Os protagonistas desse fenômeno têm casca, sementes e nomes improváveis, como Abacatudo, Moranguete e Bananildo, mas os dramas que vivem são tão familiares quanto perturbadores, especialmente para as mulheres. Nas últimas semanas, uma enxurrada de novelas de frutas criadas com inteligência artificial passou a dominar plataformas como TikTok e Instagram, acumulando milhões de visualizações.

No centro dessas histórias curtas, estão personagens femininas antropomorfizadas, como morangos, maçãs e pêssegos, quase sempre hipersexualizadas e envolvidas em enredos marcados por traição, gravidez indesejada, assédio e violência doméstica.

novelas de frutas

Com narrativas viciantes, elas seguem o mesmo formato de outros conteúdos descritos como brain rot, ou cérebro podre, em tradução livre, utilizado para classificar o consumo repetitivo e superficial de vídeos sem sentido. Em 2024, o termo foi eleito como expressão do ano pelo Dicionário Oxford, apesar de ter surgido ainda no século 19, no livro Walden, do escritor estadunidense Henry David Thoreau, que criticava a civilização industrial através desse conceito.

Para a socióloga e cientista política Bruna Camilo, pesquisadora e doutora em gênero e misoginia, o hype das novelas de frutas está longe de ser apenas mais uma tendência engraçada e absurda da internet. “À primeira vista, esses folhetins parecem banais, mas funcionam como uma forma de normalização lúdica de temas machistas. A estética infantilizada cria um contraste direto com enredos marcados por traição, violência e humilhação. E esse contraste não é neutro, ele reduz a resistência crítica de quem consome.”

“Isso dialoga diretamente com o que entendemos hoje como misoginia contemporânea. Ela nem sempre aparece como ódio explícito, mas como repetição de narrativas degradantes em formatos aparentemente inofensivos.”
Bruna Camilo

Os vídeos seguem uma fórmula clara. Os episódios curtos apresentam reviravoltas constantes, como a “esposa morango” traída pelo “marido abacate”, a “noiva maçã” abandonada grávida, a “mulher melancia” fazendo de tudo para emagrecer ou a “funcionária pêssego”, que sofre assédio do chefe no trabalho para sustentar a família. Nesse cenário, o sofrimento feminino não apenas estrutura a trama, ele é reiterado, amplificado e consumido como entretenimento.

novelas de frutas

Perfis como @me.anima.ia contam com mais de 150 mil seguidores no Instagram, com vídeos que ultrapassam 1 milhão de visualizações. Outra conta, chamada @objetosempanico, bateu 800 mil seguidores. No TikTok, os números se repetem. Fora do Brasil, um perfil em inglês intitulado @FruitvilleGossip lançou a série Tribunal de paternidade das frutas, em que os personagens descobrem que seus filhos são de outros homens frutas por meio de testes de DNA.

“Esse tipo de conteúdo atua como uma porta de entrada para narrativas mais densas de misoginia. Nos estudos sobre radicalização, isso aparece como camadas de engajamento: começa com um humor sem sentido, aparentemente inofensivo e engraçado, e vai, aos poucos, naturalizando discursos problemáticos e machistas, até escalar para algo mais explícito”, explica Bruna.

Essa lógica fica evidente na construção das personagens femininas. “As protagonistas quase sempre aparecem disputando atenção masculina, traindo, engravidando ou sendo humilhadas”, observa. “Há um reforço muito forte de padrões misóginos. Os roteiros reproduzem estruturas bastante clássicas dentro da sociedade, quase sempre com as mulheres sendo definidas por suas relações com homens e frequentemente submetidas a punições morais, seja por meio de gravidez, humilhação ou objetificação, mesmo dentro de uma estética infantil.”

Essa estética fortemente inspirada nas animações da Disney não é por acaso. No ano passado, a OpenAI anunciou um investimento de 1 bilhão de dólares por parte do estúdio, além de uma parceria que também envolve licenciamento de conteúdo de mais de 200 personagens para utilização no Sora, a plataforma de vídeos curtos gerados pela IA da dona do ChatGPT.

A aparente leveza do formato é, segundo Bruna, parte central do problema. “Isso dialoga diretamente com o que entendemos hoje como misoginia contemporânea. Ela nem sempre aparece como ódio explícito, mas como repetição de narrativas degradantes em formatos aparentemente inofensivos.” Nesse contexto, o humor atua como uma espécie de blindagem, ou seja, quem critica é acusado de não saber brincar.

O impacto pode ser ainda mais sensível quando se considera o público mais jovem. Especialistas em segurança infantil pontuam que essas novelas inadequadas podem trazer riscos ao desenvolvimento cognitivo das crianças, além de apontarem possíveis brechas nas diretrizes das plataformas voltadas à proteção desse público.

“A linguagem da animação reduz a percepção de risco e embaralha as fronteiras entre entretenimento infantil e conteúdo adulto. Isso pode antecipar a exposição a temas como violência e sexualização”, alerta a pesquisadora. “Há também a naturalização de relações abusivas, o reforço de papéis de gênero hierárquicos e a banalização da violência contra mulheres. Ou seja, não se trata de um conteúdo bobo. Ele participa de um processo de socialização simbólica.”

novelas de frutas

Embora não haja necessariamente uma conspiração centralizada por trás dessas produções, há um ambiente que favorece sua circulação. “Existe, sim, um ecossistema que favorece esse tipo de conteúdo. Ele se conecta a outras trends, como a que jovens encenavam reações violentas à rejeição feminina. A lógica é semelhante: transformar violência em humor, testar os limites do aceitável e gerar engajamento a partir do choque – o que, claro, também se traduz em lucro.”

A própria natureza das animações contribui para a dificuldade de moderação nas plataformas. “Por não envolverem pessoas reais, esses conteúdos escapam de filtros mais tradicionais de violência e podem ser facilmente classificados como humor. Isso cria uma zona cinzenta que favorece a circulação”, explica.

Quem está por trás desse tipo de conteúdo alega que ele é inofensivo, mas, para Bruna, essa resposta é estratégica. “Ele desresponsabiliza os criadores, neutraliza críticas e transforma qualquer questionamento em exagero”, afirma. “Mas, quando há repetição de padrões, especialmente de gênero, dificilmente isso é aleatório. Mesmo que não exista um plano consciente, há uma intencionalidade estrutural: produzir aquilo que engaja. E a misoginia, infelizmente, engaja.”

No fim, por trás do absurdo e até do humor involuntário das novelas de frutas, há um retrato mais amplo do ambiente digital nos dias atuais. “Sim, houve um avanço no discurso de ódio às mulheres na internet e, principalmente, uma maior normalização. Agora, o discurso de ódio não precisa ser explícito para ser eficaz. Ele aparece nas entrelinhas, como um meme, um vídeo de humor ou uma narrativa absurda como essa e, justamente por isso, se torna mais difícil de combater.” O resultado é uma misoginia mais sofisticada. “Ela deixa de ser apenas reativa e passa a ser produtiva, criando cultura, linguagem e identificação.”

Leia também:
Saúde feminina: por que a medicina ainda falha com as mulheres?