Viver melhor por mais tempo. Envelhecer mais devagar. Preservar músculos, cognição, metabolismo, pele, disposição e autonomia pelo maior número possível de anos. Se existe uma promessa capaz de resumir boa parte da indústria contemporânea de wellness, talvez seja esta: a de que, com informação, disciplina e, sobretudo, dinheiro suficiente, podemos assumir algum controle sobre o tempo.
No centro dessa conversa está a ideia da longevidade, termo que deixou de ser apenas uma preocupação da medicina ou uma promessa distante de obras de ficção científica para se transformar em uma das grandes palavras do mercado de beleza e bem-estar. Em vez de simplesmente tentar “reverter” o envelhecimento, a proposta é otimizar a idade biológica e prolongar os anos de vida. Para Candice Pomi, psicóloga e consultora em longevidade, o conceito é bastante amplo. “Não se trata somente de uma questão física, envolve também condições materiais e financeiras e a construção de uma rede social capaz de acompanhar as diferentes fases da vida”, resume. Mais do que simplesmente acrescentar anos à existência, trata-se de sustentar saúde, autonomia e vitalidade ao longo deles.
O caminho até esse objetivo pode envolver uma série de mudanças na rotina. Comer melhor, fazer musculação, controlar o estresse, dormir oito horas por noite e cuidar da saúde mental compõem o pacote básico. O mercado de bem-estar, porém, ainda propõe acompanhar biomarcadores, tomar suplementos, cuidar da pele, fazer procedimentos estéticos e investir em medicina preventiva – isso sem falar nos protocolos que parecem saídos de um laboratório do futuro: terapias com luz infravermelha, crioterapia, oxigenoterapia hiperbárica e práticas de biohacking que garantem otimizar o funcionamento do organismo.
Não à toa, o Global Wellness Institute (GWI) passou a identificar a longevidade como um dos vetores de crescimento da economia do wellness, que atingiu 6,8 trilhões de dólares em 2024 e deve chegar a quase 9,8 trilhões em 2029. Em 2026, o instituto apontou ainda a chamada “longevity aesthetics”, ou estética da longevidade, como uma tendência do mercado de beleza. Na prática, o conceito desloca o foco do tradicional “anti-idade”: ao invés de apagar marcas do tempo, trata-se de investir em produtos, procedimentos e tecnologias que prometem acompanhar o envelhecimento e preservar, por mais tempo, uma aparência associada à juventude.
Há, evidentemente, avanços científicos importantes no meio disso tudo. Sabemos muito mais sobre o envelhecimento do que sabíamos algumas décadas atrás. Entendemos que hábitos e condições de vida interferem na incidência de uma série de doenças e que prevenção, atividade física, alimentação adequada e acompanhamento médico podem aumentar não apenas a expectativa de vida, mas os anos vividos com mais autonomia.
“Não considerar fatores como renda, território, raça, gênero é ignorar que essas condições também determinam quem tem tempo e recursos para cuidar de si.”
Lidiane da Silva
O problema começa quando uma possibilidade – cuidar melhor da saúde ao longo da vida – vai sendo transformada em um projeto pessoal que, inevitavelmente, vem acompanhado de uma conta alta, que pouquíssimas pessoas conseguem pagar. Por isso, para Lidiane da Silva, mestre em semiótica e pesquisadora periférica, é preciso olhar para a longevidade a partir das desigualdades que atravessam a sociedade. “Não considerar fatores como renda, território, raça, gênero é ignorar que essas condições também determinam quem tem tempo e recursos para cuidar de si”, defende. Quando as oportunidades para viver mais e melhor se concentram nas mãos de uma parcela da população, a longevidade corre o risco de se tornar mais um marcador de privilégio.
Quanto custa uma vida mais longa?
O Brasil está, de fato, vivendo mais. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida chegou a 76,6 anos em 2024. Isso significa que estamos também ficando mais velhos enquanto sociedade. Em 2023, 15,6% da população brasileira tinha 60 anos ou mais, quase o dobro dos 8,7% registrados em 2000. E a transformação está apenas começando: de acordo com as projeções do IBGE, essa parcela deve chegar a 37,8% em 2070. Em outras palavras, daqui a pouco mais de quatro décadas, quase quatro em cada dez brasileiros terão 60 anos ou mais.
É uma conquista demográfica, resultado de avanços na medicina, na saúde pública, nas condições de vida e da queda da mortalidade, mas também um desafio econômico. Viver mais significa ter mais anos para trabalhar, consumir, viajar, cuidar de outras pessoas e experimentar a vida. Significa também, potencialmente, mais anos de gastos com moradia, alimentação, medicamentos, consultas, tratamentos e cuidados. E quem vai pagar por esses anos a mais? Quantos brasileiros hoje têm acesso às condições necessárias para viver bem aos 60, 70 ou 80?
Essas questões ganham outra dimensão quando colocadas ao lado do mercado bilionário que se constrói em torno da longevidade. Para Lidiane, existe uma distância importante entre o ideal de vida vendido pelo mercado e a realidade de quem ainda está “tentando sobreviver no presente”. Enquanto uma parcela da população pode discutir como otimizar a idade biológica, monitorar biomarcadores ou investir em terapias de recuperação, outra ainda enfrenta obstáculos muito mais elementares: acesso regular à saúde, alimentação adequada, moradia digna, saneamento e renda suficiente para chegar ao fim do mês.
O contraste aparece nos números. Em 2024, 28,1% dos domicílios brasileiros estavam em situação de insegurança alimentar, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE. Ou seja, quase três em cada dez lares tinham algum grau de dificuldade para garantir alimentação adequada. Em 6,1% dos domicílios, a situação era de insegurança alimentar grave, caracterizada pela ocorrência de fome entre os moradores. Quando a alimentação básica ainda é uma questão para milhões de famílias, falar em “nutrição para longevidade” assume outro significado.
