Sarah Oliveira investiga a força emocional dos refrãos
Série "Atenção para o refrão" traz entrevistas com artistas como Alcione, Gilberto Gil, Ney Matogrosso e Pitty.
Sarah Oliveira atendeu a chamada de vídeo da reportagem da ELLE com uma camiseta que estampa o verso “irremediável neon”, conhecido por suscitar um certo mistério na letra da canção “Sina”, que Djavan lançou em 1982, no álbum Luz.
Nada mais apropriado: a comunicadora de 47 anos estreia nesta sexta-feira (27.03) a série documental Atenção para o refrão, com seis episódios, no Canal Bis e no Globoplay (plano premium). A ideia é justamente desvendar significados e inspirações de grandes refrãos da música brasileira.
O lançamento marca também os 25 anos de carreira como apresentadora. Conhecida por passagens na MTV e na TV Globo, ela se destacou nos últimos anos pela realização de séries autorais como Viva voz e Calada noite (ambas no GNT), O nosso amor a gente inventa (em seu canal no YouTube), o programa de rádio Minha canção (na Eldorado FM) e o podcast Nós (no Spotify, em parceria com a apresentadora Roberta Martinelli).

Sarah Oliveira e Céu Foto: Milena Seta
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No ano passado, ela foi escolhida para conduzir as entrevistas com os artistas que se apresentam no Tiny desk Brasil, versão nacional da série digital criada em 2008 pela rádio pública estadunidense NPR.
Atenção para o refrão é mais um projeto que aborda o olhar de Sarah Oliveira sobre a música. A direção é do cineasta e seu irmão, Esmir Filho (Homem com H). Na série, ela entrevista 35 artistas, entre compositores e intérpretes, com o propósito de refletir sobre o sentido dos principais versos que são patrimônio da MPB. Alcione, Gilberto Gil, João Bosco, Lenine, Ney Matogrosso e Pitty estão entre os entrevistados.
A apresentadora conversou com a ELLE sobre o novo projeto, os 25 anos de carreira e sua participação no Tiny desk Brasil.
“Como não sou jornalista, sempre tento fazer essa relação de afeto com a música, tenho uma ligação mais emocional”
O que te levou a olhar especificamente para os refrãos?
Quando crio um programa ou uma série, sempre penso no título antes. Em O Nosso amor a gente inventa, por exemplo, estava ouvindo Cazuza e pensei: “A gente podia fazer uma série sobre histórias de amor”. Quando pensei em formatar o Calada noite, estava ouvindo Vange Leonel, a música “Noite preta”. Aí fizemos essa série sobre a relação com a noite. Como não sou jornalista, sempre tento fazer essa relação de afeto com a música, tenho uma ligação mais emocional. O Atenção para o refrão foi o seguinte: estava ouvindo “Divino maravilhoso”, do Caetano Veloso, e quando ele fala “atenção para o refrão”, pensei: “Será que a gente presta atenção nos refrãos?”. No momento que todo mundo está cantando um refrão, todos estão na mesma energia. Não importa no que você acredita, de onde você veio… Acho isso muito poderoso e transformador, mas talvez a gente não se dê conta disso. A gente fala também de outros versos das canções e os próprios artistas tiraram conclusões que eles não tiveram antes. É óbvio que, quando eles estão escrevendo, tem um significado e depois isso muda. Para a pessoa que está no show tem outro sentido também. Não é sobre a história por trás da música, é sobre prestar atenção ao refrão. E aí dividi em seis temas: “prazer”, “garra”, “grito”, “sufoco”, “volta por cima” e “mistério”.
Como você chegou nesses temas?
O Esmir me ajudou a formatar porque ele tem esse olhar de direção de cinema e na minha cabeça é tudo muito caótico. A gente fez milhões de reuniões e foi montando esse quebra-cabeça, vendo qual refrão tinha a ver com o outro. O tema que eu mais queria, “paixão”, não entrou. Um dia vai entrar. Começa com “prazer”, só com mulheres. É o único episódio que só tem elas.
O refrão conecta muito com a memória afetiva, né?
Total, esse é o meu cerne. Estou comemorando 25 anos de carreira com essa série e tudo que faço desde a MTV, sempre vai para o lado da memória afetiva – mesmo sem querer, de uma maneira ingênua, meio naïf. Eu não era cool como os outros apresentadores da MTV, ia sempre para o lado da emoção.
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“Eu não era cool como os outros apresentadores da MTV, ia sempre para o lado da emoção”
Durante as filmagens, houve algum momento que aguçou sua memória afetiva especialmente?
Houve vários momentos, mas teve um sobre a canção “Máscara”, da Pitty, que anunciei a estreia do clipe na MTV, em 2003. Nós começamos juntas e ela é uma das minhas melhores amigas. Conheço todos os artistas, mas não sou amiga de todo mundo. A Pitty é realmente uma amiga. Tenho uma filha pré-adolescente e ela tem uma filha de 10 anos, que é a melhor amiga do meu filho. E a minha filha canta “Máscara” a plenos pulmões, ela grita. Falei: “Pitty, você tem noção, as nossas filhas cantando isso: ‘O importante é ser você mesmo que seja estranho, seja você mesmo que seja bizarro’? É muito forte”. Quando ela escreveu isso, era uma adolescente e estava pensando nas questões dessa fase. Fiquei com os olhos cheios de lágrimas. A Pitty levou um susto porque é mais fechada. Me lembrou as nossas filhas, nós duas meninas começando – eu com 20 anos, ela com 23 ou 24 – e a gente crescendo juntas. Foi bem bonito.
