Tudo o que você precisa saber sobre o vinho Chardonnay

As características de cada estilo, as regiões produtoras e, claro, muitas dicas de rótulos: um guia completo sobre o vinho da uva branca mais cultivada do mundo.  


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Foto: Anastasiia Rozumna / Unsplash



“Anything but Chardonnay.” A frase ficou famosa entre bebedores finórios das bandas de Nova York e Los Angeles há mais de um par de décadas. Dizer “tudo menos Chardonnay” significava rejeitar vinhos exaustivamente fermentados e maturados em madeira, opulentos, superamanteigados, com a vivacidade da fruta afogada no líquido encorpado e no “chá” de carvalho. Um estilo cansativo, enjoado.

Foi moda naqueles idos, porém, quando tudo era meio exagerado, inclusive na moda (quem lembra das ombreiras dos anos 1980?). Produtores californianos influenciaram fundamentalmente a onda do vinho Chardonnay parrudão, mas hoje é mais raro encontrar rótulos assim. A tendência mundial de consumo aponta para vinhos frescos, elegantes, fáceis de beber – o que não significa, necessariamente, abrir mão da complexidade.

Acontece que muita gente ainda rejeita a coitada da Chardonnay (que de pobrezinha não tem nada) com base numa moda que passou ou por sua mal interpretada fama de “uva que dá em qualquer lugar”. 

De fato, ela é camaleônica, sem frescura, acomoda-se facilmente a uma quantidade generosa de climas e solos, gerando vinhos de jeitões bem diferentes em todos os cantos. É a branca vitivinífera mais plantada no globo e costuma encantar pelo balanço, quando alcançado, entre fruta e acidez. 

Vale lembrar que ela também é bamba, junto com a Pinot Noir, na elaboração de boa parte dos espumantes de método tradicional do mundo, a começar por Champagne, mas esse é outro assunto.

“A Chardonnay é uma tela em branco, uma uva bastante adaptável que, quando tratada dignamente, expressa fielmente o terroir em que foi cultivada”, diz Mario Telles Jr., presidente da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo (ABS-SP). O que nos leva à máxima da crítica de vinhos inglesa Jancis Robinson sobre a casta branca mais popular do planeta: “A Chardonnay é igualmente capaz de grande mediocridade e de nobre esplendor”. 

Estudando a Chardonnay

Quem sabe das coisas, no duro, nunca deixou de amar o vinho Chardonnay por causa de bocas de matildes ou experiências malogradas. Quem não tem idade para lembrar do “anything but Chardonnay” nem está aí: quer mesmo é conhecer e beber bons vinhos. Nisso, ela ganha frente. 

A casta vem sido mais estudada e melhor compreendida no Brasil, em movimento de redenção. A ABS-SP ministrou recentemente um curso exclusivo sobre a Chardonnay e suas diversas expressões pelo mundo, do qual retiramos muita informação para este texto.

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Foto: Instagram / @vinedosveramonte

Com foco no público que busca conhecimento e prazer, junto ao crescimento do consumo de vinhos brancos e de tintos delicados, o Bureau Interprofissional dos Vinhos da Borgonha (BIVB) tem feito ações de educação e divulgação em nosso solo, dentro de um programa chamado Take a Closer Look. “De 2021 a 2024, houve um aumento significativo de exportações da Borgonha para o Brasil, com ênfase nos vinhos brancos. A tendência é mundial e nos traz ótimas oportunidades de promover apelações e estilos menos conhecidos da nossa região”, diz Anne Moreau, diretora de comunicação e marketing da BIVB. E por que falamos de Borgonha? Olhe mais de perto.

De onde veio a Chardonnay

“Para conhecer a Chardonnay, é importante entender como ela se comporta na Borgonha, pois este será o parâmetro de comparação para os Chardonnays do mundo”, diz Mario Telles Jr. 

Embora cultive outras cepas, a região do nordeste francês é famosa basicamente por duas uvas: a branca Chardonnay e a tinta Pinot Noir, presente no pedaço há dois milênios. Testes de DNA descobriram que a Pinot, em cruzamento com a Gouais Blanc, originou a Chardonnay, cujo primeiro registro data do século 17, sob o nome de Chardonnet. Ali mesmo, na Borgonha.

