David Hockney faleceu na quinta-feira (11.06), aos 88 anos. Na sexta, meu feed e stories do Instagram foram inundados por obras, fotos e vídeos do britânico de óculos redondos, roupas coloridas e cabelos platinados (antes de ficarem grisalhos). Na caixa de entrada, uma newsletter da Vanity Fair dizia que “sua morte foi a mais impactante de um artista desde a de (Andy) Warhol em 1987”. O virtuosismo técnico, a produção volumosa e ininterrupta (ele trabalhou até seus dias finais), a adoção de novas ferramentas e tecnologias (desenho, pintura, gravura, colagem fotográfica, cenografia, ilustrações em iPhone e iPad) são algumas explicações. Existem outras, porém, de natureza simbólica, bastante pertinentes para os nossos tempos e relacionáveis a aspectos da moda.

David Hockney. Foto: Getty Images
A associação mais óbvia entre David Hockney e moda passa por sua própria imagem. Ele ainda estudava na Royal College of Art em Londres quando, durante uma viagem aos Estados Unidos, pintou os cabelos castanhos de um tom de loiro quase branco. Ele chegou bêbado onde estava hospedado, ligou a TV, ouviu em um comercial que loiras se divertem mais e pronto.
Seu guarda-roupa também era peculiar. Ele se formou com honrarias vestindo uma jaqueta de lamé dourado, com bolsa do mesmo material. Ao longo da vida, se destacou pela combinação de cores e pelos acessórios excêntricos, como gravatas e os famosos óculos, sempre redondos. Em qualquer outra pessoa, a leitura seria caricata, no mínimo. Nele, era natural, autêntica. Isso porque seu estilo era um mix de marketing pessoal com expressão destemida de identidade (Hockney nunca escondeu sua sexualidade) e extensão de elementos centrais a sua prática artística.

David Hockney. Foto: Getty Images
“Gosto de pintar o agora. Gosto de viver no agora. É tudo o que há”, dizia. A urgência de registrar um momento e o que o acompanha imprime simultaneamente movimento, efemeridade, estática e permanência. Cenas banais são elevadas a patamares mais altos, tornam-se emblemas de uma época, de contextos. Entram para a história. Mais ou menos como acontece com alguns itens ou imagens de moda. (O período de formação do artista, em meados do século 20, no pós-guerra e no florescimento da cultura e da arte pop, faz toda a diferença na relevância e no entendimento de sua obra.)
Hockney achava bom quando crianças gostavam de seu trabalho: “Elas não se interessam por nomes, apenas reagem ao que está lá”. É uma reação genuína, ingênua. Muito provavelmente desencadeada pelas cores (o uso delas é uma característica marcante no estilo do pintor). Mas dá para ir além. Penso que tem a ver com a sensação de familiaridade ou reconhecimento de cenas, paisagens e objetos cotidianos, com a aparente simplicidade estética e com a sinceridade emocional.
Lembrei de uma entrevista da jornalista e crítica de moda Cathy Horyn à revista System. Ela fala que o otimismo e a atitude alegre, positiva das propostas de Matthieu Blazy na Chanel foram essenciais para o sucesso de Matthieu Blazy como diretor criativo. Seus desfiles e campanhas despertam desejo porque se relacionam e se comunicam sem ironias, sem pretensões, sem parecerem superiores ou o que não são. Mais importante: porque fazem as pessoas se sentirem bem ou sentirem coisas boas. Não sou especialista em arte, mas acredito que são conexões semelhantes às das obras de Hockney e seus espectadores.

Luigi Torre é diretor de reportagem de moda da ELLE Brasil.
Texto originalmente publicado na newsletter RE-SEE, enviada às terças-feiras.