O mesmo vale para a atividade física: enquanto o wellness vende academias, personal trainers, wearables e programas de performance como ferramentas para envelhecer melhor, a possibilidade de incorporar exercícios à rotina também depende de fatores socioeconômicos importantes. “Você precisa de tempo para cozinhar, você precisa de tempo para fazer atividade física. E tempo é um grande privilégio”, resume Lidiane.
A saúde segue a mesma lógica. Ter acesso a acompanhamento médico regular, exames preventivos e tratamentos não é apenas uma questão de escolha individual. No Brasil, a renda determina, em grande medida, quais opções estão disponíveis: de um lado, quem pode pagar por consultas particulares, planos de saúde e terapias preventivas; de outro, quem depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) e enfrenta as diferenças de acesso e oferta de serviços entre as regiões do país. Além disso, quando falamos sobre planos de saúde, a idade está diretamente incorporada à estrutura de preços. Na prática, isso cria uma situação especialmente delicada: justamente quando aumenta a probabilidade de utilização dos serviços de saúde, também pode aumentar a pressão financeira para mantê-los.
Existe ainda uma camada menos evidente nessa discussão: a de quem consegue, em certa medida, cuidar da saúde, mas não necessariamente, construir patrimônio. É uma parcela da classe média que tem acesso a boa parte das ferramentas que prometem otimizar a longevidade e, ainda assim, não tem dinheiro suficiente para formar uma reserva capaz de garantir moradia e segurança financeira na velhice.
O problema não está, necessariamente, em comprar um smartwatch ou tomar suplementos, mas na maneira como o mercado pode transformar a preparação para o futuro em uma sucessão de pequenos consumos, enquanto questões estruturais, como moradia e aposentadoria, ficam em segundo plano. E, para uma geração que enfrenta imóveis cada vez mais caros, aluguéis que consomem uma parcela significativa da renda e maior dificuldade de constituir reservas financeiras, envelhecer bem não depende apenas de chegar aos 70 com bons marcadores metabólicos. Depende também de ter onde morar, de conseguir pagar por cuidados quando a renda diminuir e de não transformar cada ano adicional de vida em mais um período de insegurança financeira.
Este, talvez, seja um dos grandes pontos cegos do discurso contemporâneo sobre longevidade: confundir capacidade de consumo com capacidade de se preparar para o futuro. Uma pessoa pode estar fazendo tudo o que a indústria recomenda para preservar a saúde e, ainda assim, estar economicamente despreparada para viver melhor por mais tempo. “Preparação financeira, para mim, é uma linha básica”, diz Candice.
A longevidade também bate o ponto
Se viver mais significa também financiar mais anos de vida, a própria aposentadoria passa a ser uma questão central. As regras da Previdência já refletem essa mudança demográfica: para quem ingressou no Regime Geral de Previdência Social após a reforma de 2019, a chamada aposentadoria programada prevê idade mínima de 62 anos para mulheres e 65 para homens, além do tempo mínimo de contribuição. Para quem já estava no sistema, existem diferentes regras de transição. Na prática, para uma parcela dos trabalhadores, a vida profissional tende a se estender por mais tempo – justamente em uma sociedade que ainda não parece completamente preparada para envelhecer sua força de trabalho.
O problema fica ainda mais evidente quando olhamos para quem continua trabalhando depois dos 60. Pelo IBGE, em 2024, um em cada quatro idosos estava trabalhando. O rendimento médio real do trabalho principal das pessoas com 60 anos ou mais era de 3.561 reais, superior aos 3.108 da população ocupada de 14 anos ou mais. Mas esse dado esconde desigualdades importantes: mulheres com 60 anos ou mais recebiam, em média, 2.718 reais, contra 4.071 entre os homens; entre pessoas brancas, o rendimento chegava a 4.687, enquanto entre pretos e pardos era de 2.403. Ao mesmo tempo em que a Previdência estabelece carreiras mais longas para parte da população, o mercado de trabalho ainda pode enxergar a idade como um obstáculo.
“Saúde mental, envelhecimento da população, isso é uma responsabilidade coletiva.”
Candice Pomi
Para Candice esse é um dos grandes paradoxos de uma vida que se alonga: enquanto as pessoas precisam permanecer economicamente ativas por mais tempo, o mercado ainda não se reorganizou completamente para absorver essa força de trabalho. Ela chega a descrever esse descompasso como “um grande apartheid”. É um problema que, segundo ela, também exige repensar o próprio desenho das carreiras. “Se a expectativa é viver mais, o modelo tradicional de estudar, trabalhar durante décadas e depois se aposentar de uma vez pode não dar conta”, opina. Essa transformação, porém, não pode ser colocada apenas sobre os ombros do indivíduo. “Empresas e estruturas de trabalho precisam se adaptar a uma população que envelhece”, defende.
É justamente neste ponto que a promessa da longevidade encontra seu limite. Não basta saber o que fazer para envelhecer melhor se não existem recursos para fazer isso. Saúde, alimentação e atividade física podem ser recomendações universais, mas as condições para colocá-las em prática estão longe de ser. Não adianta transformar saúde em uma lista de escolhas individuais quando as condições para fazer essas escolhas são distribuídas de maneira tão desigual. “A responsabilidade individual é você se manter atualizado, você se manter curioso, você se conectar com outras gerações. Mas saúde mental, envelhecimento da população, isso é uma responsabilidade coletiva”, conclui Candice.
O corpo envelhece. O tempo passa. E nenhum mercado consegue substituir completamente aquilo que determina a qualidade de uma vida longa: renda, saúde, trabalho digno, relações sociais e uma sociedade preparada para envelhecer junto com seus cidadãos.