Dentro da própria região, a Chard, como é chamada pelos íntimos, pode ser bem diferentona. De tão antiga, gerou naturalmente 34 clones, cada um com suas peculiaridades, o que anuncia diversidade. Dependendo de onde é plantada, pode gerar vinhos fulgurosamente ácidos, minerais, crocantes e de corpo leve, como os da fria sub-região de Chablis. 

Ao sul, Mâconnais gera bebidas mais frutadas, polpudinhas, em razão do clima quente. No centro borgonhês, Côte de Beaune é berço das apelações Montrachet e Mersault, de vinhos trabalhados em madeira, mais opulentos e encorpados do que os magrelos Chablis. E olha que aqui o uso do carvalho não resulta em bebidas pesadonas, como os velhos Chardonnays cansadões da Califórnia.

Moral da história: não ponha a culpa numa uva, mas no lugar onde se desenvolve, em como é cuidada na vinha e na forma como o produtor trabalha a cepa na vinícola. Vale lembrar outra máxima: “uva ruim não dá bom vinho, uva boa pode ser estragada por um vinhateiro desastroso”. Se você não anda muito contente com os Chardonnays que tem provado, vamos mostrar o que há de bom por aí – para diversos gostos e bolsos. Não dá para rodar todo o planeta (e a própria França), pois o texto correria o risco de não ter fim (o que quase acontece). Mostramos, porém, alguns lugares-chave em que a Chardonnay não costuma dar xabu.

Chablis

Quando você ouvir algum crítico falar em mineralidade no vinho e não entender o que quis dizer, procure um bom exemplar de Chablis, norte da Borgonha. Em vários você sentirá o aroma de pedra molhada e, na boca, talvez tenha a sensação de estar lambendo a pedra, característica que vem de um dos solos mais ricos em calcário e fósseis marinhos que se pode encontrar. Por causa do clima frio, sua acidez costuma ser estupenda (às vezes, estúpida mesmo) e vem aliada a um toque salino, conjunto que faz a boca salivar generosamente. O corpo é leve e, embora um dos principais traços da Chardonnay seja de fruta, aqui prevalecem mineralidade e acidez sobre as notas cítricas. Chablis é um dos melhores amigos das ostras frescas, de pratos ácidos como o ceviche. Um vinho delicado, cheio de finesse. Quem se deixa seduzir por Chablis sofre dessa paixão por toda a vida.

Há vários níveis de Chablis, divididos pelas características de cada terroir, começando pelos básicos Petit Chablis (em muitos casos, bastante bons). Depois vêm Chablis propriamente dito, Chablis Premier Cru e Chablis Grand Cru – estes, os poderosões. Importante saber que, em se tratando de Borgonha, em Chablis e outras sub-regiões, a técnica e a tradição de certos produtores não raro contam mais que as classificações. Isso vale para a Chardonnay ou qualquer outra uva. Vinhos de apelações mais “simples”, como os Bourgogne Blanc, às vezes se revelam magníficos. “O Borgonha branco, a apelação mais básica, de um produtor pode ser melhor do que o de outro vinhateiro de Montrachet, embora custe uma fração de seu preço”, já alertou Jancis Robinson.

Se você quer começar por um vinho que grita mineralidade, exulta o tal aroma de pedra molhada, procure Pascal Bouchard Chablis “Le Classique” 2023 (R$ 339, na Barrinhas). É o típico Chablis em que a fruta fica atrás da pegada mineral e ácida – nesse caso, estúpida mesmo. Para quem ama vinhos assim, é um gozo. 

Outro clássico é Chablis Calcarius 2023 (R$ 232,92, na Tanyno), de Domaine de Quatre Saisons. Vem mais frutado, com algo de pera e de maçã-verde, e a acidez aguda própria do estilo. Mario Telles indica Jean Collet Chablis 2023 (R$ 508,73, na Vino Verace), outro vinho pleno de frescor e com um toque de fruta cítrica confitada. 

Voltando à base da pirâmide, Albert Bichot Petit Chablis 2022 (R$ 218, na Adega Bartolomeu) não tem a exuberância mineral dos Chablis superiores, mas é boa porta de entrada e pode agradar a quem prefere uma acidez mais discreta, numa bebida fluida, com notas cítricas bem evidentes.

Quem quer caminhar para o topo pode encontrar Alain Geoffroy Chablis Premier Cru Beauroy Vieilles Vignes 2023 (R$ 605, na Decanter), elaborado a partir de vinhas velhas, de mais de 45 anos, maturado em carvalho por seis meses, o que traz um leve toque de baunilha, mesclando frutas frescas e secas.

