“Antes de conhecer a gente, a Joana* nem fazia a unha”, diziam as meninas da minha sala, no ensino médio. “Ela já melhorou muito”, continuavam. Naquela época, ela ainda não se reconhecia como bissexual – a Joana foi descobrir que também gostava de meninas quando, por volta dos 30 anos, se apaixonou por uma. No entanto, o mundo já sabia que havia algo de “estranho” com ela. Além de jogar futebol com os meninos do bairro desde muito cedo – amigos dos seus dois irmãos mais velhos –, de gostar de rock e de usar camisetas de suas bandas favoritas, a Joana não pintava as unhas, não fazia chapinha, não passava maquiagem.
Em Queer Phenomenology: Orientations, Objects, Others, de 2006, a filósofa britânico-paquistanesa e teórica feminista queer Sarah Ahmed explica que as estruturas políticas da nossa sociedade descrevem uma série de orientações para os nossos corpos. Segundo ela, tudo o que foge disso é entendido socialmente como “estranho”, ou queer.
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