Beleza

Perfumaria de nicho: por trás do cheiro, conceito

Conversamos com o especialista em fragrâncias Dênis Pagani para dar um mergulho nesta área da perfumaria em que a criatividade olfativa não tem limites.

Colagem @viamagalhaes
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Em fevereiro deste ano, a icônica cantora e compositora estadunidense Erykah Badu causou certo choque no mundo pop ao anunciar a comercialização de um incenso que prometia ter o cheiro de sua própria vagina. Sobre o processo de criação do produto, ela revelou que cortou várias de suas calcinhas em pedaços pequenos e foi queimando-os aos poucos. "Até a cinza daquilo ficou cheiroso... As pessoas merecem poder sentir isso!", brincou em entrevista à 10 Magazine. "Existe uma lenda urbana de que a minha vagina transforma os homens. Ela muda a vida e o trabalho de quem se apaixona por mim", continua.

Apesar de parecer bastante inusitada, esse tipo de investida não é tão nova no mundo da perfumaria. Na verdade, existe toda uma tradição por parte de uma fração da perfumaria francesa de associar notas, digamos, viscerais à sensualidade. Quem explica essa conexão é o especialista em fragrâncias e consultor Dênis Pagani: "Falando do mercado de perfumes de modo geral, a moda – no sentido dos desejos de uma época – também colabora radicalmente nas notas que estarão ou não em voga em determinado período.

E, por vezes, a própria moda coloca em destaque cheiros que, depois de um tempo, ou em um contexto diferente, parecem estranhos". Nesse sentido, ele cita um clássico da Guerlain lançado em 1889 chamado Jicky, que tem uma nota fecal. Trata-se de uma nota extraída das glândulas genitais de uma espécie de gato selvagem da Etiópia (da época em que era comum usar ingredientes de origem animal na perfumaria) que tem, sim, cheiro de fezes. Contudo, em geral, ele é brutalmente diluído de modo a se aproximar de algo mais floral. "Às vezes, a gente esquece que a gente também é bicho", ri o autodidata que comanda um site inteiramente dedicado a fragrâncias.

O clássico Jicky foi lançado no mesmo ano da abertura da Torre Eiffel, em Paris, 1889.

Divulgaçãoo / Guerlain

"A gente trata o nosso corpo como se nós só o habitássemos. Nós somos o nosso corpo. E ele tem cheiro, tem secreção, tem sabor. Essa linha da perfumaria francesa vai explorar exatamente esse limiar entre o gozo e o nojo."

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Indo mais fundo no mercado de nicho que não está representado em grandes multimarcas multinacionais de beleza, podemos falar da État Libre d'Orange. Fundada pelo sul-africano radicado em Paris Etienne de Swardt, o lema da casa é "Le parfum est mort, vive le parfum!" (algo como, "o perfume está morto, viva o perfume"). Daí já dá para ter uma noção dos caminhos trilhados pelo perfumista nessa marca que funciona quase como um laboratório de provocações. O maior êxito da casa, segundo a própria marca, é o Secretions Magnifique, inspirado exatamente nos nossos fluidos corporais. Estamos falando de suor, sangue e até sêmen. "Eu gosto bastante da proposta", opina Dênis apesar de confessar ter sofrido ânsia de vômito ao experimentar a fragrância. "Pessoalmente, não usaria, mas acho extremamente refrescante que isso exista. Ainda mais em um mercado que anda cada vez mais pé no chão, 'mais do mesmo'". Entre outras apostas da casa estão os curiosos La Fin du Monde (traduzindo: "O fim do mundo"), You or Someone Like You ("Você, ou alguém como você") e I Am Trash - Le Fleur du Déchet ("Eu sou um lixo - a flor do desperdício").

