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Fugir do binário. Era este o objetivo de Rapha da Cruz quando teve que escolher um novo nome para si mesma, como a maioria das pessoas trans. A ambiguidade do nome serve para confundir a cisgeneridade. "Sua compreensão sobre a minha identidade de gênero vai sempre dizer mais sobre você do que sobre mim", instiga em entrevista à ELLE Brasil. Radicada na metrópole paulistana, a maquiadora e educadora em beleza é sócia de Magô Tonhon. Juntas, elas formam a dupla LGBeauté, que presta consultoria para empresas sobre diversidade e inclusão. A clientela é invejável: gigantes da beleza como L'Oréal e Estée Lauder, museus renomados como o MASP (Museu de Arte de São Paulo) e o MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo), e nomes como o diretor criativo Giovanni Bianco, da GB65. E, nesse caminho, elas vão espalhando pelo mundo a potência de uma beleza verdadeiramente plural. No país que mais mata travestis e transexuais no mundo, a importância do trabalho da dupla ressoa. Segundo a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), o primeiro quadrimestre de 2020 apresentou um aumento de 48% nos assassinatos de pessoas trans no Brasil. Em 89% dos casos, as vítimas foram pessoas pretas.

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"É bizarro perceber que ter a coragem de viver a minha própria identidade é algo que me salva ao mesmo tempo em que me coloca em perigo", reflete. Antes de seguir carreira no território da maquiagem, Rapha trabalhou em lojas de marcas de luxo internacionais e lembra que a experiência foi tão traumática que, ao sair de lá, teve que se reconstruir. "Era insustentável. Se fosse relatar os inúmeros casos de abuso que sofri, essa entrevista não teria fim", diz, a respeito do racismo daqueles ambientes. De acordo com a professora do curso "Beleza é diversidade", da Escola Madre, ela só conseguiu aquele emprego na época porque não expressava seu gênero conforme sua identidade. Assim, machucada pelo que viveu, procurou aproximar-se de grupos e coletivos que pautassem ativismos que a contemplassem. Foi assim que encontrou, pela primeira vez, a atual sócia Magô Tonhon. "Amor e amizade à primeira vista!", recorda. "Ficávamos tardes e mais tardes juntas, maquiando uma a outra e falando sobre a nossa paixão por maquiagem. Estar entre as nossas, por vezes, parece ser a única maneira de não passar por transfobias. A gente se acolhia, se fortalecia, se aquilombava."


A partir daí, a ideia de união e de coletividade permeia tudo o que ela faz. Exemplo disso é o desfile-manifesto de Vicenta Perrotta, na Casa de Criadores, e o clipe da música "A partir de hoje", da cantora MEL (os dois projetos contam com beleza assinada por LGBeauté). À ELLE, Rapha fala sobre como chegou a hora de se impor. Racismo e transfobia velados não passarão. "Essa coragem eu absorvi muito da Magô. Acho que é isso: vai ter travesti em todos os espaços!". Leia nosso bate-papo abaixo.

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Para você, o que é beleza?

Infelizmente, acho que a beleza ainda está ligada a uma série de padrões que nos são impostos. E quanto mais me debruço sobre o assunto, mais me desencanto, deixo de ver saída. Nós sabemos muito bem qual é o referencial que norteia essa beleza hegemônica. Em outra conversa que tivemos aqui na ELLE, falamos sobre isso, inclusive. Mas, o belo é magro, está sempre polido pelo esmalte do dinheiro, frequenta dermatologista, se veste de modo a aparentar riqueza, denotar classe… No fim, é um padrão que só serve para marginalizar os corpos que fogem à norma. Os efeitos são devastadores, adoecedores e desumanizantes.

O que precisa acontecer para isso mudar?

Eu e Magô, em nossa atuação na indústria, buscamos questionar e trazer as problemáticas à tona. Assim, nos deparamos com muitas pessoas abertas a ouvir, mas sentimos que os comprometimentos parecem ter limites. E que esses limites quase sempre têm a forma dos corpos que ocupam. Muita coisa mudou e vem mudando! Sinto que muda a cada dia. Mas, quando olho para a indústria da beleza de hoje, percebo um paradoxo. Os discursos e as buscas estão se transformando na medida em que assumem versões mais honestas, mas que ainda não se descolam totalmente dos padrões. A gente vê por aí: "Maquiagem não tem que transformar, e sim realçar a beleza que já está lá", "Contorno não é carimbo, cada rosto é um rosto", mas as peles ainda sofrem retoques antes de serem publicadas e os rostos das campanhas ainda são os de ossatura marcada… Sinto que, muitas vezes, a crescente busca pela diversidade é motivada pelas razões erradas. As coisas são feitas "para a gente não ficar pra trás". Quase como um olhar de filantropia equivocada. Hoje, com a internet, sinto que o poder de inventar beleza, evidenciar belezas, está se democratizando aos poucos. Isso é crucial. É o que realmente ajuda a oxigenar o jogo.

Foto: Leo Faria


Como tem sido a experiência de lecionar o curso "Beleza é diversidade"?

