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Na primeira vez que participou da Flip, Djaimilia Pereira de Almeida teve momentos de enorme interação com os leitores, durante os dias que circulou por Paraty (RJ). O ano era 2017, Lima Barreto era o autor homenageado e a curadoria, pela primeira vez, se preocupava com a paridade de gênero (foram convidados o mesmo número de homens e mulheres) e a diversidade – 30% dos autores do line up eram negros. Entre eles, estava Djaimilia, que apresentava ao Brasil Esse cabelo, seu premiado livro de estreia, uma tragicomédia, misto de ensaio, ficção e biografia. Este ano, com o mundo chacoalhado pela pandemia da Covid-19, a escritora luso-angolana está novamente na programação da Flip, que acontece em circunstâncias totalmente diferentes. A participação dela nesta quinta-feira (02.12, às 18h) será online e A visão das plantas (Todavia), a obra que traz para o debate, é densa e coleciona críticas positivas que destacam a beleza da escrita numa história tão cruel. “A visão das plantas sublinha a noção desconcertante de que as plantas não habitam a nossa esfera moral: podem testemunhar as nossas atrocidades, inclusive as que cometemos contra elas, e não se queixam, não nos denunciam, não reclamam. São testemunhas mudas e cegas, o que as torna vítimas particularmente vulneráveis. E, no entanto, podemos manter com elas uma conversa quase espiritual e respondermo-nos, entendermo-nos”, explica à ELLE a escritora, numa conversa por email.

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A Flip 2021 está bastante diferente das anteriores. No lugar de apenas um curador, este ano há uma “floresta curatorial”, formada por um coletivo de profissionais – o antropólogo Hermano Vianna, que coordena os trabalhos; Anna Dantes, uma das fundadoras do Selvagem – Ciclo de estudos sobre a vida; o escritor e filósofo Evando Nascimento; o antropólogo João Paulo Lima Barreto, fundador do Centro de Medicina Indígena em Manaus; e o professor Pedro Meira Monteiro, da Princeton University e um dos fundadores da oficina Poéticas Amazônicas. Em vez de um homenageado, a edição que começou em 27 de novembro e vai até 5 de dezembro, celebra e reverencia um conjunto de pensadores indígenas vítimas da Covid-19. Todos os convidados são autores que, de alguma maneira, se relacionam com a proposta dos curadores de provocar reflexões e chamar atenção para a valorização das diferentes formas de estar no mundo. “Seria impossível, e imprudente, minimizar a imensa tragédia vivida, desejando neste momento apenas uma volta ao 'normal' – que foi uma das causas do problema. É preciso urgentemente imaginar outras formas de vida, sem a centralidade no 'humano', preparando o terreno para evitar o agravamento da crise climática na qual o planeta já vive”, diz o manifesto da Festa.

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É nessa perspectiva que o livro de Djaimilia dialoga com a proposta desta 19ª Festa Literária Internacional de Paraty. Ela está na mesa Botânicas migrantes, ao lado da escritora turco-britânica Elif Shafak, com transmissão online. No centro da conversa, conflitos e traumas que o colonialismo acarreta. O personagem central do livro de Djaimilia é o Capitão Celestino, pirata e traficante de africanos escravizados, que cometeu atrocidades ao longo da vida. Aposentado, volta à casa da família, abandonada e tomada pelas plantas. Ali, sozinho, ele se dedica a cuidar do jardim, com todo esmero, dedicação e delicadeza. Na casa vazia, vez por outra aparecem outros personagens, reais ou não – na velhice, ele delira. E não há qualquer sinal de remorso ou arrependimento nesse homem que foi temido, mau. “O capitão Celestino é um exemplo acabado daquilo de que fala. Um homem rodeado de delicadezas, que acaba os seus dias sem “uma única dúvida na consciência tranquila”, apesar de todas as atrocidades que cometeu”, explica, respondendo a uma longa pergunta que relaciona o personagem ao atual momento que vivemos, especialmente no Brasil, tomado por homens (maus) indiferentes à dor dos outros. “Se em algum aspecto o livro fala sobre o tempo que vivemos, no Brasil e não só, o que ele sublinha é a possibilidade perturbadora de existirem pessoas a quem o sofrimento humano é indiferente em absoluto. A visão das plantas não é um livro otimista: ao iluminar essa indiferença, põe aliás em xeque a própria ideia de que existe justiça." O livro foi um dos vencedores do Prêmio Oceanos de 2020.

