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Beleza

Genderless: o (novo) nome da rosa na perfumaria

Verdadeira rainha das matérias-primas olfativas, a rosa retorna às suas origens democráticas e renasce protagonista em uma nova geração de fragrâncias compartilháveis e sem gênero.

Ilustração: Mariana Baptista

Rosas

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Concentre-se e tente resgatar em suas memórias olfativas algo que representa, para você, um perfume feminino. Deixa eu adivinhar: ele é doce e fresco. Suavemente talcado e temperado na medida certa com especiarias que atribuem a ele a porção ideal de sedução e mistério, singeleza e profundidade. Agora, respire fundo e busque em suas referências um perfume masculino. Ouso dizer que ele é amadeirado, úmido, quase que aventureiro. Com notas de almíscar e tabaco, ele é limpo, alinhado e poderoso.

Bom, tenha eu lido – ou cheirado? – a sua mente ou não, a verdade é que, apesar de muito bem estabelecidas e difundidas, essas referências olfativas atreladas a um gênero ou a outro não passam de convenções sociais sedimentadas por elementos extracorpóreos como história, localização geográfica, economia, cultura, comportamento, religião, tradição e, mais recentemente, até a publicidade.

Na etimologia, o perfume vem do latim per fumum, que significa algo como "através da fumaça", e faz referência aos incensos: tentativas primordiais humanas de produzir odores como meio de comunicação entre o terreno e o divino. Não ironicamente, assim como um vapor que se dissipa, as categorias de gênero – não apenas na perfumaria, mas também em tantos outros âmbitos – vêm se dissolvendo pelo ar.

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Mas seria esse movimento um indicador de que estamos caminhando para um futuro menos compartimentalizado na perfumaria ou apenas uma resposta cíclica, cultural e inevitável em forma de uma tendência passageira? A pergunta divide opiniões entre os especialistas que, em conversa com a ELLE, trazem seu vasto conhecimento para a mesa e discutem a questão.

Uma paixão antiga

Se engana quem assume que a divisão entre masculino e feminino na perfumaria sempre existiu. Assim como nos universos da moda e da maquiagem, as fronteiras de gênero foram, por muitas vezes, borradas, se não até irrelevantes. Junto aos homens egípcios que delineavam seus olhos e aos nobres franceses da corte de Luís XIV que vestiam saias, babados e saltos, no curso da história, as flores – e sobretudo as rosas – estiveram e ainda estão ativamente presentes em narrativas e contextos masculinos não-ocidentais.

"Na tradição indiana, por exemplo, homens usam guirlandas e perfumes de flores brancas, que no ocidente são reconhecidas como femininas", explica o especialista em perfume Dênis Pagani, autor do blog 1 Nariz. "Já no Oriente Médio, as fragrâncias masculinas levam toneladas e toneladas de rosas super impactantes e difusivas, para aguentar o clima desértico."

Na Antiguidade, a flor era favorita entre os homens e as mulheres. Fábio Navarro, que é perfumista e autor, conta em entrevista à ELLE que os banhos turcos, em sua grande maioria masculinos, eram feitos à base de rosas. "O império romano também era obcecado por elas", acrescenta Letícia Maci, especialista em perfumaria que reúne mais de 14 mil inscritos em seu canal no Youtube. "No século III, Roma já era conhecida como a capital do banho. Nas termas, que também eram um importante ponto de encontro da vida social – privilégio exclusivamente masculino à época – a água era aromatizada com rosas. Essa paixão fez com que o cultivo da flor avançasse de Roma até o Egito", diz.

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"No Renascimento, a água de rosas se tornou absolutamente popular, especialmente na Itália, onde sua principal entusiasta era Catarina de Médici", Letícia Maci

Do outro lado do Mediterrâneo, no Egito, "Cleópatra usava perfumes, se banhava com pétalas de rosas e óleos aromáticos para sedução", revela Renata Ashcar, autora do Guia de Perfumes. Conhecida na História Antiga por seu poder de influência e intelecto, a rainha era uma grande entusiasta da perfumaria. Seu aroma favorito? O de rosas, claro. "Alguns historiadores relatam que, quando Cleópatra foi à Roma, ela mandou lavar as velas de sua embarcação com óleo essencial de rosa, para que os romanos percebessem que ela estava chegando mesmo quando não podiam avistá-la", acrescenta Fábio.

