CONTEÚDO APRESENTADO POR AMSTEL
Nunca é demais lembrar que as mulheres foram proibidas de praticar futebol no Brasil por mais de 40 anos, da década de 1940 até 1980. A justificativa do então governo é que se tratava de um esporte incompatível com as condições da natureza feminina. A proibição foi revogada em 1983 e, desde então, o futebol feminino passou de uma prática marginalizada a uma modalidade de visibilidade crescente. No fim do mês passado, foi sancionada a Lei do Futebol Feminino, que determina diretrizes para a profissionalização do esporte no país.
Se hoje estamos às vésperas da CONMEBOL Libertadores Feminina – com patrocínio oficial da Amstel – e há menos de dez meses do início da Copa do Mundo Feminina no país é porque muitas mulheres abriram esse caminho com ginga e chutes adiante.
Uma delas foi Formiga, 48 anos, um nome fundamental para a história da modalidade no Brasil. Eleita Lenda da FIFA, ela disputou sete Copas do Mundo (é a recordista em número de edições, também entre homens), entre 1995 e 2019, conquistou duas pratas olímpicas (Atenas 2004 e Pequim 2008) e seis títulos da Copa América, entre passagens por clubes como São Paulo e Paris Saint-Germain. No início do ano, foi nomeada diretora de políticas do futebol feminino no Ministério do Esporte.
Ao lado de Marta e Cristiane Rozeira (ou apenas Cris), outras lendas, Formiga foi uma das referências para Angelina Constantino, 26 anos. Importante jogadora da seleção brasileira, a meio-campista passou a defender aos 14 anos a seleção brasileira nas categorias de base. No time principal, foi prata nos Jogos Olímpicos de 2024. Depois de atuar em clubes como Santos e Palmeiras, se mudou para os Estados Unidos, onde jogou pelo Seattle Reign FC e hoje representa o Orlando Pride, na National Women’s Soccer League (NWSL), a forte liga de futebol feminino dos Estados Unidos.
Formiga, Marta e Cristiane também foram referência para Fernanda Gentil, 39 anos, que não sonhava em ser jogadora, mas trilhou uma reconhecida carreira no jornalismo esportivo – e é uma voz pela valorização da presença das mulheres no esporte.
Às vésperas de eventos tão importantes para a modalidade, reunimos Formiga, Angelina (vinda diretamente de Orlando) e Fernanda, mulheres de diferentes gerações que ajudam a transformar o esporte dentro e fora dos gramados, para falar de passado, presente e futuro. Confira nossa conversa com elas – todas as emoções estão em jogo:
CONMEBOL Libertadores
Entre 15 e 31 de outubro, 16 times disputam o torneio, incluindo três equipes brasileiras – Corinthians, Palmeiras e Cruzeiro –, no Equador.
Fernanda Gentil: “A CONMEBOL Libertadores faz parte do grupo seleto de grandes competições internacionais. É mais uma vitória do futebol feminino. Uma competição desse porte e com esse alcance é um sinal de trabalho e de respeito à modalidade. Acho que o campeonato traz muito da paixão do torcedor, como uma Copa do Mundo, mas pelo seu clube, que é muitas vezes mais pulsante. Ela une o melhor dos dois mundos: uma grande competição e a paixão fervorosa do torcedor pelo seu time”.
Formiga: “A CONMEBOL Libertadores Feminina traz uma representatividade gigantesca para a América do Sul. Em todo nosso continente há inúmeros talentos. Eles só precisam ser desenvolvidos. Recentemente, estive na Liga de Desenvolvimento da própria CONMEBOL e vi meninas de 13, 14 anos, com um talento absurdo. Imagina se não acontecesse uma CONMEBOL Libertadores, quem iria vê-las jogando? Ter no currículo uma CONMEBOL Libertadores é gigantesco (Formiga conquistou três títulos). Sou feliz demais por ter isso na minha trajetória. Quem joga sabe o quanto a competição é importante para o crescimento do futebol feminino sul-americano”.
“Ela une o melhor dos dois mundos: uma grande competição e a paixão fervorosa do torcedor pelo seu clube.”
Fernanda Gentil
Angelina: “É uma grande competição, em que as meninas que estão começando vivem uma experiência incrível jogando contra times de outros países da América do Sul. E o nível da competição cresce a cada ano, mostrando a qualidade das jogadoras sul-americanas e o resultado do investimento de alguns clubes. Espero que haja cada vez mais incentivo para as marcas continuarem investindo e ajudarem a dar mais visibilidade à competição”.