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Doutora em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa, e considerada uma das principais representantes da novíssima literatura em língua portuguesa, Djaimilia já contou em entrevistas que seu livro de estreia foi escrito num ambiente rodeado do falatório das tias. Em Esse cabelo, que a projetou na cena literária da língua portuguesa e rendeu o Prêmio Novos – Literatura 2016, em Portugal, ela interliga questões de raça, feminismo e identidade ao tratar, de forma bem-humorada, da relação de uma menina com seus cabelos crespos – história comum entre mulheres negras, incluindo, claro, a própria Djaimilia.

Filha de mãe angolana e pai português, ela nasceu em Angola e foi criada em Portugal, onde vive. Quando escreveu o também premiado Luanda, Lisboa, paraíso, primeiro lugar no Prêmio Oceanos 2019, o cantor e compositor Cartola estava tão presente na trilha sonora que um dos personagens centrais da obra recebeu o mesmo nome do ilustre carioca, um dos fundadores da escola de samba Mangueira. O clima era outro quando criou A visão da plantas. “Escrevi entre 2018 e 2019, numa atmosfera de enorme reclusão. Vivia rodeada de um grande jardim com plátanos. A música desse livro é o barulho do vento nos ramos dos plátanos durante a noite, que quase me enlouqueceu.”

Foto: Divulgação/Humberto Brito


Pouco depois do período de reclusão voluntária para escrever o livro, em 2020 o mundo se fechava e o confinamento tornou-se obrigatório, parte do esforço universal para conter o coronavírus. Perguntei como ela viveu o período da pandemia, do ponto de vista produtivo e criativo. “Em Portugal, tivemos dois confinamentos longos: o primeiro foi mais fácil para mim e, apesar de toda a ansiedade e tensão, foi mais pacífico. No segundo, foi mais complicado, devido à morte de um familiar.” Djaimilia perdeu o pai. Reflexões do período de confinamento estão registradas em Regras de isolamento (Fundação Francisco Manual dos Santos), com textos dela e fotos do marido, o fotógrafo e professor Humberto Brito. Em Portugal, lançou outras obras em 2020 e 2021, e seus livros vêm sendo traduzidos e lançados em outras línguas estrangeiras. Em boa parte das suas criações, a ancestralidade é uma inspiração. “O lugar da ancestralidade é central desde o meu primeiro livro, Esse cabelo. A minha grande biblioteca são os meus antepassados: as suas vidas, as suas histórias, as suas dores.”

No Brasil, além dos livros, Djaimilia está presente em jornais e revistas, com os quais costuma colaborar com regularidade. Em 2013, ainda assinando como Ana Almeida, venceu o 2º Prêmio de Ensaísmo da revista serrote, com o ensaio “Saudades de casa”. Quis saber o motivo da mudança do nome. “Tenho um nome longuíssimo! O primeiro texto que assinei como Djaimilia Pereira de Almeida foi publicado em 2014, numa revista portuguesa. Djaimilia é o nome pelo qual sempre me chamaram os amigos e os próximos. Pereira de Almeida é o último nome do meu pai.”

Como voz feminina importante e celebrada, é natural que se tenha curiosidade de saber quais escritoras ela nos indica conhecer. “Recomendo as três autoras dos três últimos livros de que gostei muito: as portuguesas Teolinda Gersão e Maria Velho da Costa e a moçambicana Hirondina Joshua.” Também quis saber a opinião dela sobre mulheres negras ganharem mais espaço na literatura, e se era possível traçar paralelos entre o que acontece em Portugal e Brasil. “Julgo que é possível traçar um paralelo com Portugal, que é a realidade que conheço melhor: também aqui há um movimento em andamento no sentido de maior espaço para vozes negras. Muitas delas são mulheres, o que vejo com grande alegria e considero urgente.” Sobre projetos futuros e ambições como escritora, ela faz uma pausa, mas planeja ir ainda mais longe. “Neste momento, encontro-me a descansar entre projetos. A ambição é apenas a de ter a saúde suficiente para continuar a escrever ao longo de muito tempo”. Que assim seja.

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