Tati Quebra Barraco: “Sempre fui fiel à minha arte e a mim mesma”

Com o disco "Boladona" caindo nas graças do público internacional 22 anos após o lançamento, uma das precursoras do funk carioca reflete sobre seu legado e fala do futuro.


Tati Quebra Barraco
Fotos: Divulgação



Com quase três décadas de carreira, Tati Quebra Barraco vive um momento raro em que o tempo parece se curvar ao impacto de sua obra graças à internet. Isso porque, na virada do ano, Boladona (2004), disco que ajudou a popularizar o funk carioca, produzido em parceria com DJ Marlboro, apareceu em 19º lugar no top 100 melhores álbuns de música eletrônica dos últimos 25 anos, divulgado pelo site Resident Advisor, referência no assunto.

A lista, que também inclui nomes como Kanye West, Daft Punk, SOPHIE e Grimes, rapidamente caiu nas graças do público internacional, que passou a ouvir e comentar sobre as músicas da cantora de 45 anos. “Entrei no X (antigo Twitter) de madrugada e meu celular simplesmente explodiu de notificações. Confesso que foi uma grande surpresa”, conta Tati à ELLE.

“Primeiro, pedi ajuda à minha equipe para traduzir as mensagens e entender o que estava acontecendo. Depois veio a emoção. É maravilhoso receber tanto carinho de pessoas do mundo todo.”

 

A descoberta tardia por parte dos gringos trouxe também uma nova geração de ouvintes, colocando a funkeira de volta aos holofotes como aquilo que ela sempre foi: uma mulher precursora.

A gente pode e deve cantar sobre nossos desejos. Os homens fazem isso há décadas e ninguém questiona.

Nascida e criada na favela da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, Tatiana dos Santos Lourenço é chamada de “lenda viva do funk”, mas prefere falar em trajetória. “Nunca imaginei sair de uma cozinha (ela foi cozinheira de uma creche da comunidade antes de começar a cantar e escrever músicas) e chegar aonde cheguei. Se estou aqui, é coisa de Deus. Sou grata e orgulhosa de cada pedacinho que ajudei a construir nesse caminho que o funk trilhou”, pontua.

“O que mais me emociona quando olho para trás é não ter perdido minha essência. São 28 anos de carreira sem nunca me vender. Sempre fui fiel à minha arte e a mim mesma.”

Essa fidelidade também explica o barulho que causou no fim dos anos 1990, quando se tornou uma das primeiras mulheres do funk a cantar abertamente sobre desejo sexual e poder feminino. Em um cenário dominado por homens e que aceitava mulheres apenas dentro de um padrão específico, sua presença era disruptiva. 

“Cheguei em um momento em que as mulheres eram extremamente sexualizadas, mas dentro de um padrão: magras e loiras. Quando eu aparecia, negona e com 90 quilos, causava um choque. Mas foi a minha atitude que me fez conquistar respeito e espaço.”

Hoje, ver outras mulheres cantando com mais liberdade é motivo de satisfação. “Ver que essa liberdade ficou mais acessível me deixa feliz. A gente pode e deve cantar sobre nossos desejos. Os homens fazem isso há décadas e ninguém questiona”, afirma.

Para a cantora, o interesse internacional confirma algo que seus fãs sempre defenderam: Boladona é um disco atemporal. Não por acaso, foi esse mesmo trabalho que a levou a sair do Brasil pela primeira vez, em 2006 – e que, 22 anos depois, segue rendendo frutos.

 

Na época do lançamento, o sucesso do disco, que possui 18 faixas, incluindo outros hits, como “Dako é bom”, “Montagem cartão magnético” e “Matemática”, essa última com um sample de “Papa, don’t preach”, de Madonna, extrapolou a música e ganhou a cultura pop ao ser tema da personagem Raíssa, vivida por Mariana Ximenes, na novela América (Globo). 

“Foi uma loucura. Fui a primeira mulher do funk a cantar e aparecer em uma novela. Ali conquistei ainda mais espaço”, recorda. Recentemente, Tati reencontrou Mariana. “Disse para ela: ‘mulher, você mudou a minha vida para sempre’. Sou muito grata a ela e à Glória Perez.”

Agora, mais ativa nas redes sociais do que nunca, Tati se diverte com a troca mais direta com o público, que vai de fãs antigos a jovens descobrindo seu trabalho. “Eu amo estar em contato com todos eles. Sempre que posso, respondo todo mundo. É incrível ver que minha música agrada tanto pessoas acima dos 30 anos quanto adolescentes. Estou sempre antenada”, diz.

Entre os novos artistas que despertaram seu interesse, ela destaca a britânica PinkPantheress, indicada ao Grammy. “Conheci recentemente o som dela e estou encantada. Ela manda muito bem. Mas também adoraria colaborar com a Thalía e a Cardi B.”

Em 2025, um filme biográfico intitulado A rainha do funk, da diretora Susanna Lira, foi anunciado e segue em produção, mas Tati antecipa: “Já avisei a equipe que minha história rende uma série com várias temporadas”. Ainda no ano passado, ela soltou o EP Da CDD pro mundo enquanto rodava em turnê pela Europa.

Para 2026, ela prepara novas colaborações com artistas da nova cena do funk e também das antigas. “A união faz a força. Vou seguir com a turnê internacional também. Depois da Europa, quero partir para a América do Norte. O funk está em alta, e nada mais justo do que levar nosso funk raiz para o resto do planeta”, completa.

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