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Foto: Instagram / @domainewilliamfevre / @latelier_nicolas_demoulin

Entre os Grand Crus, Domaine William Fèvre Grand Cru Les Clos 2018 (R$ 2.889,90, na Grand Gru) é uma opção de respeito, pela história da propriedade, que faz vinhos Borgonha há 250 anos. Cerca de 40% do líquido passa por barricas por seis meses, em contato com as leveduras, garantindo certa cremosidade. A acidez dos grand crus costuma ser mais alta e, aliada à estrutura, garante longevidade a esses vinhos. Um bom custo-benefício nessa categoria é Simonnet-Febvre Les Clos Chablis Grand Cru (R$ 1.113,50, na Altruísta), que entrega a tipicidade dos melhores terroirs de Chablis por menos da metade do preço que se costuma pagar por um grand cru.

Mâconnais

Mâconnais é pop. De maneira geral, o vinho Chardonnay do sul da Borgonha é mais parecido com os do Novo Mundo, aos quais nos acostumamos. O clima quente gera vinhos polpudos, redondos e com toques florais no aroma. São menos complexos e devem ser bebidos jovens, pois raramente têm potencial para envelhecimento em garrafa. 

Isso não quer dizer falta de qualidade – Mâcon também tem sua hierarquia. Os vinhos mais simples são classificados como Mâcon, apelação comum a brancos, tintos e rosés. Mâcon-Villages é apelação exclusiva para brancos e, em seguida, pode vir acompanhada pelo nome da comuna, como Mâcon-Burgy ou Mâcon-Chardonnay (gente, a Borgonha é complicada mesmo). Por fim, há as apelações mais altas, como Saint-Véran, Viré-Clessé ou Pouilly-Fuissé – esta, considerada a brava.

Para começar, um vinho bacana de menor classificação é Mâcon-Péronne Domaine du Bicheron (R$ 199,80, na Altruísta), que vem com maracujá, pêssego e flor-de-laranjeira no aroma. Mâcon-Villages Les Chouettes 2022 (R$ 258,75, na Tanyno) é outra pedida com tropicalidade de abacaxi e cítricos. Da categoria mais alta, Mario Telles indica Joseph Drouhin Pouilly-Fuissé 2022 (R$ 994,25, na Mistral), um vinho cremoso, com aromas de frutas brancas, amêndoas e uma boca longa e refrescante. Sébastien Giroux Pouilly-Fuissé Vieilles Vignes 2020 (R$ 685, na Decanter) é outro belo exemplar da região, que traz um mix de frutas brancas, baunilha, amêndoas e um quê defumado, tudo envolvido por uma acidez sideral, que faz o vinho vibrar na boca.

Côtes de Beaune

Há uma certa rixa entre fãs de Chablis e de Beaune, os dois lados disputando para provar qual a melhor região. Aqui ninguém quer treta, só mostrar como a Borgonha pode ser tão diversa. Os nobres (e caros) vinhos de Beaune – especialmente os das comunas Mersault e Montrachet – são complexos, trazem frutas maduras e carnudas, como pêssego, maçã, pera, toques de amêndoa, notas florais. São essencialmente trabalhados em madeira, pois sua estrutura permite longevidade e boa evolução. “O único objetivo sério do uso da madeira é dar longevidade ao vinho”, ensina Mario.

Domaine de Montille Sain-Aubin Premier Cru em Remilly 2019 (R$ 1.251,43, na Mistral), é um desses que vai longe, com poder de guarda estimado em mais de dez anos. No caso de Chardonnays estruturados, com o tempo as frutas jovens dão lugar a frutas cozidas ou secas, além de brotarem aromas terciários como mel, caramelo, cogumelos. Essa é a graça de esperar um bom vinho envelhecer.

Itália

“A Itália tem uma diversidade incrível de climas e de terroirs, como poucos países apresentam. A Chardonnay, como uva adaptável, é cultivada de norte a sul do país, em lugares frios e quentes”, diz Arthur de Azevedo, vice-presidente da ABS-SP. Em regiões frias, ela aporta aromas cítricos, mineralidade, uma bela acidez e raramente seus vinhos passarão por madeira. Em climas temperados, vêm frutas brancas e notas florais. Nos lugares quentes, frutas tropicais como abacaxi e banana.

