Cultura

Bienal do Mercosul é o arquivo online de mostra que não ocorreu

Com foco no feminino, a 12ª edição do evento, adaptada para plataforma digital, levanta o debate sobre como olhar para produções que não foram pensadas para esse meio e qual a relevância da programação artística online durante a quarentena.

Imagem Cortesia da artista Janaína Barros
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A 12ª Bienal do Mercosul deveria ter sido inaugurada em abril, em Porto Alegre. Ocorreria simultaneamente em três lugares diferentes: no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, no Memorial do Rio Grande do Sul e no Santander Cultural. Em vez disso, no dia 16 daquele mês, teve sua abertura anunciada numa transmissão em vídeo por Gilberto Schwartsmann, presidente da fundação que organiza o evento. Nesse contexto, surge uma dúvida existencial: pode-se afirmar que a mostra está de fato acontecendo pelo site e nas redes sociais, como insiste a instituição? Quais os limites que a ausência do espaço físico traz na definição do que é a bienal e no que é possível realizar sem as exposições em si, especialmente no caso de uma bienal que tanto dialoga com o contexto local?


Escrever sobre uma exposição que migrou para o ambiente digital por causa das restrições trazidas pela pandemia passou a envolver não só um exercício imaginativo como também o de pensar novas formas de olhar para esses eventos e suas programações online. Basta navegar alguns minutos pela plataforma virtual da bienal para concluir que este mais parece um projeto emergencial, como a própria curadora Andrea Giunta afirmou em uma entrevista recente. Não há nada ali que indique algo além de uma documentação bem simplificada sobre as artistas e de obras que já existem ou seriam produzidas. A programação das redes tampouco foge ao modelo de lives e vídeos com depoimentos, sem trabalhos desenvolvidos para serem vistos especificamente nesses formatos. A sensação, ao navegar por esse material ali reunido, é a de que olhamos para o arquivo de uma exposição do passado. Com a diferença que esta não chegou a acontecer – e a documentação sobre ela é produzida e acessada em um presente imediato e contínuo, trazendo novos dilemas nesse processo.

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Obra "Sobre as afecções", de Eneida Sanches.Imagem Cortesia da artista

O debate sobre o excesso de documentação na arte pós-internet não é novo, mas parece ter atingido seu auge durante a pandemia. Para o filósofo Boris Groys, a diferença entre a arte tradicional e a contemporânea é que primeira esteve preocupada em produzir objetos artísticos, enquanto a segunda volta-se mais para a produção de informação sobre eventos de arte. Embora, muitas vezes, alguns trabalhos aconteçam nesse lugar não objetual que envolve processos e encontros – algo que a internet e as redes sociais favorecem – é importante saber separar arte e informação em um meio onde as duas coisas se misturam a todo tempo.

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O tema desta Bienal do Mercosul – Feminino (s). Visualidades, Ações e Afetos – nada tem a ver com a discussão sobre arte e arquivo, mas a maneira como a mostra está sendo apresentada torna necessário trazer o assunto para o primeiro plano. Um dado curioso: eu estava acompanhando com boa expectativa as notícias sobre esta edição, especialmente pela escolha da curadora argentina Andrea Giunta, que também assinou, junto com Cecilia Fajardo-Hill, a exposição Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985 (realizada pelo Hammer Museum em 2017 e que passou pela Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 2018). Apesar disso, quase nada sobre a bienal havia aparecido nos meus feeds de notícia até agora. Na overdose de lives a qual passamos a ser bombardeados desde o início da quarentena, como escrevi recentemente, a seleção algorítmica do que nos interessa parece falhar muitas vezes.

Zona de intercâmbios e exercícios imaginativos

Dito isso, passamos a olhar para esta edição da bienal em si – ou para o que se imagina de como seria a mostra a partir de um arquivo ainda em construção. O texto da proposta curatorial não revela muito além de uma intenção de incluir diferentes manifestações do feminino enquanto lugar social. Na seleção com mais de 60 artistas, quase todas mulheres, há uma mistura de pioneiras como Judy Chicago – principal representante na segunda onda do feminismo americano – e o coletivo Guerrilla Girls com um bom número de artistas jovens e de diversas partes do mundo.

