Protetor solar sem avobenzona: você realmente precisa evitar o ingrediente?
Especialistas afirmam que não há evidências robustas de que o protetor solar sem avobenzona seja mais seguro e alertam para o risco da desinformação afastar consumidores da fotoproteção diária.
A busca por protetor solar sem avobenzona cresceu nos últimos anos, impulsionada por vídeos virais, discursos alarmistas e uma enxurrada de conteúdos que associam o ingrediente a riscos como câncer, alterações hormonais e danos ambientais. Em meio a tantas informações conflitantes, consumidores passaram a questionar se deveriam abandonar fórmulas tradicionais e migrar exclusivamente para filtros minerais, também chamados de físicos. Mas, afinal, existe evidência científica sólida de que a avobenzona faz mal? Segundo o médico dermatologista Guilherme Muzy, não.
“A resposta curta é que não tem uma evidência clínica de boa qualidade de que a avobenzona utilizada nas concentrações reguladas nos protetores solares faça mal à população geral”, afirma o especialista, que explica que a avobenzona é um filtro solar orgânico, popularmente chamado de filtro químico, usado principalmente para proteger a pele contra os raios UVA longos, responsáveis pelo fotoenvelhecimento, manchas e participação no desenvolvimento do câncer de pele. “Um bom protetor solar precisa absorver tanto UVA quanto UVB”, contextualiza Muzy. “E a avobenzona é super utilizada porque é um dos filtros mais clássicos que a gente conhece, principalmente porque já é usada há muito tempo”.

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Grande parte da controvérsia começou após estudos mostrarem que alguns filtros solares orgânicos podem ser absorvidos em pequenas quantidades pela pele e detectados na corrente sanguínea. “Esse foi o estudo que mais deu problema, mas a grande questão é confundir detectável com perigoso”, defende o dermatologista.
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Segundo ele, a pesquisa foi conduzida em condições muito diferentes da rotina real de uso: os participantes aplicavam protetor solar em 75% do corpo, várias vezes ao dia, durante semanas. O objetivo do estudo não era provar toxicidade, mas avaliar se seriam necessários mais dados regulatórios sobre segurança a longo prazo. “O próprio FDA [Food and Drug Administration, a agência federal do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, equivalente à Anvisa no Brasil] deixou claro que isso não era uma prova de dano”, explica Muzy. “Foi apenas um pedido de mais estudos”.
A partir daí, a discussão ganhou novos contornos. “As redes sociais juntaram avobenzona, hormônio, câncer, coral, químico, tóxico e colocaram tudo no mesmo liquidificador”, resume o médico. “Virou um smoothie de pânico e desinformação”.
O filtro químico é realmente pior?

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A popularização da ideia de que filtros físicos seriam mais seguros também ajudou a impulsionar a procura por protetor solar sem avobenzona. No entanto, segundo o especialista, a divisão entre “químico ruim” e “físico bom” simplifica demais um tema complexo.
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Assim como os filtros físicos, os minerais (normalmente formulados com óxido de zinco e dióxido de titânio) também funcionam absorvendo radiação ultravioleta, e não apenas refletindo a luz, como muitos conteúdos ainda afirmam. “Antigamente, achava-se que filtro físico refletia e filtro orgânico absorvia. Hoje, sabemos que essa simplificação não está muito embasada”, afirma Muzy.
Isso não significa, no entanto, que filtros minerais não tenham vantagens. Eles costumam causar menos irritação e são frequentemente indicados para pessoas com rosácea, pele extremamente sensível, alergias ou melasma. Também podem ser uma escolha para gestantes que preferem minimizar qualquer absorção sistêmica por precaução, mas classificá-los como universalmente superiores seria, nas palavras do dermatologista, um desserviço. “Não existe evidência robusta dizendo que filtros inorgânicos façam as pessoas terem menos câncer”, diz.
Outra narrativa que ganhou força nos últimos anos relaciona filtros solares químicos ao branqueamento de corais. O debate existe, mas especialistas alertam que a discussão ambiental é mais ampla e não pode ser reduzida a um único ingrediente. Além disso, diferentes países adotam regulamentações distintas. A avobenzona segue aprovada em mercados importantes, incluindo Brasil e União Europeia, desde que respeitados os limites estabelecidos pelas agências regulatórias. “No caso europeu, ela é permitida em até 5% da formulação”, explica Muzy. “Não existe essa história de que só o Brasil usa”.

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Para o dermatologista, a principal preocupação é que o medo em torno da avobenzona faça as pessoas simplesmente deixarem de usar proteção solar: “O padrão é sempre o mesmo: alguém pega uma lacuna científica, distorce a informação e espalha fake news. E aí o paciente troca um risco teórico não comprovado por um risco real”.
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O câncer de pele é o tipo mais comum no mundo, e a fotoproteção continua sendo uma das formas mais eficazes de prevenção. Segundo o médico, o consenso atual é simples: usar protetor solar de amplo espectro, com FPS 30 ou superior, e reaplicar corretamente ao longo do dia. “O protetor bom é aquele que o paciente consegue usar e reaplicar”, resume.
Vale procurar um protetor solar sem avobenzona?
A resposta depende mais da experiência individual da pele do que de um risco comprovado à saúde. Pessoas com alergia específica ao ingrediente podem, sim, optar por um protetor solar sem avobenzona. Fora isso, não há recomendação médica geral para evitar o ativo. “Se alguém não reage à avobenzona, não tem por que tirar isso da vida do paciente”, afirma Muzy.
Na prática, dermatologistas recomendam observar fatores como textura, conforto, proteção UVA e UVB, resistência à água e adaptação à rotina. Porque, no fim das contas, o melhor protetor solar continua sendo aquele que você realmente usa todos os dias. “A avobenzona é uma ferramenta para fazer protetores solares melhores. Ela não é o vilão tóxico que a internet tenta vender”, conclui o especialista.
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