Cultura

Comemore (ou conforme-se): as lives prometem ter vida longa

Com opções que vão de música e literatura a moda e política, o formato de transmissão ao vivo mostra que tem potencial para seguir popular mesmo após o período de isolamento social.

Ilustração Victor Aguiar Magalhães
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Faça o teste: acesse o Instagram no início da noite e conte quantas lives estão acontecendo acima de sua timeline. De leitura de tarô a conversas com especialistas, de discotecagens a aulas de yoga, as opções são as mais diversas. "É como uma televisão a cabo, você tem milhões de canais e escolhe aquilo que quer assistir", compara o consultor André Carvalhal.

Passados três meses desde o início do distanciamento social no país, a oferta de lives segue farta. Há quem resista e desdenhe, mas a pandemia forjou em nós a cultura de assistirmos a transmissões ao vivo pela tela do celular ou do computador, neste período em que umas das poucas certezas que temos é de que devemos seguir em casa.


De acordo com dados do Instagram, o aumento de visualizações de conteúdo ao vivo nessa rede, entre usuários de todo mundo, foi de 70% nos últimos três meses. No YouTube, nunca houve tanta busca por live desde o início da ferramenta, em 2008. O crescimento de abril em relação a março foi de 900%. Mesmo no TikTok, onde o recurso de entrada ao vivo era pouco explorado pelos usuários, as lives têm se popularizado, e a plataforma já começou a fazer parcerias com cantores e influenciadores para transmissões ao vivo.

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"Quando a vacina chegar, as pessoas ainda vão passar um tempo ressabiadas para ir em shows, para encontrar pessoas. A casa será ainda um terreno muito frequentado", opina o produtor de shows Lucio Ribeiro. Com shows em pausa até segunda ordem, o início do período de isolamento no Brasil foi marcado por lives superproduzidas de artistas populares, apoiadas por grandes marcas, que bateram recordes de audiência. Houve ainda outra corrente que fez questão de reforçar o clima de informalidade, como Ivete Sangalo de pijama e Marília Mendonça de chinelo Havaianas (que foi uma das patrocinadoras da ação). Marília, por sinal, é a campeã de audiência da modalidade: a apresentação transmitida pelo YouTube em 8 de abril teve picos de 3,31 milhões de espectadores.


No cenário da música independente, as lives se mostraram também uma oportunidade interessante de ver os artistas em toda a sua espontaneidade. "Vi a Patti Smith participar de uma ação com umas meninas francesas. Ela estava muita confusa, as meninas também, mas estavam lá, abrindo o coração. Essa humanização do artista é muito legal", diz Lucio, que durante a pandemia vem conversando, ao vivo, com nomes da cena independente. O produtor também destaca a transmissão de um dos integrantes da banda de rock inglesa Glass Animals. "Ele gravou com o celular na vertical porque ninguém falou para ele virar o aparelho. Para ele, também era um mundo de descobertas. Ele expôs sua intimidade, você acaba entrando na casa do artista. Não tinha o cara da gravadora para policiar, não tinha o assessor para falar 'fecha essa porta, senão vai mostrar o banheiro', 'seu cabelo está despenteado'. Era puramente ele, o artista."

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Com a flexibilização do isolamento social, uma possível evolução do formato que vem sendo cogitada seria a realização de shows para uma pequena plateia sentada, gravados com boa qualidade para a exibição em uma plataforma para um público muito maior. "É uma discussão que existe, mas ninguém amarrou como um plano a ser feito", diz o Lucio.


Nas lives de MPB, poucas chamaram a atenção como as de Teresa Cristina, que já fez cerca de 60 delas e ganhou mais de 200 mil seguidores na pandemia. A sambista começou a fazer as transmissões como uma forma de manter a cabeça ocupada na quarentena, em meio a tantas incertezas e notícias difíceis. Elas começaram espaçadas, tornaram-se diárias, podendo se estender por mais de três horas pela madrugada, com público de quase 30 mil pessoas. Teresa faz lives temáticas (trilhas de novelas, pagodes aleatórios, vidas negras importam, entre elas), canta, se diverte ("Essa música é gatilho, preciso beber uma cerveja", disse), recebe os maiores nomes da MPB (em uma única live, conseguiu reunir Chico Buarque, Caetano Veloso e Paulinho da Viola) e se emociona. Anitta foi uma das que apareceu para elogiar.


