Melly lança “Mais forte que a dúvida”, seu segundo disco

Álbum da cantora baiana traz participações de Anitta e Léo Santana a Liniker e Luedji Luna.


Melly
Foto: Vitor Cipriano



Foi em julho de 2021 que Melly estreou com Azul, EP de quatro faixas que propunha um encontro esperto entre o R&B e o pagodão baiano. Três anos depois, veio Amaríssima, seu primeiro disco de estúdio. Com influências do ijexá e afoxé, o projeto rendeu à cantora e compositora uma indicação ao Grammy Latino e consolidou sua ascensão no cenário nacional, abrindo caminhos para apresentações em grandes festivais ao redor do Brasil, como o The Town, em São Paulo, e o Doce Maravilha, no Rio de Janeiro. 

Agora, aos 24 anos, a artista nascida e criada no bairro do Barbalho, no centro histórico de Salvador, apresenta Mais forte que a dúvida. Produzido por Iuri Rio Branco (Marina Sena, Anitta), o álbum marca um momento de maior firmeza artística e pessoal para Melly. Certa de quem se é, a soteropolitana recorre a estudos esotéricos, ancestrais e filosóficos para refletir sobre a alma nas composições.

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O resultado, lançado nas plataformas de áudio na última quinta-feira (28.05) e acompanhado por um filme que estreou no dia seguinte em seu canal do YouTube, é definido pela artista como um disco de música popular brasileira. Em sua MPB, porém, vale tudo inclusive sonoridades historicamente marginalizadas, como o pagodão e o arrocha, incorporadas aqui como parte central da identidade musical do país. As colaborações, que vão de Anitta e Léo Santana a Liniker e Luedji Luna, representam bem essa mistura.

Na entrevista a seguir, Melly conta sobre o novo projeto e suas influências, confessa ter medo da fama, fala de suas referências sáficas e, claro, da alegria de vir da Bahia.

O título do disco é Mais forte que a dúvida. Que dúvida seria essa? E em que momento você se tornou mais forte que ela? 

Esse título vem do que percebi na minha experiência nesse ramo. Depois de ter chegado ao Grammy, ganhado premiações, muitas dúvidas começaram a ser colocadas sobre a minha trajetória, sobre as minhas escolhas, sobre meus próximos passos. E a única resposta que tinha era essa: o que grita mais forte, o que me acende uma certeza, é a minha essência, a minha alma. Então, esse álbum é um lembrete para mim mesma de que a gente deve perseguir a nossa própria forma de ser. Sem ficar cedendo a tudo o que bombardeia a gente, tudo o que tenta encaixar a gente num quadrado, numa caixa, sabe? Esse é o conceito do disco todo. Fui na etimologia da coisa, busquei referências e embasamento filosófico para conseguir trazer esse personagem mais forte que a dúvida, essa pessoa autodominante, serena e segura.

Por quê? Você se assustou com a exposição causada por seu álbum de estreia?

Tinha medo do sucesso, nunca almejei a fama. Antes, era uma pessoa muito tímida e fechada. Às vezes, um elogio me deixava chorosa, um maltrato me deixava muito triste. Agora, estou mais habituada, porque o trabalho exige que a gente seja forte. Mas é um lugar de exposição muito grande, tem muita gente falando muita coisa. Você tem que estar com o seu foco bem claro.

E o que te dá esse foco?

Se me deixasse afetar, minha avó ia me bater (risos). Não tem como. Minha avó iria ficar puta, minha família iria me negar. Eu sou muito família. Eles são o meu porto seguro, meu farol.

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MELLY ALBUM 1.0

Foto: Vitor Cipriano

Voltando ao novo álbum, como você define a sonoridade dele?

É um disco de música popular brasileira. Ele aborda diversas referências que são completamente Brasil, profundamente Norte e Nordeste. Essa é a camada que quis trazer para o meu som pop: usar referências que nem sempre recebem o reconhecimento que merecem e que, muitas vezes, acabam colocadas na caixa do “regional”, quando, na verdade, fazem parte da identidade musical nacional.

Você explora, inclusive, elementos musicais marginalizados, como o pagodão baiano e o arrocha, né?

Sou da periferia. Cresci nessa realidade. É essa a música que me cercou até os meus 15 anos de idade. Não tinha como deixar de citar essas rítmicas, é indissociável de mim. Não vou colocar uma barreira e falar “poxa, não vou mais apreciar esse tipo de música, quero ir para um caminho diferente” só porque o que curto não é aceito. Sempre fui muito rebelde. Continuo transgredindo normas musicais e sociais.

Iuri Rio Branco, que trabalha com grandes nomes da nova geração, como Marina Sena, Duquesa e Liniker, assinou a produção. Como foi esse processo?

A gente teve uma junção muito fluida. Acho que ele entendeu o discurso do disco. Ele já me escutava, a gente já se sacava. Cheguei em São Paulo e entreguei para ele as canções. Havia 70 músicas que compus do ano passado para cá. A gente escolheu 20, depois 14. Iuri pegou essas 14 faixas e passou por cima delas, atropelou e levou para outro lugar, muito mais interessante, algo que sozinha não conseguiria. A gente terminou em três meses.

“Esse álbum é um lembrete para mim mesma de que a gente deve perseguir a nossa própria forma de ser”

Em Amaríssima, você assinou a produção. Qual a diferença de ter alguém para trocar agora?