Foi apenas no século X que o alquimista árabe Avicena extraiu o óleo de rosas através da destilação à vapor, gerando como subproduto a primeira água de rosas. "Esse conhecimento migrou da Ásia para a Europa através dos mercadores, onde encontrou terreno fértil para o desenvolvimento da perfumaria", conta Letícia. "No Renascimento, a água de rosas se tornou absolutamente popular, especialmente na Itália, onde sua principal entusiasta era Catarina de Médici." Em sua jornada de Florença até França, em 1533, para se casar com o rei Henrique II, a monarca trouxe consigo seu perfumista pessoal, René Blanc, que mais tarde fundaria a primeira boutique de perfumes em Paris.

A propaganda: um divisor de frascos

De onde surgem, então, as categorias de gênero na perfumaria? Os especialistas concordam que a divisão entre masculino e feminino é, sim, proveniente de construções sociais e que o protagonismo das rosas em fragrâncias femininas, sobretudo no ocidente, resulta de anos e anos de associações entre a flor e aspectos incisivamente ligados à feminilidade, como frescor, delicadeza e suavidade. "A rosa possui inúmeros simbolismos relacionados ao feminino na cultura ocidental," explica Letícia. "Na mitologia, é a flor da deusa do amor Afrodite. No cristianismo, é o símbolo da Virgem Maria, mãe de Jesus, exaltando o significado de pureza da flor."

Em contrapartida, as notas de flores nos perfumes masculinos tornaram-se bem mais discretas com o passar do tempo e, apesar de estarem presentes, o protagonismo era raramente dado às rosas: "O Fahrenheit de Dior, de 1988, um clássico, tem uma grande quantidade de violeta," Renata se lembra. "Há também as lavandas, que foram mais destinadas ao público masculino, como no English Lavender de Atkinsons, de 1910, e na Agua de Lavanda de Puig, de 1940."

Mas a divisão em prateleiras, identidades visuais diferentes, códigos olfativos muito específicos demora a ser estabelecida como conhecemos hoje, explica Dênis. "Podemos dizer que acontece na perfumaria americana, com o Brut, de Fabergé, e com a propaganda, sobretudo." No século XX, o marketing pós-guerra começa a delinear o que culturalmente entenderíamos como notas masculinas e femininas pautadas, é claro, em estereótipos normativos e sexistas. "A publicidade é um divisor de águas por que ela mexe com uma insegurança masculina heteronormativa", diz Dênis. "A frase do slogan de Fabergé, em termos gerais, era algo como 'Para homens que não têm dúvida', já que, no mercado estadunidense, as fragrâncias ainda eram vistas como produtos destinados apenas a homens gays e afeminados."

"A publicidade é um divisor de águas por que ela mexe com uma insegurança masculina heteronormativa", Dênis Pagani

Na intersecção da perfumaria com o universo da moda e a ascensão da categoria "designer", a divisão tornou-se mais palpável e claramente alinhada com as normas de gênero. "Foi uma super jogada mercadológica para o aumento de vendas", conta Fábio. "Quem criava um perfume que antes servia para todos, agora passa a produzir para dois consumidores." A partir daí, fomos educados a identificar essas notas distintas: "Um perfume masculino emblemático, por exemplo, é o Cool Water, de Davidoff", comenta Dênis. "Ele definiu e define até hoje o que é um 'cheiro de homem'. Não à toa, foi copiado à exaustão e o seu aroma, em versões menos nobres, foi parar em todas as fragrâncias de produtos masculinos: do gel Bozzano às espumas de barba das farmácias."