A funkeira, aliás, vem protagonizando uma das séries de lives mais comentadas das últimas semanas, ao lado da advogada e comentarista da CNN Gabriela Prioli. "Toda vez que eu tenho uma dúvida de política é com ela que converso", disse Anitta, na primeira transmissão com Gabriela, no início de maio. E, entre cobranças por se posicionar politicamente e lições particulares com a amiga, decidiu dividir suas aulas com o público. Mais de dez milhões de pessoas já assistiram às explicações de Gabriela sobre os três poderes, o fascismo, a direita e a esquerda no Instagram. Entre críticas por desconhecer fundamentos da política brasileira e elogios por usar sua influência e chamar a atenção para um tema essencial para seus 47 milhões de seguidores, ela avança para sua quinta aula.

Lives literárias

E o festival de lives não para por aí. Elas também chegaram ao mercado editorial. "Ultimamente, antes da pandemia, já estavam acontecendo algumas transmissões ao vivo de eventos", diz Emilio Fraia, editor da Companhia das Letras. Mas, com a pandemia, conversas com autores para promover lançamento de livros migraram para as lives, o que possibilitou que um outro público pudesse acompanhar esses eventos, já que a maioria deles acontece em São Paulo e no Rio de Janeiro. "São ferramentas que estavam disponíveis, mas que agora estão sendo potencializadas no mercado editorial."

Desde o início da pandemia, a Companhia das Letras realizou duas edições do um evento virtual Na Janela. A primeira, em abril, foi voltada à literatura brasileira, e a segunda, em maio, à não-ficção, com participações de Daniel Galera e Lilia Schwarcz – a conversa entre Ailton Krenak e Sidarta Ribeiro teve mais de 80 mil visualizações no YouTube. "As lives têm incentivado as vendas de livros, têm trazidos bons resultados. É uma nova estratégia para que o livro desperte interesse", diz Emilio. "Criou-se uma dinâmica nova. Alguns desses eventos conseguem alcançar mais pessoas do que os tradicionais. Após o isolamento, acho que lançamentos virtuais de livros com bate-papos no Instagram vão coexistir com os eventos em livrarias." Emilio destaca também a programação de lives de livrarias com escritores e editores, como Mandarina (São Paulo) e Baleia (Porto Alegre), com nomes como Milton Hatoum e Heloisa Buarque de Hollanda.


A filósofa Djamila Ribeiro também participou das lives da Companhia das Letras e tem comandado uma série de conversas ao vivo com os autores da coleção Femininos Plurais, organizada por ela, e com outros convidados. Temas como lugar de fala, racismo e violência doméstica têm conectado milhares de pessoas nesses encontros. Para Djamila, que no ano passado participou de mais de 150 eventos por todo o Brasil, as lives são uma maneira de atingir regiões que não costumam contar com essa programação. "É uma oportunidade dessas pessoas terem acesso a esse tipo de debate", diz Djamila, colunista da ELLE

Até o teatro aderiu às transmissões virtuais. Matheus Nachtergaele, Grace Passô, Gero Camilo, Cassio Scapin e Bete Coelho são alguns dos atores que adaptaram espetáculos para o perfil Sesc ao Vivo, canal de lives criado em abril pela rede, que inclui apresentações musicais.

Enquanto não faltam opções e público, as ferramentas tecnológicas vão se aprimorando. No Brasil, além do Instagram, YouTube e TikTok, há lives sendo transmitidas pela Twicht.TV, plataforma popular nos Estados Unidos para a transmissão de games e esportes, com muito mais funcionalidades. Nela, o DJ Marky, por exemplo, alterna câmeras nas transmissões de suas discotecagens e dá foco à sua mesa de som.

Para André Carvalhal, que promoveu ciclos de conversas sobre temas diversos, que foram de moda a veganismo, a quantidade de lives não é uma questão. "Acho que talvez não seja o excesso que incomoda e satura, mas a falta de profundidade, de relevância de inovação", analisa. Como qualquer televisão a cabo, há canais e canais, basta escolher.


Será que a pandemia diminuiu o encantamento pela vida das influenciadoras tradicionais? Nos últimos meses, abriram-se as alas para especialistas que criam e compartilham conteúdos confiáveis — e que hoje parecem representar melhor o significado da palavra influenciador.



Em sua coluna de estreia, Erika Palomino reflete sobre infomania, relações e consumo intermediados por telas.

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