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A jornalista Ana Clara Garmendia, nome conhecido nas coberturas de moda internacionais, não ficou a ver navios durante o confinamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus. Isolada em seu pequeno apartamento em Paris, onde vive há mais de uma década, ela trocou os textos sobre coleções e tendências por uma prolífica produção de crônicas. Publicados inicialmente em suas redes sociais, os textos foram reunidos no livro O mar é logo ali, com ilustrações de Marcia Luz e o projeto gráfico de Simone Salomão. Com uma escrita despretensiosa, divertida e, por vezes, sarcástica, Ana Clara relembra casos reais e também imaginários, como a crônica que você lê a seguir.

Prostitutas de vison

Era dia de desfile de Jean Paul Gaultier. Horário e lugar sempre os mesmos: quartas-feiras, 14h30, rue Saint Martin. A região onde Gaultier ergueu seu QG é permeada por lojas de roupas chinesas, produtos naturais amazonenses e muitos cortiços onde as prostitutas ainda ficam na porta à espera de clientes. Janeiro de 2009 e eu ia pela primeira vez num desfile do enfant terrible! Como sempre me acontecia nesses dias, ficava ansiosa e andava meio etérea pelos lugares. Flanando, seria a palavra, mais ou menos a mesma sensação que eu sentia alguns anos atrás quando saía pela primeira vez com alguém, interessada em algo mais. Naquela época, eu ainda mantinha a ilusão do envolvimento e de uma relação estável, isso porque até então eu não entendia que nenhuma relação é estável.

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Durante algum tempo, idealizei muito o amor. Achava que ele era algo mágico, por isso ficava na expectativa de finalmente encontrar um de verdade. Inocência. Completamente. Hoje sei que ele existe, mas é dentro da gente e não no outro ou com o outro.

O amor é um sentimento solitário, móvel e transferível e a gente carrega a vida inteira, colado, dentro de algum lugar que expande nossos sentidos ao vermos determinadas pessoas. Por isso, quando passava pelas prostitutas, fantasiava sobre o amor e a existência daqueles luxuosos e cafonas casacos. Rolou alguma paixão? Dizem que putas não se apaixonam, vivem em guetos e o amor é algo atavicamente interdito a elas. Não sei, mas os casacos me intrigaram. Como se eu tivesse uma sensação de que o amor passou por eles. Teriam herdado? Ganharam de algum amante generoso? Ou simplesmente compraram em tempos de vacas mais gordas??? Divaguei aí.

Fico imaginando a cena; num bar esfumaçado, entra um chinês alto, cabelos penteados pra trás, terno Armani cor-de-chumbo. Ele tá com um grupo de amigos, todos engravatados iguais a ele, mas bem mais velhos. Um já sobe diretamente as escadas que ficam no fundo do imenso salão. Na frente dele, uma mulher morena, gorda, com uma risada alta fala algo que ninguém entende a uma novinha que tá do lado dela e as duas vão juntas, de braços dados na frente do homem que eu penso ser o chefe.

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É tudo velho no puteiro, piso, teto e um enorme balcão talhado em alto relevo rococó com partes em metal, onde dois bofes de seus 65 anos usando camisa branca e gravata borboleta servem as bebidas. Os demais sentam num sofá em veludo azul com duas cadeiras também forradas de veludo e uma tábua baixa no meio. A garrafa de whisky já estava lá. O moço alto e bonito carrega uma maleta e uma sacola plástica grande branca, o que destoa dos outros que só carregam maletas de couro pretas, algumas marrons e uma delas é em crocodilo envernizado, chama a atenção o fecho em ouro e diamantes. Nenhuma mulher vem à mesa. Eles ficam ali enchendo a cara por umas duas horas, até que um som toca mais alto na sala, e ela aparece com um vestido minúsculo roxo, decotado e uma taça de champanhe na mão.

O chinês jovem e bonitão é igual ao personagem do filme O Amante baseado no romance de Marguerite Duras. Ele olha para a prostituta. Ela está na frente dele, olhos fixos nos olhos dele. Parece que tá vendo alguma coisa, mas na verdade ela vê nada não. É só um cliente. Parece ser, ao menos. Rapidamente, ele faz um sinal com a cabeça, quase imperceptível, recarrega o copo com o whisky da mesa baixa, passa a mão na maleta e na sacola e vai em direção ao fundo do bar, onde o cara com cara de chefão subiu sem deixar rastro duas horas antes.

