o óvulo nem informações do doador. Isso será conversado com nossa filha ao longo do tempo. É uma história que ela pode decidir o que e como compartilhar.”

Quando Maíra e Mariana anunciaram a gestação, nem disseram qual das duas estava grávida. “Queríamos desafiar essa curiosidade que revela pré-concepções das pessoas. Tanto faz quem está gestando, ponto.” A atitude causou reações bizarras: apostas, debates acalorados em grupos de conhecidos. “Foi péssimo, mas também uma oportunidade de fazer as pessoas refletirem por que queriam tanto saber. A curiosidade parte de um lugar de diferenciação que atribui determinados valores maiores ou menores para certos fatores, como a genética, quem gestou, com quem se parece etc.”, completa. 

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Maíra, Mariana e as filhas do casal. Foto: arquivo pessoal

Mariana lembra que lidar com a curiosidade foi mais intenso do que esperava — ainda mais com gêmeos, o que chamava atenção dobrada. “Saíamos e era chuva de perguntas. Algumas pessoas praticamente enfiavam a cabeça no carrinho, olhavam pra gente e perguntavam: quem é a mãe? Sempre respondíamos: ‘nós duas’. E aí vinham comentários de ‘que incrível’ ou caras de reprovação. Sempre imprevisível.”

Para Joyce, a curiosidade pode ser legítima, mas também é invasiva. “Com o tempo, aprendemos a escolher o que compartilhar e com quem. A nossa história não é pública, mas a nossa existência é política. O simples fato de existirmos como família já comunica muita coisa.”

“A nossa história não é pública, mas a nossa existência é política. O simples fato de existirmos como família já comunica muita coisa.”
Joyce Ribeiro

Caminho parecido com o de Keka e Jurah. “Não costumo expor minha história de cara, e quando perguntam, a princípio dou respostas pouco didáticas, deixo a pessoa aprofundar as perguntas. Se percebo que a curiosidade é genuína e respeitosa, posso responder com mais atenção, mas, se perceber que existe alguma possibilidade de um julgamento preconceituoso, rapidamente me retiro da conversa. Nesses cinco anos de dupla maternidade, fui aprendendo a colocar limites importantes, inclusive em respeito ao meu filho.”

A gente sabe bem distinguir curiosidade genuína de invasão desrespeitosa. 

Para Milena, é uma responsabilidade pessoal se interessar e conhecer as possibilidades de tudo o que existe. “É ofensivo questionar a configuração familiar seja ela qual for, mas, para além disso, que usemos as ferramentas disponíveis para expandir nosso léxico sobre o que nos rodeia, porque a verdadeira lição sobre diversidade mora dentro de cada um e quão diverso nós mesmos tornamos os nossos círculos.” 

Você já pensou em como coloca a diversidade em pauta no seu dia a dia? 

Medo e preconceito: o que ainda bate à porta

Essa falta de letramento sobre a diversidade do mundo abre porta para preconceito. A gente vive em estado de hipervigilância, pensando que, em algum momento, nossos filhos vão sofrer por serem filhos de duas mães. 

Keka relembra situações emblemáticas: “Demoramos seis dias para registrar o nascimento do nosso filho — a cada tentativa, o cartório exigia um documento diferente. Anos depois, escolhemos uma escola e, quando fomos fazer a matrícula, disseram que as vagas tinham acabado e que, ‘de qualquer forma’, nossa presença poderia ser desconfortável para as outras famílias.”

Joyce nomeia as camadas que atravessam sua família: “Somos duas mães, com dois filhos por adoção, uma família inter-racial. Uma criança negra, um menino branco. Uma mãe afroindígena e uma mãe branca. O racismo estrutural se manifesta. A heteronormatividade também. A ideia de que a adoção é uma forma ‘menor’ de constituir família aparece. Nada disso é isolado. São expressões de um sistema que ainda tenta definir quais famílias são legítimas e quais precisam ser explicadas”, detalha. E ela reforça como a resposta não é apenas reativa, mas cotidiana e política. “A gente constrói, todos os dias, um ambiente de pertencimento, de identidade e de segurança para os nossos filhos. Nossa forma de enfrentar o preconceito é não permitir que ele organize a forma como a nossa família se vê.”

Milena relembra uma profissional de saúde que fez perguntas invasivas logo no início do puerpério: “Isso me bateu muito mal. Troquei de profissional e tracei um plano inteiro de como não nos expor a esse tipo de situação. Endurecer minha casca na rua, amolecer minha casca no privado. É complicado, mas eu sou a muralha que hoje protege a minha filha. Sei que não vai ser sempre assim, mas, enquanto puder, que eu seja capaz de ser.”