Esse nome, "Beleza É Diversidade", foi inspirado por uma conversa entre a deputada estadual Erica Malunguinho e a modelo internacional Lea T, na Aparelha Luzia. Ele chegou já cheio de significado e reflexão. Beleza só deveria ser possível se pensada de forma diversa, ou é simplesmente padrão, norma. Mais que isso: por que quem é branco, cis e hétero acha que a diversidade está sempre no outro? O relacionamento com a Escola Madre foi se aprofundando e, no início deste ano, surgiu o convite de fazermos parte do time de educadoras e de desenvolvermos nosso curso a partir dessa ideia. Então, reformulamos o conteúdo e montamos a grade incluindo tudo que acreditamos ser necessário para que as pessoas pensem melhor suas atuações, profissionais ou não, nesse campo. A proposta é para que repousemos as ferramentas e exercitemos o pensamento que precede a execução. Acabamos de concluir a segunda edição e sinto que a experiência tem sido muito gratificante para todas as pessoas envolvidas. O processo todo é muito fluido e dinâmico, inclusive a troca entre nós e as pessoas educandas. Incentivamos a participação e gostamos muito de estudar casos e analisar situações reais que nos ajudam a entender melhor os processos. Recebemos feedbacks muito maravilhosos que nos fazem perceber o potencial transformador da nossa atuação. Já pudemos contar com presenças importantes como o maquiador veterano Daniel Hernandez, a própria Lea T, a também modelo Carol Ribeiro, o stylist Dudu Bertholini e até parte do time da Sallve, da Julia Pethit. Temos certeza de que esses profissionais serão multiplicadores dos conteúdos que compartilhamos se tornando agentes de mudança da indústria criativa.

É gratificante demais ter esse espaço para fomentar o questionamento da norma, para propagar as ideias e movimentos que buscam as mudanças nas quais acreditamos. Pensar a ética por trás da estética sempre foi muito importante para o nosso trabalho. Mais que isso, não faria sentido algum se não fosse dessa forma. A verdadeira surpresa veio quando entendemos que isso tudo fez sentido também para muitas outras pessoas. Percebemos que o lugar de onde falamos, enquanto pessoas trans, também tinha um peso importante nessa equação. Em se tratando das pessoas cisgêneras que consomem nossos conteúdos, não esperávamos que o poder de conexão fosse tão grande.

"Hoje, com a internet, sinto que o poder de inventar beleza, evidenciar belezas, está se democratizando aos poucos. Isso é crucial. É o que realmente ajuda a oxigenar o jogo", Rapha da Cruz

Ao lado da Magô, você assinou projetos que valorizam a potência das pessoas trans. Como têm sido essas experiências?

Nosso trabalho nasceu da união de pessoas trans, da força do aquilombar que se levanta contra esse pacto narcísico da branquitude – conceito cunhado por Cida Bento e que a gente complementa: o pacto narcísico também da cisgeneridade. Quando assinamos a beleza de "Brasil: Campeão Mundial de Travestis", o desfile-manifesto de Vicenta Perrotta na 46ª Casa de Criadores (fotos abaixo), isso só foi possível pois o convite para que, pela primeira vez, duas pessoas trans concebessem a beleza de um desfile em uma semana de moda, partiu de uma outra pessoa trans. E é ali, enquanto o trabalho acontece, que se reafirma a importância, a necessidade da nossa presença. É quando, por exemplo, a travesti maquiada se sente mil vezes mais segura com o fato de estar trabalhando conosco. Ou quando nos asseguramos de que as pessoas cisgêneras da equipe recebam orientações prévias quanto a questões de gênero, diminuindo assim a possibilidade antes iminente de um erro de pronome no set. É importante lembrar que essa conquista de ser "as primeiras" não é 100% motivo de celebração. É também denúncia. Afinal, até então, não houve outras e essa ausência diz tanta coisa… Cada vez mais, temos sido convidadas por pessoas trans para trabalharmos em conjunto e é um prazer estar, trabalhar e criar entre as nossas. Assinamos a beleza do clipe recém-lançado para a música "A partir de hoje" o primeiro trabalho solo da MEL e já estão prontos outros quatro trabalhos junto a importantes artistas trans da cena musical. Não posso contar ainda, mas saibam que vem muita coisa maravilhosa por aí, das quais a gente se orgulha demais!

Foto: Marcelo Soubhia/Agência Fotosite


Para fechar, o que te inspira?

O feminino sempre foi minha maior referência em todos os seus aspectos. Hoje, minhas maiores referências são as que me atravessam: as disruptivas, as não-hegemônicas. Busco e encontro referências em todas as existências que quebram os padrões por meio de suas imagens e discursos que fogem de tudo que carrega a norma, ainda que nas entrelinhas. Eu me fortaleço muito na arte advinda das travestis, no talento que transcende as adversidades. Ainda que seduzida pelo encanto da fantasia, eu tenho muito tesão no real. E grito por tudo que escancara a verdade, que taca fogo no padrão. Que se coloca como canta Linn da Quebrada em "Quem Soul Eu": "E aqui faço; Me movo, morro e renasço; Feito capim que se espalha; Um pensamento cupim ou vírus que contaminam suas ideias; Eu vou longe, alto, eu vou; Mas eu volto, longe, alto; Feito uma lenda, maldição, um feitiço ou uma canção."

Formada em arquitetura, a maquiadora, educadora em beleza e mestre em filosofia Magô Tonhon combina seus múltiplos saberes para injetar diversidade e inclusão no mercado em que atua.


Apesar de ter dado seus primeiros passos rumo à diversidade, o conceito de beleza ainda é dominado por padrões hegemônicos e opressivos. Como chegamos a eles e por que esses ideais de beleza continuam tendo papel importante na emancipação das pessoas? Na busca por essas respostas, você também vai encontrar muitos motivos para quebrar paradigmas.


Marcas de beleza capitaneadas por mulheres negras combatem o racismo estrutural e institucional no país e lutam para fazer seus produtos chegarem às consumidoras.

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