Nomes para ficar de olho
Além das equipes brasileiras, há times da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.
Fernanda Gentil: “Ficaria de olho nos clubes brasileiros em geral, até porque com a Copa do Mundo no ano que vem, certamente a CONMEBOL Libertadores será uma grande vitrine. Quem se destacar vai avançar uma casinha na lista de possíveis candidatas do (técnico) Arthur Elias na convocação oficial. Sem dúvida nenhuma vai ter olheiro da CBF, da seleção, para entender o que cada uma está fazendo e como pode contribuir na Copa aqui em casa”.
“Muitos anos atrás se ganhava uma partida com uma boa diferença de gols. Hoje, o cenário está mudando. E que bom.” Formiga
Formiga: “Não vou cravar os clubes que devemos ficar de olho, porque o futebol feminino sul-americano está se desenvolvendo muito. Às vezes, a gente acha que os times brasileiros estão muito à frente dos argentinos, dos peruanos, mas na hora de jogar a vontade supera qualquer dificuldade, e o time que não tem a melhor estrutura supera aquele que tem. Não vai me surpreender se quem não tem tanta tradição chegar numa final junto com um time brasileiro. O futebol brasileiro é o favorito, mas isso acaba dentro de campo. Desejo que a cada ano tenhamos surpresas, que esses países sul-americanos se desenvolvam, que haja um equilíbrio na competição que dê gosto de ver os jogos, como foi no ano passado. Muitos anos atrás se ganhava uma partida com uma boa diferença de gols. Hoje, o cenário está mudando. E que bom. Então, não vou cravar um nome, mas claro que quero e muito que um time brasileiro ganhe”.

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A boa fase do futebol feminino
Na janela de transferência de jogadoras da metade do ano, o mercado mundial do futebol feminino bateu recorde em relação aos valores negociados.
Angelina: “Não me surpreende o fato do futebol feminino estar ganhando mais visibilidade e apoio de marcas, porque os resultados estão falando por si só. Estamos conquistando o nosso espaço e sinto que, finalmente, estão olhando para o nosso esforço, para a nossa dedicação e também entendendo que nossa modalidade pode dar muito retorno aos investidores”.
Fernanda Gentil: “Eu pude ver, felizmente, desde o início da minha carreira uma crescente constante do futebol feminino. Óbvio que a gente avança duas casas, volta uma, avança três, volta duas, mas, de lá pra cá, o que se vê é uma grande evolução da modalidade em todos os aspectos que estavam ainda defasados, como estrutura, investimento, marca, publicidade, vitrine, espaço, campeonatos, profissionalismo, profissionalização. Ainda há muito a ser feito, mas acho que chegou o momento de celebrar o que foi conquistado, aproveitando esse grande evento que vamos sediar, que é a Copa do Mundo Feminina, do que lamentar o que ainda falta. Há muito a ser celebrado. As jogadoras obviamente são as grandes merecedoras e as grandes ‘culpadas’. Graças a elas que tudo isso aconteceu”.
“As jogadoras obviamente são as grandes merecedoras e as grandes ‘culpadas’. Graças a elas que tudo isso aconteceu.” Fernanda Gentil
Formiga: “O futebol feminino no Brasil hoje é de alegrar, de encher os olhos por ter tanta visibilidade. Estamos progredindo, embora ainda haja muito o que conquistar, principalmente em relação ao respeito. A modalidade ainda precisa pedir permissão e precisamos ser livres para jogar futebol em qualquer lugar. Que esses talentos possam ser explorados da melhor maneira possível, serem referências para meninas nos seus estados, nas suas comunidades, nos seus bairros, nas suas casas. Não tem como não se espelhar numa menina ao vê-la saindo do Brasil, expandindo o seu futebol para o mundo”.

Dificuldades
O preconceito marcou o início das trajetórias de Formiga e Angelina.
Angelina: “A maior dificuldade no início da carreira foi o preconceito. Por ser a única menina jogando entre os meninos, passei por algumas situações desconfortáveis, como alguns pais dos jogadores do time adversário pedirem para eu provar a minha idade, porque era um pouco mais alta que os meninos na época. Pediam também para a organização me tirar do campeonato, por ser uma menina jogando entre os meninos. Mas sempre tive o apoio dos meus colegas de time, dos meus treinadores e dos meus pais”.
Fernanda Gentil: “Quando comecei a me interessar por esporte, o futebol feminino era totalmente coadjuvante no futebol e estava ainda mais nessa batalha por vitrine, holofote, espaço, mídia, investimento, estrutura – ainda está, mas as coisas já melhoraram muito”.
“Meus irmãos não me deixavam jogar com os meninos e não havia meninas para jogar.”
Formiga
Formiga: “Acho que um dos primeiros desafios que enfrentei, por volta dos meus 10 anos, foi a resistência em casa. Meus irmãos não me deixavam jogar com os meninos e não havia meninas para jogar. Na verdade, tinha que arrancar as cabeças das minhas bonecas para poder jogar. Pegava sacos, colocava bastante pano, passava fita para transformar numa bola. Essa dificuldade de não ter meninas me fez jogar com meninos. E também sair tão cedo de casa, aos 13 anos. Aí tive a oportunidade de jogar com meninas um pouco mais velha do que eu e com experiência no futebol – até então imaginava que eu era a única que jogava bola em Salvador (onde Formiga nasceu). A gente se virava como dava, não tínhamos chuteira, caneleiras, uniformes. Para nós, era sempre o uniforme masculino. Imaginava que quando chegasse à seleção brasileira a estrutura fosse bem diferente, mas, para minha surpresa, vivíamos as mesmas dificuldades – falta de uniforme, de chuteira e de estrutura. E os grandes palcos, os grandes gramados estavam sempre com os portões fechados para o futebol feminino. A gente não tinha esse privilégio”.