Guerilla Girls, em foto de 2015.Foto Andrew Hinderaker

Nota-se também um interesse em reforçar a presença de nomes afro-brasileiros e afro-caribenhos de diferentes gerações, colocando-as em diálogo. Entre as brasileiras, artistas mais consagradas como Rosana Paulino se aproximam de outras como Janaína Barros – que também trabalha com costura e bordado, assim como Paulino, – e Eneide Sanches, primeira mulher no Brasil a desenhar e produzir ferramentas de santo, com uma produção entre o desenho e a gravura. A americana Joiri Minaya, criada na República Dominicana, está no grupo das afro-caribenha de uma nova geração que vale a pena acompanhar melhor. Ela apresentaria a instalação #dominicanwomengooglesearch (2016), com recorte de imagens de partes do corpo e de estampas tropicas que encontrou na busca pela palavra "mulher dominicana", discutindo estereótipos de gênero de um ponto de vista colonial.

O exercício imaginativo de especular o que seria a exposição também apareceu na ótima conversa entre a curadora adjunta Fabiana Lopes com as artistas Ana Lira e Juliana dos Santos, realizada no dia 4 de junho como parte da programação das lives reunidas no canal do YouTube da bienal. Ambas as artistas – a primeira de Pernambuco e a segunda de São Paulo – iriam apresentar trabalhos que dialogam com territórios negros de Porto Alegre e temas como a diáspora afro-ameríndia, um dos pontos mais fortes desta edição. Ao pedir para cada uma descrever as propostas, Fabiana parecia ressaltar a diferença entre um evento em um formato documental e informativo e uma exposição não concretizada.

Uma parte desses trabalhos de fato está acontecendo online: um programa de rádio do projeto Chama, definido por Ana Lira como uma "vivência de poéticas da diáspora," aproximando experiências artísticas distintas, como a música e a literatura, e de diversas regiões. Idealizada com conjunto com a DJ carioca Marta Supernova, a poeta sudanesa Ola Elhassan e a DJ gaúcha Suelen Mesmo, a proposta incluía também uma instalação sonora e uma celebração musical coletiva no dia da abertura. Juliana dos Santos também desenvolveria uma instalação imersiva em um formato audio specific, utilizando depoimentos coletados em Porto Alegre que tratam da construção de uma subjetividade enquanto artista negra a partir de uma reflexão espiritual sobre a cor azul.

Cena do vídeo "Atmosphere", de Judy Chicago.


A dificuldade de falar sobre trabalhos tão calcados em experiências que envolvem o encontro e conhecimentos do corpo, noções tão importantes em práticas artísticas negras, parece compensada ao final da conversa por outro debate trazido por Ana Lira sobre a urgência de pensar novas maneiras de sistematizar e narrar essas produções. "Meu sonho é construir um lugar em que Lia de Itamaracá [cirandeira pernambucana] possa ser convidada para uma bienal em que ela possa tocar chamando o que ela faz de ciranda, que não precise adaptar esse vocabulário dela para outra coisa porque não vai fazer sentido," afirma.

Não parece ter sido por acaso a escolha dessa conversa para acontecer na primeira semana de junho, quando os protestos do Black Lives Matter pela morte de George Floyd alcançam maior dimensão no mundo, ecoando também no Brasil. O assunto não entrou no debate, mas certamente está presente na construção deste arquivo. Para uma bienal em que o arquivo passou a ser autônomo, anterior e independente de uma representação física, é curioso pensar como a história dessa exposição será contada no futuro. Se a ideia inicial era repensar práticas do feminino(s), o tema acabou se tornando também uma revisão sobre como narramos e arquivamos o tempo presente – e qual o papel da arte em meio a tudo isso.


Impossível prever como a pandemia e o isolamento forçado vão influenciar a produção artística nos próximos anos. Mas vale olhar para trás e ver como episódios dramáticos inspiraram obras e movimentos em diversos períodos.



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