No primeiro álbum, estava no controle da máquina. Tinha o projeto em mãos, fiz as bases das músicas, depois apresentei para um colega e terminamos juntos. A decisão final era minha. Continua sendo, mas, eu estava intercedendo demais no processo. Amaríssima foi um disco muito intenso, passava madrugadas no estúdio. Ainda não tinha consciência de que, para fazer música, a gente não precisa estar completamente imerso ali. A gente pode viver outras coisas enquanto isso acontece – e é até bom, porque o ouvido respira. A gente acorda de ouvido limpo, escuta a música melhor, toma decisões melhores. Vi isso acontecer agora nesse processo com o Iuri. 

E o que você estava ouvindo durante o processo que pode ter influenciado o resultado final?

Vou te falar, deixa eu abrir meu Apple Music. Quando descobri que queria falar sobre a alma, li um livro chamado O caibalion (1908) e descobri que ele tinha inspirado alguns discos que curtia, como A tábua de esmeralda (1974), do Jorge Ben Jor. Aí passei a ouvir muito esse. Depois teve o disco do Milton Nascimento e Lô Borges, o Clube da esquina (1972), e O poeta e o violão (1975), de Toquinho e Vinicius de Moraes. Peraí, tem mais coisa interessante… Ah, Luar (1981), de Gilberto Gil também. De música internacional, eu estava há um tempo sem ouvir. Mas esse disco do Daft Punk foi importantíssimo: Random access memories (2013). E Victoria Monét, Jaguar II (2023).

O álbum tem alguns feats, inclusive com Anitta. E é uma dobradinha: você também participa do novo disco dela, Equilibrivm (2026). Como se deu esse encontro?

Nos conhecemos no início do ano, no camping do disco dela. A gente trocou bastante ideia e ela adorou “Ternura”. É uma música que já havia escrito antes e também gosto muito, mas ela falou que queria essa. Tenho aprendido a ser mais compositora e menos apegada. Disse: “Poxa, então, pode ficar”. Aí ela propôs: “Posso participar do seu disco, se você quiser. Você participa do meu nessa música, e eu participo do seu com outra”. Aí achei incrível! Admiro muito ela enquanto artista. O que ela fez com o funk, a forma de inseri-lo na música pop… Minha vontade é fazer isso também com a música baiana. E no meu álbum, ela colou em “Ela gosta de menina”. Foi logo uma faixa com afrobeat e pagodão para a gente chocar!

MELLY ALBUM 9

Foto: Vitor Cipriano

E as outras colaborações?

Léo (Santana) conheci num baile beneficente que ele deu lá em Salvador. Ele já conhecia o meu som e falei que estava com uma música que ia groovar com a voz dele. E ele falou: “Pô, manda sim, preta”. Mandei, ele gravou. Esse cara é muito rápido, meu Deus! Luedji (Luna) é uma parceira, uma irmã. Sou a maior admiradora do trampo dela, a considero nossa poetisa contemporânea mais pesada. E Liniker é outra irmã, que desbloqueou caminhos criativos para mim. Ela compôs comigo a canção que participou, “Ana”. Queria que o Russo (Passapusso, vocalista do BaianaSystem) tivesse participado também, mas esse safado demorou para gravar (risos).

Você citou a faixa “Ana”, que leva o nome da sua namorada. Em algum momento, você teve receio de que falar abertamente sobre relações entre mulheres pudesse acabar te colocando em um nicho?

Não. Sempre fui muito otária, velho (risos). Gosto mesmo de fazer o que gosto. Então, não tô nem aí para nenhuma opinião que vá cercear a minha vida, sabe? Você pode até fazer uma crítica construtiva que, de fato, faça sentido. Mas as possibilidades dos músicos atuais são tão vastas que acredito que ficar nessa de querer adivinhar o que vai desempenhar melhor é ser muito boçal. Porque a música se comporta de acordo com a realidade do momento, né? E a realidade é que as minorias são a maioria.

Você tem referências musicais sáficas que te inspiraram ao longo da trajetória?

Já me espelhei em muitas mulheres, como Maria Gadú, Ellen Oléria, Gal Costa, Whitney Houston. É imprescindível que a gente tenha esses exemplos funcionais, bonitos, de amor entre mulheres ou de conforto com a própria pele, porque isso inspira nas pessoas a vontade de serem elas mesmas. E, sendo elas mesmas,  judam todo mundo ao seu redor. É isso que eu sinto.

“É imprescindível que a gente tenha esses exemplos funcionais, bonitos, de amor entre mulheres ou de conforto com a própria pele”

A Bahia é muito presente no seu trabalho. Como sua terra te engrandece enquanto artista?

Essa pergunta é difícil. A Bahia é tudo para mim. Foi o que me inspirou, o que me fez chegar até aqui. Sou muito grata à musicalidade baiana, tem pessoas de lá que são inacreditáveis. Caetano Veloso e Carlinhos Brown, que transformou a musicalidade baiana. Márcio Victor mudou a forma de se fazer pagode. ÀTTØØXXÁ, que trouxe a sintetização do pagode. BaianaSystem, que está carregando o Carnaval. Rachel Reis, que é a nova voz do axé, eu acredito. Poxa, tento só fazer jus. Porque o acervo é pesado! (risos) A gente tem que ser digno.

Para finalizar, qual o mood ideal para ouvir Mais forte que a dúvida?

Esse disco tem uma tracklist bem diversa, então as canções podem ser ouvidas em momentos diferentes. Se você gosta de mar, de natureza, talvez uma casa de praia com seus amados, seus queridos ali. Bota para tocar, abre uma cerveja, toma um sol, sabe? Bota um bronzeador e vamos nessa!

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