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Foto: Instagram / @piocesare1881

A sub-região piemontesa do Langhe, ao norte, terra dos celebrados tintos Barolo e Barbaresco, é um dos recantos que a Chardonnay escolheu para brilhar. Pio Cesare Chardonnay L’Altro 2023 (R$ 409, na Decanter), um dos vinhos indicados por Arthur, tem acidez brutal, fruta pura, citricidade e muita persistência em boca. É vibrante e elétrico. Tem um irmão chique e complexo, Pio Cesare Chardonnay Piodilei (R$ 921, na Decanter), que traz pêssego, nectarina, limão-siciliano, amêndoas e notas de baunilha vindas do trabalho em barrica. 

Friuli-Venezia Giulia, ainda uma região fria, próxima à Eslovênia, também dá ótimos Chardonnays. Um bom exemplar é Primosic Chardonnay, com uvas cultivadas em Collio, denominação famosa pelas uvas Pinot Grigio e Friulano (o rótulo chega em fevereiro pela Vin Vin, importadora do restaurante Vinheria Percussi). Tem aromas de tangerina e maçãs e corpo sedoso, resultado do tempo em que passa em contato com as leveduras. A técnica, chamada de sur lie, tem sido cada vez mais frequente na elaboração de Chardonnays e outros brancos pelo mundo. O produtor deixa o vinho descansar com as leveduras mortas, depois do processo de fermentação, o que dá corpo e garante maior complexidade à bebida. Descansar é modo de dizer, pois é comum que o vinho, em processo de maturação em madeira ou inox, seja remexido de tempos em tempos, para incrementar sua cremosidade – procedimento que tem outro nome francês: bâtonnage.

Da Toscana, mais calorosa, temos Fèlsina I Sistri Chardonnay 2019 (R$ 463,56, na Mistral), uma joinha rara de Chianti Classico, famosona por seus tintos. Traz notas de frutas maduras, algo tropical, e é trabalhado por 20 meses em carvalho. Um vinho gordinho que vai bem com pratos untuosos, como filé de peixe puxado na manteiga. 

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Foto: Instagram / @cusumanowinery

A ensolarada Sicília, ilha no sul da Itália, também é bamba em Chardonnay. Vem de lá Cusumano Jalè Chardonnay (R$ 334, na World Wine), outra dica de Arthur. O aroma tropical de abacaxi é evidente e vem junto com um leve tostado. É leve, seco e tem boa acidez. Planeta, vinícola que faz lindezas com as uvas sicilianas autóctones, também se rendeu à Chard. Planeta Chardonnay Menfi (R$ 737,90, na Grand Cru) é elegantemante refrescante, com aroma de pêssego, cremoso e também traz um toque tostado.

Chile

De uns tempos para cá, o Chile expandiu suas fronteiras vitivinícolas, esparramando-se do abafado Vale Central, incrustado entre duas cordilheiras, para a costa (oeste), a cordilheira (leste), a Patagônia (sul) e o Deserto do Atacama (norte). 

Esse alargamento, possível mesmo num país em formato de linguiça, trouxe a descoberta de novos terroirs, próprios para uvas mais delicadas que as populares tintas Cabernet Sauvignon e Carmenère. Não que a Chardonnay seja melindrosa, já sabemos que ela enfrenta qualquer parada. Mas ambientes mais frios ou de grande amplitude térmica (calor de dia, friozão à noite) beneficiam nossa branquitcha, originando vinhos elegantes e, em alguns casos, de acidez aguda, quase como Chablis.

O Vale de Casablanca foi um dos primeiros novos territórios desvendados, na costa chilena, onde a fria corrente de Humboldt funciona como reguladora térmica e não deixa que as uvas “cozinhem”. O frio noturno fecha os poros das plantas e faz com que elas conservem o que há de mais importante para se fazer vinhos cheios de frescor: a acidez (sim, estamos nos repetindo, mas Chardonnay ou qualquer vinho sem boa acidez é que é coisa chata). A neblina Camanchaca, produzida pelo encontro do ar quente com a corrente gelada, também obriga todo mundo a usar casacão e joga a favor das videiras, envolvendo o litoral chileno e conseguindo penetrar em áreas em que a Cordilheira da Costa é mais baixa ou apresenta falhas. 

