Quando se fala em criação de filhos e filhas, a palavra cuidado é das primeiras que aparece. Faz sentido: não estaríamos aqui se não existissem pessoas atentas aos nossos primeiros passos, nos alimentando, nos ensinando ou, ainda, vigilantes com nossos choros e eventuais doenças desde a mais tenra idade.

A incongruência aparece ao notarmos que o cuidado de si, do outro e do ambiente ao redor é uma atribuição compulsoriamente ensinada e cobrada para uma parte da população, reconhecida socialmente como mulheres. Os homens, quando se responsabilizam, aprendem uma paternidade limitada a três Ps: procriar, prover e proteger.

De acordo com a pesquisa “Outras Formas de Trabalho 2022”, parte da PNAD Contínua do IBGE, 81% dos homens brasileiros com mais de 14 anos se dedicaram a afazeres domésticos ou de cuidados com as pessoas durante aquele ano. Um avanço em relação aos 74,1% aferidos em 2016, mas aquém do índice de 92% registrado entre as mulheres em 2022. A diferença fica ainda mais gritante quando a pergunta muda de “quem” para “o quanto” essas pessoas se dedicam. As brasileiras gastaram em média 21,3 horas semanais cuidando da casa ou de pessoas em 2022, quase dez horas a mais que as 11,7 horas dos homens.

Está cada vez mais evidente, para qualquer um que se disponha a olhar, que o papel de simples provedor do lar não é mais o suficiente e, muitas vezes, nem está mais acessível – 49,1% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, segundo o Censo de 2022 do IBGE. Uma pesquisa mais antiga, feita em 2016 pelo Instituto PdH e ONU Mulheres, já apontava que “8 em cada 10 homens gostariam de passar mais tempo com os filhos”. Então por que essa transformação ainda se dá de forma tão lenta e alguns elogios por fazer o mínimo, do tipo “é bom pai porque troca a fralda”, ainda nos cercam?

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Quando coordenei o projeto O Silêncio dos Homens, que incluiu uma pesquisa com 47 mil pessoas e um documentário sobre as construções sociais dos homens no Brasil, ouvi de especialistas que a alteração que desejamos para as paternidades passa por quatro pilares: o cuidado direto, a presença emocional, a transformação pessoal do indivíduo e, por fim, a mudança social.

Para quem está acostumado a se ver como alguém lógico e objetivo, a função pai-tarefeiro cai como uma luva. Deu banho? Dei. Trocou a fralda? Troquei. Levou e buscou na escola? Sim. Alguém manda, ele obedece. Trata-se de uma presença necessária e significativa, uma vez que antes não havia nada – e em um país em que 1,7 milhão de crianças sequer têm o nome do pai na certidão de nascimento –, mas é pouco. Quem sabe quantas cuecas ou calcinhas limpas ainda estão na gaveta dificilmente é ele, o que reforça o papel das mulheres como principais responsáveis pelo cuidado e detentoras da carga mental inerente.  

Para quem está acostumado a se ver como alguém lógico e objetivo, a função pai-tarefeiro cai como uma luva. Deu banho? Dei. Trocou a fralda? Troquei. Levou e buscou na escola? Sim. Alguém manda, ele obedece.”

A conexão emocional acontece como um passo quase inseparável para aqueles que se fazem presentes, mas pede um exame mais cuidadoso. Brincar aos finais de semana ou dar bronca podem até ser territórios conhecidos para o atual paternar. Mas abrir-se de verdade para filhos e filhas, conforme eles vão crescendo, compartilhando afeto, amor, carinho e também medos, erros, ansiedades e aprendizados é algo bem difícil para quem aprendeu que ser homem é ser duro e invulnerável. A parentalidade pede justamente adaptabilidade e abertura.

Eu pesquiso esse tema, faço terapia há anos, estou estudando para ser psicanalista e tenho bem mais água no mapa astral do que seria recomendável, mas mesmo assim essa foi e é a parte com que eu tenho mais dificuldade. Esses dias, meu filho Francisco, 12 anos, precisou ser internado às pressas por conta de uma apendicite e pediu que eu ficasse todas as noites com ele mesmo quando a mãe e a avó estavam disponíveis. O revezamento pensado pelos adultos não tinha levado em conta a sensação de segurança que ele procurava, e eu não tinha me dado conta da insegurança que aquela situação me traria. Só na quarta noite, depois de dias performando solidez, desabei e me permiti chorar junto.  

