Uma mulher chega ao pronto-socorro com náusea, fadiga extrema e uma dor difusa nas costas. É diagnosticada com ansiedade e mandada para casa. Horas depois, retorna ao hospital – dessa vez, em estado grave, vítima de um infarto que não havia sido identificado. Outra mulher busca atendimento médico por conta de um sangramento intenso e prolongado, dores incapacitantes e cansaço persistente. Ouve que é normal, que faz parte do ciclo menstrual, recebe um analgésico e volta para casa. No mês seguinte, os sintomas se repetem. E no seguinte também. O diagnóstico não vem –  nem o tratamento adequado.

Essas cenas se repetem em diferentes regiões do mundo, em hospitais e consultórios médicos públicos e privados: mulheres com sintomas subestimados, diagnósticos errados e um sistema de saúde que ainda falha em reconhecê-las.  Este fenômeno ficou conhecido como “gender health gap”, termo em inglês que se refere à disparidade sistêmica na medicina baseada em gênero, que torna comum a negligência à saúde da mulher. 

A raiz desse problema está na forma como o conhecimento médico foi construído. Por muito tempo, a medicina tomou o homem como medida de todas as coisas, estabelecendo-o como norma universal e enquadrando as mulheres nessa régua. “Enxergar os homens como o padrão humano é algo fundamental à estrutura da sociedade. É um hábito antigo e profundamente enraizado – tão profundo quanto as próprias teorias da evolução humana”, escreve Caroline Criado Perez em Mulheres Invisíveis (2022), obra que expõe como os dados que organizam o mundo – da ciência à política – ignoram o sexo feminino. A autora denuncia que vivemos em um sistema em que toda a experiência masculina é tratada como a experiência humana padrão. 

Quando o assunto é pesquisa médica, isso se intensificou entre as décadas de 1950 e 1960, após o que ficou conhecido como a “tragédia da talidomida”. Naquele período, o medicamento indicado para náuseas causou graves malformações congênitas em milhares de bebês ao ser utilizado por gestantes, desencadeando uma crise de confiança na indústria farmacêutica. Era de se esperar que o episódio levasse ao fortalecimento dos protocolos de segurança e à ampliação dos estudos sobre os efeitos dos medicamentos no corpo feminino. O que ocorreu, porém, foi o oposto: diretrizes regulatórias, especialmente nos Estados Unidos, passaram a restringir a participação de mulheres em idade fértil em ensaios clínicos.

Amparada por um discurso de proteção e também pela percepção de que as flutuações hormonais tornariam os estudos mais complexos e caros, essa exclusão se consolidou nas décadas seguintes. Isso significa que, por anos, medicamentos e tratamentos continuaram sendo desenvolvidos sem considerar plenamente o feminino – cenário que só começou a mudar de forma mais consistente a partir da década de 1990. “Quando a sua experiência não faz parte dos dados coletados, você se torna invisível”, escreve Caroline.

Na prática da medicina, isso se traduziu em protocolos e diretrizes construídos ignorando as diferenças hormonais, metabólicas e fisiológicas entre corpos masculinos e femininos. “O homem de 70 quilos se tornou o padrão de referência para praticamente tudo – da dosagem de medicamentos à apresentação das doenças e aos critérios diagnósticos”, afirma a pesquisadora estadunidense Alyson McGregor, autora de Sex matters: How male-centric medicine endangers women’s health and what we can do about it (2020). 

“Quando você treina gerações de médicos com base em livros, diretrizes e pesquisas derivados predominantemente de homens, isso não parece um viés – parece simplesmente ‘medicina’.”
Alyson McGregor

De acordo com a pesquisadora, esse padrão está tão enraizado que ele praticamente não é visto. “Quando você treina gerações de médicos com base em livros, diretrizes e pesquisas derivados predominantemente de homens, isso não parece um viés – parece simplesmente ‘medicina’. Essa premissa está tão profundamente incorporada que muitos profissionais sequer percebem que praticam uma medicina centrada no masculino”, diz. 

As consequências são múltiplas. Estudos publicados na BMJ, revista médica britânica, mostram que mulheres têm maior probabilidade de receber um diagnóstico incorreto em situações de emergência, especialmente em quadros cardiovasculares e neurológicos. O caso do infarto, citado como exemplo no começo da reportagem, é emblemático: enquanto homens costumam apresentar a dor clássica no peito irradiando para o braço esquerdo, mulheres podem ter sintomas como dor no abdômen superior, náusea intensa e desconforto no pescoço – sinais que ainda são sub-reconhecidos na prática clínica. “Esses sintomas são frequentemente atribuídos à ansiedade ou ao estresse. Mulheres são mandadas para casa – e algumas morrem”, alerta Alyson.

Há também o problema das reações adversas a medicamentos. A maior parte dos fármacos disponíveis hoje foi testada e teve sua dosagem definida com base em corpos masculinos. No entanto, sabemos hoje que mulheres apresentam diferenças significativas no metabolismo hepático, na composição corporal e na distribuição de gordura, o que pode fazer com que essas substâncias permaneçam por mais tempo no organismo. Como resultado, elas têm maior risco de efeitos colaterais. Foi o que aconteceu com o Zolpidem, remédio para insônia cuja dose precisou ser reduzida pela metade para mulheres após o aumento de acidentes e episódios de sonambulismo ligados à eliminação mais lenta da substância. Entre 1997 e 2001, de dez medicamentos retirados do mercado nos Estados Unidos, oito apresentavam riscos mais elevados para a saúde feminina.