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O Secretions Magnifiques mistura cheiros de secre\u00e7\u00f5es humanas: sangue, suor e s\u00eamem inclusos. O Secretions Magnifiques mistura cheiros de secreções humanas: sangue, suor e sêmen inclusos. Divulgação / État Libre


Muito antes da État sonhar em criar perfumes tão ousados como estes, a L'Artisan Parfumeur já estava abrindo caminho para experimentações neste mercado. Mais especificamente desde 1976, quando foi fundada. "É muito curioso que, na mesma época do lançamento da L'Artisan, a gente também estava vivendo o projeto global do Opium de Yves Saint Laurent. Um perfume que ia na direção oposta: representava esse intuito de engendrar cada vez mais a perfumaria no universo do marketing massificado", aponta Dênis. Ainda no resquício de uma levada hippie, a marca surgiu quando o perfumista Jean Laporte criou o Eau de Toilette Banana (isso mesmo, 100% com o cheiro da fruta tropical) para uma festa do lendário cabaré parisiense Folies Bergère. "Nesse resquício de esperança da década anterior, a marca focou em valores que hoje a gente conhece como uma ideia cosmética mais natural, algo como slow-beauty. A L'Artisan foca nas matérias-primas e deixa claro o que tem no frasco já no próprio nome do perfume. Não à toa, o primeiro grande sucesso deles é o Mûre et Musc (amora e almíscar)", explica. Aliás, a fragrância estreou também uma tendência de, progressivamente, aprofundar-se no uso da tal frutinha vermelha em perfumes.

Uma outra natureza

Até hoje, essa aproximação mais agressiva da perfumaria de nicho com a proposta do enfrentamento da nossa carnalidade ressoa. A État é um bom exemplo, mas, mais recentemente, em 2011, surgiu a italiana Blood Concept. Cada um dos perfumes da marca fundada pela dupla Giovanni Castelli e Antonio Zuddas são inspirados em um tipo sanguíneo. Eles são bem distintos entre si, mas há algo metálico, apimentado e intenso comum a todos eles: um certo cheiro de sangue. Na contramão dessa proposta estão marcas como a importantíssima nipo-francesa Comme des Garçons. "Eles foram pioneiros quando se deram a oportunidade de abrir-se para a beleza do contemporâneo, daquilo que foi criado pelas mãos da humanidade, no sentido extremamente urbano da coisa", elogia Dênis. A série Synthetic, por exemplo, tinha fragrâncias que remontavam cheiros como o de fita adesiva. "Acho que eles mudaram o frasco, mas na primeira versão, eles eram como latas transparentes de tinta spray. Por dentro, vinha um saquinho com o perfume. Às vezes tinha cheiro de lavanderia, de asfalto. Um universo totalmente diferente."

O perfume "de concreto" já é um clássico da marca que, recentemente, lançou o Copper, de cobre.Divulgação / Comme des Garçons

Na mesma linha da CDG, a norte-americana Charenton Macerations trabalha com temas menos ligados à natureza. Douglas Bender é o criador da empresa radicada no bairro do Brooklyn, em Nova York, que se dedica a usar todas as notas abandonadas pela perfumaria tradicional. Além disso, a ideia é sempre contar histórias complexas por meio de suas fragrâncias. O perfume Christopher Street, por exemplo, é inspirado na vida boêmia e no caráter vanguardista da rua de mesmo nome na Big Apple. A segunda investida da marca é o Asphalt Rainbow, que tenta replicar por meio de uma experiência olfativa a sensação de luz no fim do túnel quando nos deparamos com o grafite estampado nas paredes cinzas das grandes metrópoles.

Segundo Dênis, a novidade da vez no ramo é a Akro, do famoso perfumista Olivier Cresp – criador de hits como o Angel, de Thierry Mugler, Light Blue, de Dolce & Gabbana, Black XS, de Paco Rabanne... A lista é longa. "Ainda não conheci de perto as fragrâncias, mas acho a proposta bem promissora. Os perfumes da marca são todos inspirados em prazeres proibidos. Vícios, por assim dizer. A primeira tragada do cigarro depois da transa, o bourbon caindo no copo com gelo... Estou muito curioso para testar". A ideia veio da filha arquiteta e designer de Cresp, Anaïs. "Eu não quero agradar 99% da população. Pelo contrário, só 1% já está de bom tamanho", disse o fundador da casa em entrevista ao WWD.