De Casablanca vem um dos best buy dessa seleção, Ritual Chardonnay (R$ 156,50, na Ven Vino), de Viñedos Veramonte. É parte fermentado em barricas de carvalho novas, parte em barricas neutras (muito usadas) e parte em ovos de concreto. O trabalho com as leveduras faz com que crie um corpo ainda mais cremoso, sem prejuízo para a linda acidez e as notas cítricas de limão e tangerina. Um amoreco.

Na categoria “tô podendo”, outra joia de Casablanca é Villard Chardonnay Arganat 2023 (R$ 604, na Decanter). Um escândalo de frescor, alta acidez, fruta exuberante e cremosidade gostosa. Mais uma vez, é a prova de que um Chardonnay fermentado em carvalho não precisa ser chato e cansadão, mas vívido, convidando à próxima taça (e fazendo cair uma lagriminha quando a garrafa acaba).

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Foto: Instagram / @villard_fine_wines

Da mesma vinícola, está disponível o básico Villard Chardonnay Reserve Expressión (R$ 214, na Decanter), bom começo para quem quer entender o borogodó do novo mapa do vinho chileno. Outro exemplar bacana de preço de Casablanca é Ventisquero Chardonnay Grey Single Block (R$ 135,70, na Amazon), também cremoso, pois fica 12 meses em contato com as borras.

Mais ao norte, também perto da costa, o Vale de Limarí é uma festa para quem gosta de vinhos de frescor extremo. Indicado pelo professor da ABS Eduardo Sartori, Reta Chardonnay Quebrada Seca 2021 (R$ 688, na Decanter), elaborado pelo enólogo superstar Marcelo Retamal, é daqueles em que a mineralidade e a acidez passam por cima da fruta, que está presente, porém comedida, em forma de limão e maçã-verde. 

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Foto: Instagram / @vinatabali

Tabalí Talinay Caliza Chardonnay (R$ 549,90, na Casa Flora) é outra pedrada da região, de acidez pontuda e salinidade, com aroma de frutas cítricas e um tiquinho de mel. Seu irmão caçula, igualmente fresco e mineral, chama-se Tabalí Pedregoso (R$ 120,81, na Casa Flora) e pode ser seu bom companheiro nas tardes ensolaradas dessas férias de verão. Outro chilenito de Limarí bom de bolso e de prosa é De Martino Gran Reserva Legado Chardonnay (R$ 109,90, no Empório Frei Caneca).

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Foto: Instagram / @ventisquero_wines

Por fim, os extremos. Ao norte, a Viña Ventisquero mostrou ser possível produzir vinhos no Atacama, o deserto mais árido do planeta. Ventisquero Tara Atacama Chardonnay (R$ 314,91, na Atlas Vinhos) tem salinidade e aroma de damasco. Seu corpo é cremoso e denso, a bebida é turva pela presença das borras, que não são filtradas. Isso quer dizer que a influência das leveduras continua acontecendo na garrafa, olha que coisa bonita.

Da Patagônia chilena, lá no sul, friozão dos infernos, vem Trapi del Bueno Hand Made Chardonnay (R$ 299, na Famiglia Valduga), que emociona pela delicadeza. É fluido, muito fácil de beber e equilibra intensidade de fruta (papaia e abacaxi) com acidez vibrante, num conjunto harmonioso e de suprema elegância. É feito com a melhor parcela de Chardonnay da Viña Trapi, mas seu irmão “genérico”, Trapi del Bueno Savage Chardonnay (R$ 239, na Famiglia Valduga), não deixa nada a desejar.

Argentina

Assim como o Chile, a Argentina galgou novos patamares nas últimas décadas – literalmente. Na busca de melhores terroirs para a tinta Malbec, brancas como a nativa Torrontés, a Sauvignon Blanc, a Sémillon e a Chardonnay, por supuesto, ganharam qualidade quando cultivadas em alturas antes inimagináveis. A boa insolação garante a perfeita maturação dos frutos, com equilíbrio entre açúcar e acidez, concentração de aromas e outras características desejadas em vinhos de alta gama. O frio noturno faz com que essas qualidades não se dissipem. O Vale de Uco, em Mendoza, é uma das regiões altas mais notáveis da Argentina.