“E tem também o preconceito que a gente já antecipa. Por exemplo: muitas vezes em carros de aplicativo, a gente evitava se comportar como um casal com filhos, porque já ouvimos histórias horríveis de motorista deixando pessoas no meio da rua, à noite, em avenidas”, dispara Mariana. 

No cotidiano, famílias como as nossas se deparam com formulários em hospitais, escolas, qualquer lugar em que está escrito “mãe” e “pai” onde deveria conter “filiação”. Simples e inclusivo.

Quando a criança chega, tudo muda

Mas vamos falar da beleza, do que vem depois de tanto enfrentamento? Quando a criança chega, vem junto uma coragem gigante. O que antes era dúvida e incerteza dá espaço para um ser humano ali na nossa frente. Meu filho me encheu de um senso de urgência. Estou pronta para enfrentar tudo por ele. Mas sabe o que mais desejo? Que a gente possa descansar nessa maternidade também.

“Minha filha me deu uma pulsão de vida única”, diz Milena. “Não que eu não deseje muito, anseie muito por coisas na minha vida, mas a coragem necessária pra ser uma boa mãe é o que me faz muitas vezes ter a faísca necessária pra conquistar determinadas coisas. Meu combustível é esse amor avassalador que dia após dia alimento junto da minha filha.” 

Como seus filhos vieram pela adoção, esse momento na vida de Joyce é dividido: o biológico, que honra a história que veio antes, e o que podemos chamar de nascer afetivamente, que acontece no vínculo, no encontro, no momento em que nos reconhecemos como família. “Muda tudo. Muda a forma de ver o mundo, o tempo, as prioridades. E nasce uma responsabilidade enorme, mas também uma alegria cotidiana, nas pequenas coisas, nas descobertas, na infância sendo vivida.”

Mariana recorda como a mudança foi abrupta. “Um dia você não tem um bebê casa, no outro você tem um mini ser (ou dois!) para alimentar, cuidar, limpar, amar. Ficamos muito perdidas nos primeiros meses, mas depois a gente vai se acostumando, o amor vai crescendo exponencialmente e o que fica é uma mudança profunda de perspectiva de mundo. Passei a sentir mais vontade de cuidar do mundo, de participar mais ativamente de comunidades. A gente passa a pensar mais no futuro, né?”

Keka, por sua vez, se sentiu forte e invencível, mas também apavorada. “Concretizar o nosso desejo foi bom demais e, a partir da chegada dele, fomos construindo uma nova família. Integramos uma pessoinha cheia de amor e personalidade, muito melhor do que poderíamos imaginar. São muitas as emoções, além das alegrias e medos que a chegada de uma criança manifesta em seus cuidadores.”

Maíra reforça como o nascimento da filha virou tudo de pernas pro ar. “Sobre especificamente lidar com a dupla maternidade e os desafios que a sociedade fora da bolha trazem, eu diria que minha filha acentuou meu compromisso em falar sobre isso, porque agora não é apenas sobre mim ou minha esposa, mas sobre como o mundo vai se apresentar pra ela, as coisas que ela vai ouvir, com as quais vai ter que lidar. É um trabalho contínuo em duas frentes: fortalecê-la e ensiná-la a lidar com o que aparecer e trabalhar para construir um mundo que seja mais respeitoso e acolhedor com a existência dela e da nossa família.”

A importância de crescer em comunidade

Desde a gestação da Laura, eu tinha medo da minha maternidade ser invisibilizada. Quando nosso filho nasceu, esse medo ganhou mais uma camada: eu não queria que meu filho fosse o único filho de duas mães em qualquer lugar; queria que ele crescesse cercado de outras crianças com famílias como a dele. 

Foi isso que me levou a criar o que hoje é o Coletivo Dupla Maternidade. O ano era 2021, ainda estávamos na pandemia. Para não enlouquecer, começamos a sair de casa, de máscara, para passeios breves. Fomos a um parque e a um espaço de brincar. Em ambos, só víamos famílias formadas por mãe, pai e filho. Aquilo ali me gerou um incômodo: como seria, para o meu filho, crescer vendo no parque, no espaço de brincar, na música, na TV e em todo lugar apenas famílias diferentes da família dele? Não queria que ele crescesse sendo o “estranho”, o “diferente”, a “atração”. 

