Pulso em foco: relógio tradicional retorna e se consolida como o acessório queridinho da vez
Em uma viagem no tempo, os ponteiros voltam a rodar e levam o relógio tradicional para além da funcionalidade.
Definitivamente, a hora é do analógico: cada vez mais, cresce a busca pelo relógio tradicional – aquele mesmo, de ponteiros, popularizado no início do século 20. Numa era em que os smartwatches monitoram batimentos cardíacos, passos, sono, funcionam como GPS e tiram fotos, entre outras funções, o singelo acessório que marca o tempo virou objeto de desejo do público moderno. Estranho? Nem tanto: longe de ser um movimento inesperado, trata-se de um contraponto direto à dinâmica da vida digital.

Foto: Instagram/@themillennialdecorator
Nos últimos anos, a tecnologia se dissolveu na rotina e deixou de ser apenas um suporte para se tornar uma presença constante. Conectar-se passou a ser menos uma escolha e mais uma condição para existir socialmente. Segundo dados de 2025 da plataforma DataReportal, o brasileiro passa mais de nove horas por dia na internet, entre telas que atravessam o trabalho, o lazer e a própria forma de viver. A vida se reorganiza em torno desse fluxo contínuo – e os smartwatches surgiram para acompanhar esse ritmo, introduzindo novas funcionalidades e aproximando o público mais jovem do acessório.
Ao longo do tempo, o item se integrou à rotina non-stop de seus usuários: vai do calendário às chamadas, dos e-mails às notificações que chegam diretamente ao pulso, sem falar na contagem de calorias e outras funcionalidades aliadas à prática de atividades físicas. “É como usar uma crise de ansiedade no pulso. As notificações do celular passam a te acompanhar também no braço, o tempo todo”, descreve Priscila Rocha, fundadora da Margot Vintage, brechó especializado em relógios retrô.
Nesse cenário ultra-acelerado, o relógio analógico foi ocupando gradualmente outros territórios de uso. “Havia o medo de que o jovem abandonasse o relógio tradicional pelo smartwatch. Mas o que vemos hoje é o contrário: o smartwatch segue presente, porém em usos específicos, enquanto o relógio tradicional – especialmente o automático – volta a ocupar um lugar de desejo entre o público”, diz Laura Goretti, diretora de marketing da Technos.

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Curiosamente, foi em meio ao auge da conexão digital durante a pandemia que o analógico passou a ganhar ainda mais espaço, comenta Laura. “Com o lockdown e a limitação de experiências, o consumo acabou se voltando para bens materiais. Nesse contexto, o relógio de luxo voltou a ser muito desejado. A gente ainda vê esse efeito se desdobrando até hoje: o relógio, que sempre foi um item de luxo, retoma com força seu lugar como objeto de desejo”, avalia. “Criou-se um movimento de pessoas em busca de menos conexão, menos desse ‘100% online’”, completa.
Especialmente entre a Gen Z, há um desejo crescente de enxergar o presente por meio de lentes do passado: câmeras digitais e analógicas retornam, assim como o vinil. Na moda, estéticas de viés retrô, como o grandpa core, viralizam e evidenciam um movimento mais amplo: o vintage não apenas volta à cena, mas se reafirma como linguagem contemporânea. Nos últimos anos, temos visto nas passarelas casas como Dior, Chanel e Valentino revisitarem seus próprios acervos e apresentarem releituras dos seus legados como estratégia criativa contemporânea.
Voltando aos ponteiros: embora muito associado ao universo masculino, o revival do relógio analógico não está restrito a esse público. As mulheres também vêm demonstrando um interesse crescente pelo acessório. “A mulher enxerga o relógio de forma diferente do homem. Enquanto ele tende a valorizar atributos mais funcionais – como robustez, durabilidade e aspectos técnicos da máquina –, ela se conecta mais com o design, com o que a peça comunica e com a representação que ela carrega no seu universo”, diz Laura Goretti.

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Embora a presença feminina na relojoaria não seja exatamente recente, ela ganha novos contornos e significados. Mais do que nunca, o relógio passa a ser visto como uma joia, capaz de completar o look, como diz Laura: muito mais um acessório do que uma peça que marca o tempo.
Uma amostra desse poder de atração pôde ser conferido em agosto do ano passado, quando Taylor Swift anunciou seu noivado com o jogador da NFL Travis Kelce. Além do “sim” da cantora, virou manchete o Cartier Santos Demoiselle em ouro amarelo com diamantes, que ela usava na romântica foto que ilustrava a postagem. Termos como “relógio Taylor Swift” e “Taylor Swift Cartier” registraram picos de interesse no Google Trends nos dias que se seguiram ao anúncio.

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Entre as marcas que apostam na tendência, nomes como Ralph Lauren e Louis Vuitton resgatam o relógio e o devolvem aos pulsos como um ponto de finalização do visual – quase como um detalhe de assinatura. Durante o Inverno 2026, o acessório, em sua verão de bolso, brilhou nas passarelas da Dolce & Gabbana, que ressignificou o uso do relógio ao levá-lo para novos territórios estéticos, como em fivelas de cinto, pingentes e broches.

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Nos tapetes vermelhos, o acessório também reivindica seu espaço. No Oscar 2026, Zendaya foi um dos grandes destaques de estilo da noite, com um Rolex coberto de diamantes.

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Para além da estética, o relógio tradicional tem também um forte apelo sentimental entre o público feminino. Priscila, da Margot Vintage, recebe muitas peças de valor afetivo e reconhece esse aspecto: “O relógio feminino é como uma joia, entende? Ele é deixado como um legado. Por isso, muitos chegam intactos. Muitas vezes, eles são mais do que relógios: são joias de coleção, usadas em momentos marcantes e preservadas para serem passadas adiante”, diz Priscila. “Eu ouço muito das clientes: ‘Já penso nas minhas filhas usando’.”
Para ter essa habilidade de atravessar gerações, no entanto, um fator é primordial: a qualidade, que se impõe como um dos pilares do retorno ao vintage. “A produção da moda no geral caiu muito em qualidade, e o público começou a reagir a isso. É um tipo de protesto: ‘não vou mais consumir coisas novas que não duram nada’. As peças de 30, 40, 50 anos estão inteiras. Então, por que não fazem mais isso? E eu sinto que a indústria da moda também está reagindo”, avalia Adriano Toni, sócio da Helvetia Vintage, brechó especializado em relógios vintage e acessórios com história.
Seja como lançamento de marcas renomadas ou entre peças mais antigas, o relógio tradicional ganha um novo fôlego e passa a ser visto para além de sua função. Como um instrumento de estilo e memória, tem corda para continuar marcando as horas por muito e muito tempo.
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