O lugar lá em cima é simples. Um corredor com carpete morrinhento e várias portas com trincos redondos dourados descascados. Os quartos têm uma cama com lençóis vermelhos, acho que em puteiro tudo tem cor forte. Não imagino um ambiente que não seja quente. Também nunca fui, aliás, fui sim. Tô me fazendo de boba. Uma vez, quando eu era bem jovem, fui com uma turma de amigos a um show de striptease num cabaré famoso de Porto Alegre. Mas era um cabaré que mesmo quem não era puta e nem cliente podia entrar. Eles ganhavam dinheiro com os shows. Lembro que também tinha um corredor horroroso com cascatas de água escorregando pelas paredes e que lá dentro tudo era preto. E outro puteiro que eu lembro foi em Curitiba. Esse a gente ia para beber e era cheio de espelhos por todos os lados. Enchíamos a cara de whisky e as putas também iam para quartos nos fundos que eu morria de curiosidade em saber como era. Nunca fui, óbvio. Minha cara de burguesa sempre me afastou das paradas mais pesadas, quer dizer, nem sempre, mas isso não é para falar agora.

No quarto onde o homem entrou com a prostituta tem um abajur cheio de cristais que eu imagino ser um Baccarat. Ah e tem uma cadeira com uma echarpe de boá. E é ali que a cena esquenta e acontece. Foi assim desde o começo. Eles não conversam. É voyeurismo o lance dele. Se tivesse tempo, poderia passar horas só olhando para ela, mas parece que quando o chefe termina, rola um sinal no celular e todos vão embora no mesmo comboio de carros Mercedes pretos com placas belgas. É tudo muitoooooo misterioso. Não tem quem se atreva a investigar (e nem porquê, é um puteiro e eles deixam bastante dinheiro lá, entre as transas e os litros e litros de whisky consumidos semanalmente). Pois pode acabar preso, morto, enterrado vivo entre paredes de apartamentos que a máfia tem esparramados por toda Paris. Sei do caso de um homem que desapareceu assim. A fortuna ficou para os filhos, mas ninguém podia tocar em nada, pois não tinha corpo. Mas esse também é outro assunto. A do chinês desaparecido por mais de 20 anos. Ele era dono de um cafofo que eu aluguei durante anos num bairro de rico por aqui. Uma viagem.

A cena e o casaco

Depois que eles entram no quarto, o drink do cara vai para cima da pequena mesa de canto, num movimento quase paralelo e ritmado ao apagar e esmagar do cigarro dela no cinzeiro roxo. Ali, quase sem luz, ela se despe. Primeiro a cinta-liga. A mulher tem imensas estrias nas ancas magras. As pernas são longas, mas não tão finas como as francesas são conhecidas por ter. Nada disso tem alguma importância ao olhar dele. O que o provoca e desperta de uma sensação de torpor, em relação a tudo que vive na vida, é a maneira especial, meio dançada, mas sem dançar, que ela tem para despir-se, sobretudo do espartilho vermelho, uma peça que usa todos os dias e cheira a talco, mel. Um perfume animal. Ela é sexo. Ele chega a amá-la naquele milímetro de momento compartilhado por ela ser apenas isso: uma puta entregue ao prazer do olhar dele. Ela não tem outra coisa em mente. Nem o dinheiro que será depositado em cima da mesa importa conscientemente. Ele capta essa entrega automática ao prazer. Ela ama o que faz. Ser puta. Seu show de estimulação ao prazer dos homens, mas muito mais dela. Ela é aquilo. Sua vida é aquele espetáculo. Não existe nada fora dali. Durante anos treparam assim. Até o dia, em que, ao ir embora, depois da imensa e habitual gozada, único momento onde ele deixava sair de sua boca calada um ligeiro gemido, ele levanta, se veste, coloca a mão no bolso, tira um maço de dinheiro e sem contar quanto tinha ali, deixa tudo em cima da mesa, depois abre a sacola branca, e pendura um imenso casaco de vison na única cadeira do quarto, bate a porta silenciosamente e fim.

Ele nunca mais voltou lá.

O livro O mar é logo ali pode ser encomendado pelo perfil de Ana Clara Garmendia, no Instagram, ou pelo garmendiaeditora.com.

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