Criei um grupo de Whatsapp com algumas poucas pessoas que conhecia virtualmente da dupla maternidade. Fiz uma proposta: bora fazer um encontro num parque? Assim, em setembro de 2021, aconteceu o primeiro encontro, no parque Ibirapuera, em São Paulo. Ali, compareceram mais de 50 pessoas – a rede de pessoas que eu conhecia que viviam a mesma realidade que a minha quintuplicou. No segundo encontro, 100 pessoas. Uma praça inteira tomada por nós! Entendemos a potência. Gente que nunca tinha visto outras famílias conversando, se vinculando, criança perguntando “todo mundo aqui tem duas mães?”. A surpresa e a sensação boa de ser apenas mais um, e não o único.

Hoje, o Coletivo é uma organização da sociedade civil que reúne mais de 1500 pessoas em uma comunidade virtual que se organiza pelo Whatsapp e se desdobra em rodas de conversa online e encontros ao vivo. Tem gente de todo o Brasil, pessoas que recorreram a diferentes métodos para construir suas famílias. Nosso maior objetivo é criar e cultivar um espaço para que cada vez mais famílias que vivam a dupla maternidade possam se encontrar, se conectar e contar umas com as outras. Essa articulação tem como objetivo ser um espaço seguro para nos fortalecermos, para entendermos que nossa existência é política também — e que isso implica em ação. 

Para fazer parte, basta mandar uma mensagem direta pra gente no www.instagram.com/coletivoduplamaternidade. Nossa comunidade conta com grupos temáticos, de tentantes a mães de bebês, passando por famílias inter-raciais, mães não gestantes, mães separadas, indicações, além de grupos regionais. 

O Coletivo Dupla Maternidade virou até fonte para pesquisas. A mais recente, conduzida por Alice Canuto, dentro do Programa de Psicologia Clínica e Cultura, da UnB (Universidade de Brasília), sob orientação da professora Silvia Lordello, investiga as vivências da dupla maternidade constituídas por meio das tecnologias de reprodução assistida. “A pesquisa, ainda em andamento, começa a revelar um paradoxo persistente: a infraestrutura jurídica avançou, mas o reconhecimento cotidiano ainda falha. Quase 85% das mães entrevistadas registraram seus filhos com duas mães já na primeira tentativa no cartório — e mais de 90% formalizaram a união como casamento ou união estável”, conta Alice. 

Ela acrescenta que esses mesmos documentos não atravessam inteiros a vida ordinária: 91% das respondentes já encontraram formulários com os campos “pai e mãe”, e mais de um quarto deparou com fichas que previam espaço para apenas uma mãe. “O problema, revelam os dados, não está só no cartório. Família, saúde e lazer aparecem como os espaços onde a mãe não gestante mais precisou provar que também é mãe.”

“Família, saúde e lazer aparecem como os espaços onde a mãe não gestante mais precisou provar que também é mãe.”
Alice Canuto

“O direito aparece no documento, mas desaparece nas microinfraestruturas do cotidiano”, aponta a pesquisadora. “Nem mesmo o acesso a recursos jurídicos, econômicos e educacionais elimina as falhas de reconhecimento. O que falta ainda é uma gramática social que torne a dupla maternidade inteligível — nas fichas, nos serviços, nos imaginários.”

Um dado aponta para outra tensão: mais da metade das entrevistadas, 55,6%, acreditava que ter duas mães tornaria a maternidade mais leve. A realidade, diz a pesquisadora, é outra: “A dupla maternidade é por vezes romantizada como excesso de cuidado, mas vivida também como déficit de reconhecimento — e de apoio. Duas mães são vistas, muitas vezes, como mais capazes de dar conta sozinhas.”

Desde a gravidez, Milena e Gabriela buscaram espaços onde sua família fosse maioria: Não existe nada como pertencer. E como é de se esperar, famílias LGBTQIA+ têm muitíssimas formações, os tabus sobre as coisas são muito mais debatidos e as coisas deixam de estar em um patamar inalcançável. Falamos juntos sobre como os filhos chegaram nas nossas famílias, sobre inseguranças em relação à idade, condição financeira, questões de raça, diversidade em todos os seus âmbitos”, conta Milena. “Isso é responsabilização. Não basta ser uma família múltipla, é preciso exercitar a diversidade e representação que sempre criticamos faltar. Ir a espaços, encontros, conversas e se dedicar a isso de uma forma realmente genuína.”

Keka, que encontrou o Coletivo Dupla Maternidade quando o filho ainda era bebê, vê os resultados: “Hoje, aos cinco anos, ele conhece e convive com crianças de diversas configurações familiares. Me sinto muito tranquila em saber disso. A história dele está amparada.”