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Referências
Marta, Formiga e Cris como grandes inspirações.
Angelina: “As jogadoras que mais me inspiraram foram a Marta e a Formiga. Sempre as admirei pela força de vontade, pela raça em campo e pelo amor pelo que fazem. Cresci tendo elas como referência”.
“As jogadoras que mais me inspiraram foram a Marta e a Formiga. Cresci tendo elas como referência.”
Angelina
Fernanda Gentil: “As minhas referências na cobertura de futebol feminino eram as próprias jogadoras. Formiga, Marta, Cristiane me inspiraram muito, em diferentes aspectos. Nunca quis ser jogadora, mas elas me inspiraram em outras facetas: como profissionais, como mulheres, com a postura, as conquistas, a garra, a coragem, a ousadia. Tudo isso serviu de estímulo na minha trajetória no esporte”.

Desafios atuais
Equidade não é igualdade.
Fernanda Gentil: “Acho que a batalha hoje é muito pela equidade, que é diferente da igualdade. A questão não é tratar o futebol feminino como o masculino ou outra modalidade, é entender as deficiências, as dificuldades, as lacunas do futebol feminino e proporcionar estrutura suficiente para que ele seja respeitado, visto e divulgado como merece. É entender o futebol feminino com as características que só ele tem e dar a ele a estrutura que tem direito para estar no lugar que merece”.
“A questão não é tratar o futebol feminino como o masculino.” Fernanda Gentil
Seleção brasileira
Depois do segundo lugar na Copa do Mundo de 2007, a seleção busca o lugar mais alto do pódio.
Angelina: “Vestir a camisa da seleção é sempre um orgulho e representar o nosso país por meio de algo que amo fazer não tem preço. Fico muito feliz e realizada por estar vivendo esse momento único do futebol feminino e da nossa seleção. Acredito que essa Copa do Mundo vai ser mais do que especial, tanto para o nosso país quanto para o futebol feminino. Espero que a gente tenha um final feliz nela”.

Blazer e calça, NV. Camisa, Zara. Brincos, Renner. Anel, acervo pessoal.
O legado da Copa do Mundo no Brasil
Será a primeira vez que o mundial acontecerá na América do Sul. Entre 24 de junho a 25 de julho de 2027, a Copa terá 64 jogos em oito cidades-sede do país.
Formiga: “Desejo que esse legado possa acrescentar inúmeras coisas ao nosso país. Entendo que muito disso ficará nas sedes, mas quero que essas meninas e seus talentos sejam vistos. Que sirva também para os países vizinhos, que eles pensem em mudar, dando oportunidade para essas meninas de terem todo o suporte para o seu desenvolvimento. E que nós, mulheres, possamos ser mais valorizadas, ter mais respeito e abrir caminhos para inúmeras outras. E não só trabalharmos dentro do campo, mas fora das quatro linhas, na televisão, no rádio, em gestão e em outros âmbitos. Que possamos romper essa essa barreira que ainda impede o futebol feminino de avançar no nosso país”.
“Já estamos inspirando, emocionando e transformando muitas meninas apaixonadas por futebol desde que o anúncio foi feito.”
Fernanda Gentil
Fernanda Gentil: “Ah, uma Copa do Mundo de futebol feminino pela primeira vez na América do Sul, e no Brasil, é um acontecimento histórico. O legado já está construído. Para sempre a gente vai ser o primeiro país a ter sediado uma Copa feminina na América do Sul. Isso já diz muito não só sobre o legado e sobre a história que vamos contar no futuro, mas sobre a importância que o Brasil tem para a modalidade. O quanto a gente pode acrescentar, enriquecer e também ser munido e enriquecido com um evento desses. É uma pluralidade imensa, um intercâmbio mundial fenomenal. Uma Copa é um ponto de encontro do mundo inteiro dentro do seu país. Certamente, já estamos inspirando, emocionando e transformando muitas meninas apaixonadas por futebol desde que o anúncio foi feito. E isso só tende a se intensificar muito até a Copa começar oficialmente”.
DIREÇÃO CRIATIVA LUCIANO SCHMITZ
FOTOS JULIANA ROCHA
BELEZA ANGEL MORAES
STYLING SUYANE YNAYA
CENOGRAFIA ANDERSON RODRIGUEZ
PRODUÇÃO DE MODA GUSTAVO SOUZA E THIAGO TORRES
PRODUÇÃO EXECUTIVA IZABELA RIBEIRO
PRODUÇÃO DE ARTE CASSIO ONOHARA
DIREÇÃO CRIATIVA LUCIANO SCHMITZ
TRATAMENTO DE IMAGEM PHILIPE MORTOSA
Assistente de foto: Marina Scanavez, Edson Luciano, e Karen Macedo | Assistente de beleza: Gabrielle Baccaro | Assistente cenografia: Edicleiton Gomes e Renan Alves | Assistente de produção de arte: Karen Jose | Assistente de produção executiva: Michelle Marques | Contra Regra: Ronaldo Junge | Manicure: Thayna Dandara