Bom dia. Acabou na terça-feira passada (06.10) a edição de verão 2027 da semana de moda de Paris. Um ano atrás, a gente acompanhou quase 20 estreias de diretores criativos. As expectativas eram altas, há tempos não se via um chacoalhão ou reset tão grande. A cobertura e os comentários, então, vieram com alguma dose de euforia. Agora, com a poeira assentando a parte desses estilistas já adaptados aos novos cargos, conseguimos ter um entendimento melhor de suas visões. E as melhores delas dizem bastante sobre a atual relação das pessoas com a moda.
É perfeitamente possível admirar um desfile sem desejar nenhuma das roupas apresentadas – por isso, investe-se em cenografia, performance, celebridades. Admiração tem a ver com contemplação e, em certa medida, idealização. Pressupõe também um certo distanciamento, como se o admirado estivesse sempre em um pedestal, intocável e inalcançável.
O desejo é mais de perto. É pulsão, satisfação, prazer. É de verdade. Na filosofia e na psicanálise, desejar é sentir falta. Lacan diz que é uma falta contínua, estrutural e insaciável. Enquanto a admiração paralisa o sujeito na fascinação da imagem, o desejo o impulsiona infinitamente em busca de algo novo. Segundo Descartes, é uma paixão orientada para o futuro.
Os criadores mais interessantes do momento estão preocupados em fazer roupas mais desejáveis do que admiráveis. E como desejos costumam ser meio inconsequentes na sua racionalidade, pouco importa se é cool, correto, adequado, rebuscado, sofisticado, ou luxuoso o suficiente.
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