O viés de gênero também atravessa de forma significativa a ginecologia e a obstetrícia. Embora, em tese, sejam especialidades dedicadas ao corpo feminino, o conhecimento produzido nesses campos ainda convive com lacunas profundas. Historicamente, a mulher foi tratada como corpo reprodutivo e não como sujeito integral, com foco quase exclusivo na gestação e no parto. 

A endometriose, doença inflamatória em que o tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero, talvez seja o exemplo mais conhecido desse apagamento. Apesar de ser conhecida pela medicina há mais de 150 anos e afetar cerca de uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva, ainda pode levar de sete a dez anos para ser diagnosticada. A falta de investimento em pesquisa faz com que suas causas permaneçam pouco compreendidas e os tratamentos, limitados. “Muitas mulheres chegam ao consultório relatando cólicas intensas e ouvem que ‘é assim mesmo’. Estamos falando de uma doença incapacitante, que gera dor crônica, mas que ainda é tratada com normalidade”, revela Marcela McGowan, médica ginecologista e comunicadora. 

Nos últimos anos, coletivos e ativistas têm questionado também os próprios instrumentos da ginecologia, que parecem ter parado no tempo. O espéculo vaginal – ferramenta central em exames de rotina como o Papanicolau – pouco mudou desde sua criação no século XIX e segue sendo frequentemente associado a dor, desconforto e ansiedade por parte das pacientes. A experiência se repete em outros exames essenciais à saúde feminina, como a mamografia. Embora seja fundamental para a detecção precoce do câncer de mama, o procedimento, que envolve a compressão das mamas entre placas, é frequentemente descrito como doloroso e, para muitas mulheres, motivo de apreensão ou adiamento. Ainda que avanços tecnológicos tenham sido incorporados ao longo dos anos, o desconforto feminino segue sendo tratado como um efeito colateral inevitável. 

A esses problemas soma-se ainda outro componente misógino que atravessa a prática médica e acompanha a mulher do diagnóstico ao tratamento. No livro Unwell Women (2021), a historiadora Elinor Cleghorn mostra como, ao longo dos séculos, a medicina interpretou os sintomas femininos a partir de lentes morais e emocionais, frequentemente desconsiderando a experiência das pacientes. Do diagnóstico de “histeria” à recorrente associação entre dor e instabilidade emocional, o corpo feminino foi sistematicamente mal compreendido. E isso não ficou no passado. “Estudos mostram que a dor das mulheres tem mais chances de ser subtratada, atribuída a causas emocionais e simplesmente descartada”, afirma Alyson. Esse padrão se desdobra em casos de negligência e violência médica que, em última instância, podem levar à morte – um cenário particularmente alarmante no contexto da gestação, do parto e do puerpério. 

Para diminuir o “gender health gap”, pesquisadores e ativistas apontam soluções que envolvem desde a reestruturação da educação médica até mudanças em políticas de financiamento e uso de tecnologia. Isso inclui a obrigatoriedade de incluir mulheres em ensaios clínicos e a ampliação do investimento em áreas historicamente negligenciadas, como saúde reprodutiva e doenças que afetam majoritariamente mulheres. Precisamos que a próxima geração de pesquisadores e médicos entenda que considerar o sexo é essencial para o rigor científico. 

Ainda que avanços nesse sentido tenham começado a surgir, com o debate sobre desigualdade de gênero na saúde ganhando espaço na mídia e na academia, especialistas alertam que o ritmo de mudança segue aquém do necessário. Alguns pesquisadores afirmam ainda que lidaremos com novos riscos com o crescimento do uso da inteligência artificial, treinada com base nesses dados predominantemente masculinos.

Diante desse cenário, manter-se atenta à própria saúde ainda é uma necessidade. Para Marcela, isso passa por romper com a tendência de terceirizar o cuidado: “As mulheres entendem a importância da saúde, mas ainda delegam muitas decisões ao profissional, aceitando condutas, diagnósticos e tratamentos sem questionar. O médico tem um conhecimento técnico, mas a mulher é a maior especialista na própria experiência”. Essa percepção é compartilhada por Alyson. “Se você sente que algo está errado com o seu corpo e não está sendo levada a sério, provavelmente não está imaginando. Entender que isso é um problema estrutural, e não uma falha individual, pode ser libertador, porque dá às mulheres linguagem e contexto para questionar e insistir em respostas.”

Nesse contexto, a informação se torna ferramenta central. Marcela defende que o acesso ao conhecimento é o que permite transformar a relação com o próprio corpo. “É preciso ter ferramentas para questionar, buscar profissionais alinhados e não aceitar o desconforto como algo inevitável.” Na prática, isso também significa adotar uma postura mais ativa no consultório. Alyson sugere perguntas diretas – “O que mais isso pode ser? O que estamos descartando? Se fosse um homem com esses sintomas, o que você faria?” – e estratégias concretas, como pedir que a recusa de investigação seja registrada no prontuário. “Esse simples pedido pode mudar completamente a dinâmica da consulta”, afirma.

Infelizmente, ainda é preciso, sim, lembrar de que o sistema não foi desenhado pensando em você e se manter em alerta. “Sua saúde não deveria ser algo pelo qual você precisa lutar, mas, até que as coisas mudem, ser sua própria defensora pode literalmente salvar a sua vida”, conclui Alyson.

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