Inspirada em vícios, a Akro de Olivier Cresp criou o "Smoke" com o cheiro da primeira tragada de cigarro.Divulgação / Akro

Com uma pegada mais divertida (e preços bem mais acessíveis) vale também dar uma olhada na Demeter Fragrance Library. Tudo começou com o duo estadunidense Christopher Brosius e Christopher Gable que se propôs a reproduzir em perfumes os cheiros da natureza menos valorizados: terra, grama e tomate foram os temas de seus primeiros frascos. Hoje, no entanto, a marca cobre uma gama extremamente variada e, por vezes, cômica de perfumes que vão de pizza a protetor solar passando por carro novo, cola e funeral. Acredita? "Eles têm uma abordagem muito diferente dos citados anteriormente. São mais baratos e têm esse toque divertido. Não são perfumes que duram muito na pele. Mas, vale pelo sorriso. A perfumaria não precisa ser tão séria. Dá para se divertir um pouco também", diz Dênis.

Toma lá dá cá

Mesmo em países com forte tradição de perfumaria, a versão de nicho do mercado ainda representa uma parcela muito pequena do setor, e raramente alguns desses produtos desembarcam no Brasil. Temos, sim, marcas brasileiras autorais e alternativas para quem procura opções menos hegemônicas. No entanto, apesar de combinarem ingredientes de maneira não convencional, é difícil vê-las investindo em notas mais conceituais. E, por trás, desse cenário, há uma série de questões envolvidas. Primeiramente, o clássico problema da distribuição. "No Brasil, não temos um equivalente a uma loja de departamentos que tenha um piso de perfumaria. Lá fora, em geral, o balcão referente a essas marcas de nicho está sempre acompanhada por um especialista que ajuda o cliente a imergir na experiência que a empresa em questão propõe. O que se vê por aqui são perfumarias nos shoppings que trabalham com as marcas dos grandes grupos. Do contrário, você precisa chegar sozinho com a sua própria loja. O que dificulta bastante o processo", explica Dênis. "Hoje, no shopping Iguatemi de São Paulo, nós temos a NEECHE, que trabalha com uma perfumaria bem diferenciada. Ainda é uma experiência, vamos ver se realmente vai vingar. Mas, essa questão da distribuição e experimentação ainda é bem complexa."

Ainda assim, vale destacar o trabalho incrível de brasileiras como Eau de Leonora, Male e AMYI. "Sem dúvida, elas não se propõem a serem tão iconoclastas como as marcas sobre as quais conversamos anteriormente, mas isso não é demérito nenhum. Pelo contrário, são marcas que têm feito um trabalho consistente e que, cada uma a sua maneira, oferecem experiências olfativas que fogem à regra". Aliás, que regra é essa? O que tem dominado o mercado nos últimos anos? "Dá para dizer que, pelo menos, 60% do mercado de perfumes ditos masculinos são aromáticos filhotes do Cool Water, um sucesso da Davidoff nos anos 1990. A família olfativa é mais antiga que esse hit, mas, depois dele, parece que todos os que vieram remontam essa estética. No caso dos femininos, um floral com baunilha, mais comestível, mais geleia de fruta. É o que está rolando no momento."

A marca brasileira Male possui águas de colônia para usar em abundância.Divulgação / Male

Diferentemente das grandes marcas, as empresas do mercado de nicho não precisam, necessariamente, tornarem-se hits. Quando o investimento é maior, naturalmente, a preocupação em acertar o que está sendo desejado comercialmente é mais incisiva. "Um perfume da Dior não pode ser um fracasso, entende? A empresa é pública, faz parte de um grande grupo. E, toda vez que você quer agradar muita gente, acaba apelando para o denominador comum. A Mugler, por exemplo, que é uma marca que, por muito tempo, teve uma característica mais criativa, agora está nas mãos da L'Oréal que é uma empresa bastante conservadora no que se refere à perfumaria. Então, precisamos ficar de olho nos próximos lançamentos para ver se eles vão continuar ou não com esse legado da etiqueta". Assim, a perfumaria de nicho chega para perfurar essa lógica e trazer respiros de criatividade na forma de ousadia, humor, teatro, narrativa e até asco. "Os clássicos têm o seu valor. Tem coisas que são excelentes. Você pode ser uma pessoa muito bem perfumado apostando nessas fórmulas, mas é muito legal ver que existe espaço para outras propostas."


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