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Foto: Instagram / @bodegaluigibosca

Luigi Bosca Filos Chardonnay 2023 (R$ 935, na Decanter) é assim. As uvas são cultivadas entre 1.120 e 1.200 do nível do mar, em dois vinhedos de Uco (em Gualtallary e El Peral). Vem com frutas tropicais (um abacaxi delicioso) e cítricas, notas de flores brancas, amêndoas e um leve tostado. No paladar, uma cremosidade sensual que contrasta com a acidez fulgurosa e um toque de mineralidade que nos faz lembrar giz. Na edição 2025 do Guía Descorchados, que pontua vinhos sul-americanos, ganhou o primeiro lugar entre os Chardonnays argentinos, dividido com Zuccardi Fósil Chardonnay (R$ 1.359,90, na Grand Cru), outro altão do Vale de Uco, cultivado a 1.400 metros na sub-região de San Pablo.

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Foto: Instagram / @catenawines

Ainda sobre brancos de altitude, não podemos esquecer dos Chardonnays da Viña Adrianna, da Bodega Catena Zapata, uma das pioneiras na conquista das alturas argentinas. Foram selecionadas duas parcelas do vinhedo, a 1.500 metros, para elaborar Chardonnays de excelência. Catena Zapata Adrianna White Stones (R$ 1.624,67 na Mistral) vem de solo de pedras de rio. Catena Zapata Adrianna White Bones (R$ 1.624,67 na Mistral) vem de uma faixa de solo calcáreo com animais fossilizados (opa, lembrou de Chablis?). Alejandro Vigil, enólogo da Zapata, em seu projeto próprio, elabora El Enemigo Chardonnay (R$ 262,83, na Mistral), com balanço incrível de fruta madura e acidez.

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Foto: Instagram / @susanabalbowines

Por falar em vinhos mais acessíveis, dá para curtir ótimos Chardonnays argentinos sem estourar o orçamento. Crios Chardonay (R$ 99,90, no Empório Frei Caneca), da superprodutora Susana Balbo, também vem de Uco com leveza, fruta tropical e frescor. Da mesma vinícola, Susana Balbo BenMarco Chardonnay Sin Limites (R$ 179,80, na Atlas Vinhos), é fermentado em carvalho e mescla abacaxi fresco com muita refrescância, num corpo cremoso. 

Luigi Bosca Chardonnay 2024 (R$ 215, na Decanter), bem tropical, traz alegria para um almoço à base de frutos do mar. Sophenia Estate Chardonnay 2023 (R$ 179, na World Wine) vem com frutas de clima temperado, como pêssegos, e um corpo mais untuoso.

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Foto: Instagram / @otroniapatagoniaextrema

A viagem à Argentina termina em outro extremo, nos vinhedos mais ao sul do planeta. Em Sarmiento, na Patagônia, a vinícola Otronia encontrou o terroir ideal para cultivar uvas que gostam de frio. Otronia Chardonnay 2021 (R$ 746, na World Wine) chega cheio de delicadeza, flor e frutas brancas.

Brasil

Eita, chegou nossa vez. Chardonnay já é uma queridinha nossa faz tempo e também ganhou impulso com o crescimento do nosso mercado de espumantes nas últimas décadas. Claro que, por aqui, a onda dos Chardonnays muito amadeirados teve sua vez, mas novas gerações de vinhateiros têm entendido que a casta pede delicadeza. 

A Serra Gaúcha, principal região produtora, continua cultivando muita Chardonnay, só que outras regiões despontaram e chamam a atenção de quem busca elegância. Segundo Sergio Bruxo, professor da ABS, dois dos melhores terroirs para a Chardonnay no Brasil estão em Campos de Cima da Serra, norte do Rio Grande do Sul, e na Serra Catarinense, ambos por causa da altitude. Nossa uvinha camaleoa, porém, faz surpresa em outros pedaços.

Campos de Cima da Serra ainda é uma região pouco badalada, injustamente. Com altitude média de 900 metros, produz vinhos frescos – Chardonnay, Sauvignon Blanc, Viognier, Pinot Noir, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon se beneficiam especialmente desse terroir. Mas vamos falar dela. A vinícola Sozo faz alguns dos melhores Chardonnays de Campos de Cima, em versões bem diferentes, em que prevalecem frutas tropicais. Há o mais fresco Sozo Reserva Chardonnay 2015 (R$ 180, na loja da vinícola), feito com as melhores uvas da propriedade e com seis meses de passagem por carvalho francês. Sozo Portal dos Carvalhos 2022 Chardonnay (R$ 131, na loja da vinícola) tem maturação mais longa: nove meses em barricas francesas e americanas.