Não é um processo linear, mas nenhuma transformação pessoal profunda é. Quando a gente se torna pai, um espelho aparece na nossa frente a cada nova situação: eu vou fazer o que meu pai fazia comigo, ou vou fazer diferente? A cada vez que a gente escolhe um caminho diferente, muda um pouquinho. Com o acúmulo de decisões e com o tempo, amadurecemos e, digo com comprovação empírica, já não somos mais os mesmos que éramos há 15, 10 ou dois anos, ainda que esse seja um caminho sem linha de chegada.

O quarto e último passo não é apenas o mais difícil de alcançarmos, mas também o que mais exerce influência direta sobre todos os outros. As barreiras não são apenas individuais ou culturais. É preciso segurança econômica e apoio governamental para mães, pais e cuidadores. 

Muita gente não faz ideia, mas apenas em 31 de março deste ano a licença-paternidade foi regulamentada no Brasil, com a Lei 15.371/2026. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu um prazo provisório de cinco dias e determinou que a extensão definitiva seria definida por uma lei complementar – que demorou 38 anos. A ampliação é uma conquista articulada institucionalmente pela Co-Pai, ONG da qual sou embaixador, e se dará de maneira gradual. A partir de 1º de janeiro de 2027, os pais terão direito a 10 dias corridos de folgas remuneradas a partir do nascimento da criança; em janeiro de 2028, 15 dias. A partir de janeiro de 2029, 20 dias.

Uma vitória que, comparada aos pelo menos 120 dias garantidos às mães, ainda deixa claro o recado: sabemos que existe uma nova vida que precisa de você, a pessoa com quem você se relaciona nunca mais será a mesma e precisa de suporte, mas volte ao trabalho. Essa é a principal responsabilidade que lhe cabe.

Se a gente quiser chegar a um lugar mais equitativo, os exemplos de países como Suécia, Alemanha ou Portugal apontam que uma licença parental única, em que o núcleo familiar decide quem vai ficar quanto tempo afastado – e os homens são obrigados a se responsabilizar por pelo menos alguns desses dias – gera benefícios duradouros para filhos, mães e para a sociedade como um todo. 

Um estudo alemão com 130 mil pessoas mostrou que homens que usufruem da licença continuam mais presentes nos cuidados com os filhos anos depois, incluindo tarefas domésticas. Na Suécia, isso tem significado menos questões de saúde mental para as filhas mulheres e menos envolvimento como autores ou vítimas de bullying para os meninos. Extrapolando para um futuro contexto brasileiro, isso poderia significar menos sobrecarga para as mães, mas também menos ocorrências no SUS ou em delegacias.

Nas pesquisas que realizo, os homens brasileiros dizem cada vez mais que querem estar ao lado da família para ver filhos e filhas crescerem e contribuir ativamente nisso. As palavras precisam ser acompanhadas pelas ações. 

Se você está em uma relação, descubra como pode cuidar uma hora a mais da sua filha para que sua companheira ou companheiro possa usar esse tempo para cuidar de si. Se seu amigo é pai mas nunca vê o filho, questione. Se você é líder, coloque seus compromissos com as crianças na agenda e recuse aquela reunião no horário de buscá-las na escola. Se você está em posição de poder, na esfera pública ou privada, faça que a licença paternidade não seja vista só como um direito, mas também um dever.

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Quando eu mudo, um bocado de gente ao meu lado testemunha que aquilo é factível e também se abre para a mudança. Quando uma comunidade muda, a cultura e a sociedade mudam junto. Precisamos disso.  

Ismael dos Anjos é pai socioafetivo do Francisco, jornalista e mestre em fotografia documental. Cofundador do Instituto de Defesa da População Negra, coordenou o projeto “O Silêncio dos Homens”, pesquisa e documentário sobre as construções sociais dos homens no Brasil, atua como consultor em interseccionalidade e facilita rodas de conversa para adolescentes como parte do Masculinidades nas Escolas.