Você descobriu algo novo sobre uma canção que sempre ouviu?
Com o Gilberto Gil, a gente falou de “Palco” e essa música é a primeira do show desta turnê Tempo Rei. Quando perguntei sobre o refrão (Fogo eterno pra afugentar/ O inferno para outro lugar/ Fogo eterno pra consumir/ O inferno fora daqui), ele me contou que essa canção é um talismã para ele e que, se pudesse, abriria todos os shows com ela. Ele nunca tinha falado isso para ninguém. O palco é um lugar sagrado para ele. As pessoas falam muito que ele é um orixá e acho que ele começou a aceitar um pouco isso. Aí ele disse que ficou pensando sobre isso.
Depois de ouvir tantos artistas, você descobriu o que faz um grande refrão?
A Alcione, que não é compositora, falou: “Preciso que todos os pelos do meu corpo estejam arrepiados quando ouço o refrão; senão, eu não gravo”. Percebi que os artistas sempre param para pensar antes de falar, então não tem uma resposta pronta para essa pergunta. O Ney Matogrosso também falou uma coisa muito emocionante sobre “Sangue latino”: “Quando eu cantava ‘Os meus mortos, os meus caminhos tortos’ mais novo era diferente de como eu canto hoje, porque já tenho muitos amigos mortos”.
“A Alcione, que não é compositora, falou: ‘Preciso que todos os pelos do meu corpo estejam arrepiados quando ouço o refrão; senão, não gravo'”.
Você tem um refrão preferido?
“É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe” (“Samba da benção”, de Vinicius de Moraes e Baden Powell).
Por quê?
Acho bonito: “A tristeza tem uma esperança de um dia não ser mais triste não”, sabe? Alegria é só em alguns momentos da vida, né? Não é a todo momento. Mas se você conseguir ter a compreensão do por que está triste, consegue se permitir ficar feliz depois, entende? Se você só maquiar a tristeza e passar por cima, não consegue reorganizar os afetos e sentimentos. É bonito sentir a tristeza até o fim para depois se permitir ser alegre.
Você pontuou que não é jornalista, mas é comunicadora…
É que eu sou muito parcial, então não posso ser jornalista.
Existe esse dilema na comunicação, quando você tem intimidade com o entrevistado e tenta ser imparcial. Você, então, assume a sua parcialidade?
Sempre! Acho que a minha função na comunicação é ser um elo entre a música, o artista e quem está assistindo, quem é apaixonado por música como eu. Acho que vai além de uma entrevista. O Minha canção, meu programa na rádio Eldorado FM, é sobre memória afetiva e só sobre música que eu amo. Estou acostumada a lidar com essa emoção, tanto que preciso de roteirista e pesquisador. Sou só uma apaixonada por música e comunicação.
O que o rádio te oferece que a televisão não tem?
O rádio traz uma intimidade, ele sussurra no seu ouvido e tenho um respeito absurdo pelo microfone. Tem que ter uma responsabilidade. O rádio é o fundamento de tudo. É engraçado porque, quando comecei na Eldorado nesse meu retorno à rádio em 2017, levei minha equipe para filmar porque não consigo mais falar sem olhar para câmera. E também não sou do texto. Se você me pedir para escrever algo, não faço: gravo olhando para câmera e a pessoa transcreve. Por isso que o meu processo é caótico, preciso de uma equipe para me ajudar.
Como você chegou na 89 FM?
Fui fazer um trabalho de faculdade, no primeiro mês de curso. Fiquei encantada. Eles estavam criando o departamento de jornalismo e falei para o diretor: “Quero trabalhar aqui, fazer entrevista”. Fiz faculdade de Rádio e TV porque queria entrevistar, sempre soube disso. Dois meses depois, me colocaram para entrevistar o (guitarrista) Tony Iommi e eu não sabia nada de Black Sabbath. Só tem homem no rádio, imagina no rock? Mas eu falava inglês muito bem, tinha acabado de chegar do intercâmbio, e me colocaram para fazer. Na mesma semana, entrevistei a Malu Mader (que é casada com Tony Belllotto, em um especial sobre os Titãs), e o Tony.
Como é trabalhar com seu irmão?
Não consigo conceber nada que não tenha um olhar do Esmir, mesmo que ele não participe, que ele não vá dirigir. Em todos os meus projetos, venho com uma ideia e ele formata. Foi emocionante porque a gente é muito chorão. Teve um momento bonito que o Gil falou: “Obrigado por me fazer essas perguntas que me fizeram refletir”. Meus olhos encheram de lágrimas. Olhei para trás e vi meu irmão chorando também (risos).
Como tem sido a experiência do Tiny desk?
Sou muito fã do formato! Meu maior medo era que as datas encavalassem com as filmagens do Atenção para o refrão. Fiz o Acústico e o Luau, na MTV, mas eram grandes produções. Agora é cru, na mesinha, no escritório, não tem amplificação de microfone, não tem retorno, a banda tem que tocar baixinho para harmonizar, ninguém se ouve. É diferente de qualquer coisa que existe na televisão.
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