Não me venha com rótulos

Foi apenas com a explosão da androginia nos anos 1990 que o público voltou a se permitir olhar para além dos rótulos. "Em 1994, quando CK One, da Calvin Klein, foi lançado, havia apenas cerca de 10 lançamentos por ano de perfumes compartilhados", analisa Renata. "Ao mesmo tempo, os femininos eram mais de 70 e os masculinos quase 50 ao ano." Na sociedade e na história, as normas de gênero eram cada vez mais questionadas e desafiadas pelos movimentos identitários, o que resultou em uma percepção muito mais flexível de formas de expressão como a moda, a maquiagem e também a perfumaria. "É interessante porque, se sabemos que é a cultura que determina perfumes masculinos ou femininos, a gente pode resolver que ela não determina mais. A gente pode resolver ir na contramão", diz Dênis.

Desde que ganhou tração em meados de 2010, a chamada perfumaria de nicho tem reforçado ainda mais no mercado a noção de que fragrâncias, notas e matérias-primas não podem ser divididas por categorias de gênero. "Em 2014, os perfumes de nicho, que são normalmente compartilhados, representavam mais de 700 lançamentos ao ano, enquanto que os masculinos 450 e os femininos por volta de 1000", argumenta Renata. "Os lançamentos de perfumes compartilhados seguem crescendo e, atualmente, já ultrapassaram os números anuais de perfumes masculinos e femininos. Atualmente, a soma dos dois é inferior aos de nicho e compartilhados que ultrapassam 1500 lançamentos ao ano."

Entre eles, claro, estão os perfumes rosados. Das marcas que possuem linhas deluxe, a maioria delas apresenta pelo menos uma criação tendo a rosa como tema principal. "Destaco os exclusivos da Dior, que valorizam a nobreza da flor em várias criações", recomenda Letícia. Para além das grandes marcas, a perfumaria de nicho de Jo Malone, Le Labo, Byredo, Atelier Cologne e Francis Kurkdjian se destaca no mercado internacional – a última pertencendo, inclusive, ao grupo LVMH, um dos conglomerados de luxo mais importantes do mundo.

L'Homme À la rose, é um perfume vendido como masculino à base de rosas. Vídeo: Francis Kurkdjian


"No Brasil, O Boticário foi a primeira marca a lançar uma linha exclusiva de perfumes – a Alchemists – que possui um perfume sem classificação de gênero em que a rosa é o tema central", diz Leticia. Apesar de outras marcas brasileiras também trabalharem com fragrâncias sem gênero desde o seu início, como a Perfumaria Phebo e a L'Envie Parfums, o mercado nacional ainda parece depender da categorização dos perfumes, sobretudo em um momento em que a maioria das vendas acontece remotamente por conta da pandemia do coronavírus.

Apesar de importante, o caminhar em direção à uma perfumaria sem gênero – em que as rosas voltam a ser amadas e incluídas em narrativas masculinas, por exemplo – carrega notas de utopia, que o afastam da realidade da indústria. Entre os especialistas, enquanto alguns acreditam que, no futuro, não falaremos mais de gênero e, sim, de estilos e preferências olfativas, outros argumentam que, para a perfumaria de massa, a classificação por gênero ainda existirá por um bom tempo como uma forma de gerar desejo através do marketing e da publicidade.

Bem, nem tudo são rosas, mas esteja você de um lado ou de outro da prateleira, é sempre revigorante saber que, cada dia mais, a possibilidade de sermos quem somos – com nossas roupas, maquiagens, jeitos e cheiros –, para além de rótulos, é vívida, fresca e real, como o tremular das velas de Cleópatra no mar mediterrâneo, os banhos turcos ou o borrifar de um perfume rosado.

Rosas para todos

Confira a seguir uma seleção de perfumes de rosas recomendados pelos especialistas Renata Aschar, Letícia Maci, Fábio Navarro e Dênis Pagani:

Foto: Divulgação

Rose Prick, Tom Ford, US$ 350, Sephora





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