Joyce e sua família buscam essas referências de forma intencional, nas escolhas dos espaços que ocupam, nas relações que constroem. “Nossos filhos convivem com essa diversidade no cotidiano. Estão em contato com famílias de dois pais, mães solo, famílias heterossexuais, famílias sem filhos, entre tantas outras configurações. Nossos filhos crescem compreendendo que existem múltiplas formas de ser família e que todas merecem reconhecimento, respeito e lugar.”

“Tem pouquíssima literatura sobre família com duas mães. Como se organizam, os desafios, como responder perguntas dos nossos filhos quando eles crescem. Ter referências é uma troca muito rica, e é muito bom poder contar com uma comunidade quando você precisa de força, de apoio, de ajuda. Para meus filhos é um jeito deles entenderem que nossa família é tão legítima como todas as outras”, diz Mariana.

Maíra descreve o esforço como uma busca ativa: “Nossa filha durante muito tempo achava que duas mães era o padrão. Então quando surgem perguntas, conseguimos dizer: ‘sim, você tem duas mães igual ao Lino, à Gal. E tem família de dois pais, família com uma mãe, família que foi o papai que gestou’. Não é só no livro, na TV. É gente real que ela encontra na escola, na pracinha, na festinha de aniversário.”

O que queremos que o mundo saiba

Quanto mais o meu filho cresce, mais forte eu fico. As inseguranças se desfazem diante do cotidiano que exige tanto — e entrega tanto também. Olho pra ele e penso: caramba, foi muito desejo e muito amor pra você chegar nesse mundo… E vejo com esses mesmos olhos as crianças que são filhas e filhos de outras mulheres lésbicas, assim como os filhos de qualquer pessoa que faça parte da comunidade LGBT+.

Desejo que nenhuma sofra preconceito por ter duas mães, uma mãe trans. Desejo que famílias com a formação “mãe, pai e filho” fale de famílias como a minha para suas crianças. Tão simples, mas ainda tão distante.

“Eu gostaria que o mundo achasse a minha maternidade a coisa mais banal e usual do mundo. O que seria um sonho é que nenhuma criança chegasse e dissesse: ‘mas como ela tem duas mães?’ Toda vez que ouço isso, penso: lá vai mais uma criança que viveu até os seis anos achando que só existe um tipo de família”, diz Maíra Libertad. 

“Eu gostaria que o mundo achasse a minha maternidade a coisa mais banal e usual do mundo.”
Maíra Libertad

“Minha maternidade, assim como todas as outras, é um direito que exerço. Não somos uma exceção, somos comuns. Tudo que a gente quer é viver nossas vidas como qualquer família vive”, endossa Keka Ribeiro.

“Nossa maternidade não é improviso. Ela é decisão, preparação, responsabilidade. Nada foi por acaso”, completa Joyce Ribeiro. “O que eu gostaria de nunca mais ouvir são falas que tentam hierarquizar formas de maternar, como se existisse uma maternidade ou uma família mais legítima do que outra. Não existe. O que sustenta uma família não é a sua configuração, é a presença, o vínculo e o pertencimento.” 

Já Mariana Quintanilha gostaria que todo mundo soubesse que “mãe não gestante é mãe igual”. “Que somos tão família como qualquer outra que se ama e se cuida. Nunca mais gostaria de ouvir que famílias como a nossa não são ‘de verdade’.”

Acredita que tem gente que deslegitima a gente nesse nível? 

“Eu gostaria que o mundo soubesse o quanto é duro, difícil, mas recompensador criar uma criança no amor, na liberdade e na gentileza de saber que ela faz parte do mundo, ela não é o mundo. E fazer parte exige trabalho, exige dedicação, generosidade e delicadeza”, completa Milena Cabral. 

Eu também. E, pra fechar este texto, fiquei com vontade de ouvir a Laura, minha mulher, mãe do Martin. Dividir essa maternidade com ela é o presente da minha vida. A sorte, as tretas, as alegrias, as dificuldades, tudo junto e misturado, como imagino que seja na maioria das famílias, principalmente quando a gente sai do Instagram. 

“O que eu gostaria que o mundo soubesse sobre a minha maternidade é que ela é muito parecida com outras maternidades de casais héteros, por exemplo, que têm os mesmos desafios, que têm muito amor e muita cumplicidade. A gente tem crises também, mas nosso filho tem muita sorte de ter duas mães que dão muita atenção pra ele e estão muito presentes”, ela me diz. 

E completa: “Desejo que o Martin tenha um mundo muito carinhoso e receptivo , porque ele é um menino muito lindo, muito curioso, muito imaginativo, muito sonhador. E eu desejo que nunca façam com que ele pare de sonhar e que ele possa ter as mesmas oportunidades que qualquer outra família, e não menos, porque nós somos um casal de duas mães. E que ele possa ser muito gentil sempre com outras pessoas também.”