Outra vinícola bem interessante de Campos de Cima é a Família Lemos de Almeida, cujos Chardonnays são vibrantes e frutadíssimos. Capella dos Campos Chardonnay (R$109, na Rootstock Vinhos) vem com abacaxi, pêssego e mel, numa boca bem polpuda, equilibrada pela excelente acidez. Há outra versão barricada, Família Lemos de Almeida Chardonnay (R$ 158, na Vinhos e Vinhos), em que as frutas tomam caráter confitado, como o do figo em calda, e aparecem notas de especiarias e baunilha, vindas da passagem de 12 meses por carvalho. 

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Foto: Instagram / @vinicolathera

Da Serra Catarinense, Sergio Bruxo indica Anima Thera Chardonnay 2024 (R$ 189,90, na loja da Vinícola Thera), pleno de melão e maçã-verde, com acidez brutal e longa persistência – o tal vinho que deixa a boca aguada. VF Chardonnay (R$ 196, na loja da vinícola), da Villa Francioni, é outro bom exemplo de Santa Catarina. Tem fermentação em barricas francesas, porém, mais uma vez, o resultado é elegante, de frescor intenso, com abacaxi e maçã destacando-se no aroma. (Curiosidade meio off topic: o rosé da Villa Francioni encantou Madonna, quando de sua visita ao Brasil em 2009.)

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Foto: Instagram / @familiabebber

A Serra Gaúcha e outras microrregiões do Rio Grande do Sul também produzem ótimos Chardonnays. De Altos Montes, temos dois rótulos que valem a prova. Bebber Giardino Chardonnay 2024 (R$ 99, na loja da Vinícola Bebber) é do tipo fresco, floral e refrescante. L.A. Cave Chardonnay 2023 (R$ 211, na Luiz Argenta) vem com pêssego, damasco, baunilha e mel, depois da passagem por 12 meses em carvalho.

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Foto: Instagram / @vinicolaluizargenta

Do Vale dos Vinhedos, os Chardonnays da Casa Valduga já se tornaram clássicos brasileiros. Portanto, não deixe de conhecer Casa Valduga Terroir Chardonnay (R$ 99, na Famiglia Valduga), que mescla notas de frutas de clima temperado e tropical, num conjunto harmonioso e gostoso de beber. Jolimont Chardonnay Reserva (R$ 129, na loja da Vinícola Jolimont), da Serra Gaúcha, é outra opção de Chardonnay jovial, fresco, com parte das uvas fermentadas em carvalho, o que traz sutis toques tostados e de baunilha. Com estes vinhos, Valduga e Jolimont conquistaram medalhas de ouro no concurso Chardonnay du Monde, cujo nome é autoexplicativo.

A Campanha Gaúcha, extremo sul do estado, é mais uma região que está bem de Chardonnays. Sergio Bruxo indica Campos de Cima Cepas Chardonnay 2023 (R$ 130, na loja da Vinícola Campos de Cima), tropical, levemente amanteigado e com acidez considerável. Para quem gosta dos vinhos amadeirados, um exemplar bem equilibrado, com uvas cultivadas na Campanha, é Amitié Oak Barrel Chardonnay (R$ 208, na Amitié), que se dá bem com preparos gordurosos de peixes, como o bacalhau na nata.

Estados Unidos

O Chardonnay carregadão dos Estados Unidos, aquele que amargou tanta rejeição, quase não existe mais. O país também busca leveza, frescor e identidade com seus rótulos modernos, com trabalho de madeira respeitoso, que não passa por cima das virtudes de uma boa fruta. 

Os melhores cantinhos para a uva estão na Costa Oeste, sobretudo Califórnia, com participação de Oregon e Washington. Mas há boa morada para ela no estado de Nova York, na região dos Finger Lakes.

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Foto: Instagram / @crossbarnwinery

Gustavo Andrade de Paulo, mestre na ABS, indica Paul Hobbs Crossbarn Chardonnay Sonoma Coast 2020 (R$ 692,90, na Grand Cru), com um toque da mineralidade da pedra molhada e frutas brancas frescas, principalmente pera. Outra pedida é La Maisonette Chardonnay 2019 (R$ 626,66, na Mistral), elaborado por Domaine Drouhin no Oregon. Mais cremoso, tem parte do líquido maturado em carvalho e aproxima-se do estilo mais maduro dos vinhos de Beaune, na Borgonha. 

Preços pesquisados em janeiro de 2026 e sujeitos a alteração.

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