Assino embaixo. E celebro viver num tempo em que a nossa existência e os nossos desejos ganhem cada vez mais espaço. O que a gente vive hoje já foi sonho. Não só os nossos, mas também os das muitas mulheres que vieram antes de nós.


Mulher trans também é mãe

Lana de Holanda, 35, sempre soube que queria ser mãe. Mas quando se assumiu mulher trans, esse desejo foi engavetado, principalmente pela falta de referências. “A gente não tem referências de pessoas trans com famílias, com marido, com esposa, tendo filho. Mesmo a ideia de adotar não passava pela minha cabeça, por conta da violência e do preconceito.”

Foi só com o tempo e com a decisão deliberada de olhar para além do que a sociedade dizia que ela deveria ser que o desejo voltou à superfície. Lana, que é assessora técnica da Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, é hoje mãe de Teresa, de 4 anos. 

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Lana de Oliveira e a pequena Teresa. Foto: arquivo pessoal

Teresa não foi planejada, mas foi muito bem-vinda. Lana e Edu Chieregatti, o pai de Teresa, já pensavam em ter filhos no futuro quando a gravidez aconteceu de forma natural. “Foi como o adiantamento de um sonho que a gente já tinha.” Para Edu, homem trans, a gestação trouxe seus próprios desafios: carregar um filho num corpo que o mundo insistia em não compreender. “As pessoas tinham muita dificuldade de entender que aquele corpo era capaz de estar gestando e tinha o direito de estar gestando.”

Hoje, Lana lida com os olhares com mais tranquilidade. Ainda mexe com muita gente ver uma mulher trans levando a filha na escola, no parquinho, no museu, diz. A curiosidade existe, e ela não finge que não vê. “Em alguns momentos é difícil, mas também existe uma função pedagógica nisso. É muito interessante observar como, em questão de minutos, aquele baque se torna algo natural para as pessoas.” Até hoje, a família não viveu uma situação de violência. “Me considero muito abençoada por isso”, afirma, consciente de que a sorte não é distribuída igualmente.

Ver a Teresa pela primeira vez foi mágico. “De longe, nada vai superar aquele momento em que eu vi que ela era real, um corpinho real.” E foi também o momento em que qualquer dúvida sobre a legitimidade de sua maternidade deixou de fazer sentido. “A minha maternidade é válida assim como a de qualquer outra mulher. Não importa o formato, o método. O que importa é o afeto, o acolhimento, o cuidado.”

O que Lana quer para Teresa é simples: que ela cresça num mundo onde possa ser quem quiser ser, desde que carregue respeito, empatia e solidariedade. “Quando a gente olha para a LGBTfobia, para a misoginia, para o racismo, é um ser humano não tendo o mínimo de cuidado com a vida do outro.”

Caminhos para a maternidade de mulheres lésbicas: 

Adoção
Casais homoafetivos têm o direito pleno de adotar conjuntamente no Brasil, com base em decisão do STF e ratificação do STJ desde 2010. O processo é realizado via Juizado da Infância e Juventude e foca no melhor interesse da criança.

Inseminação artificial (IA)
Considerado um método menos invasivo e mais acessível, é viabilizado por meio do material genético de um doador introduzido no útero de uma das mulheres durante o período fértil. O processo é feito em clínicas especializadas.

Inseminação caseira
Ainda sem regulamentação no Brasil, é um método sem intervenção médica, feito a partir da doação de material genético de um doador, introduzido com seringa em uma das mulheres. As tentantes devem buscar o doador, que pode ser conhecido ou não, e solicitar exames de saúde como forma de prevenção de doenças.

Fertilização in vitro (FIV)
Acontece quando os óvulos são fertilizados em laboratório com sêmen de um doador, formando embrião, que é transferido para o útero. Na FIV, uma das opções é o método ROPA (recepção de óvulos da parceira), que acontece quando uma das mulheres extrai os óvulos, que são então fertilizados. Na sequência, o embrião que foi formado é transferido para a outra parceira, que gesta.

Ovodoação/ovorecepção
Se nenhuma das mulheres puder fornecer os óvulos, elas podem recorrer a bancos de óvulos anônimos, que depois serão fertilizados com espermatozoides de um doador. Também é permitida a doação por parentes de até 4º grau.

* O SUS (Sistema Único de Saúde) inclui a FIV na sua lista de serviços que devem ser oferecidos gratuitamente. No entanto, poucos hospitais públicos oferecem o procedimento, e a lista de espera pode levar anos.

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Maternidade no Brasil: cuidado incessante e invisível