Cultura

Malía estrela novo clipe com amigas da vida real

Em "Mexe", ela canta sobre "uma preta favelada diferenciada". "As pessoas têm uma imagem muito limitada do que é ser uma menina preta com 21 anos", diz a artista, em entrevista à ELLE.

Foto Pedro Henrique
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Quebrar expectativas, Malía logo avisa, é algo que ela adora. O single "Mexe", lançado nesta sexta-feira (18 de setembro) é mais um fruto dessa necessidade. No vídeo com direção de Matheus Senra, Malía, acompanhada de amigas da vida real, canta sobre uma "preta favelada diferenciada" tendo como cenário uma mansão e a Cidade de Deus, favela da zona oeste do Rio de Janeiro onde nasceu e foi criada. "Esse clipe para mim é um projeto muito feliz, porque eu falo a partir da minha perspectiva. As pessoas têm uma imagem muito limitada do que é ser uma menina preta com 21 anos", diz.

O figurino é uma atração à parte. Com styling de Marcell Maia, ele vai do pop ultracolorido das garotas de Cidade de Deus até chegar a um padrão diva, com a cantora em um look da Gucci, todo de cristais.

Com letra da carioca, "Mexe" é o segundo single de seu próximo trabalho, previsto para o ano que vem. A produção é de Mario Caldato, conhecido por trabalhos com nomes como Beastie Boys, Marisa Monte, Nação Zumbi e Marcelo D2.

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Em março, já de malas prontas para embarcar para sua primeira viagem para os Estados Unidos, quando iria encontrar Mario pessoalmente, em Los Angeles, a pandemia interrompeu seus planos. A frustração, diz, logo se transformou em resiliência. A pausa forçada ainda permitiu que estudasse um pouco de filosofia africana kemética. "Tenho essa busca incessante pela minha identidade", conta.

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À ELLE Malía fala sobre o trabalho neste período, sobre o gênero musical que batizou de Trapcal e reflete sobre o papel que ocupa na indústria da música:

O clipe de "Mexe" tem cenas na Cidade de Deus, que foi onde você nasceu, você chamou suas amigas para participar. O quanto tem da sua vida ali naquele conceito e na letra da música?

É a "ficção do eu" [risos] porque a minha vida é tipo isso. Engraçado que quando eu escrevi a música não era muito, mas depois se tornou. Eu vou a lugares extremamentes diferentes de onde eu nasci e ao mesmo tempo eu volto. Eu me sinto legítima em todos os espaços. Coisas que muitas pessoas não fazem porque olham a minha imagem e me limitam única e exclusivamente à caricata da favela. Essa mistura de linguagem do clipe, inclusive, a ideia foi minha, de colocar a Cidade de Deus diferente, eu gosto de quebrar expectativas. Não porque eu faça isso de um jeito forçado, mas acho que sempre sou um pouco isso nos lugares onde eu estou. As pessoas hoje em dia estão falando muito sobre empoderamento e eu sempre vou um pouco na contramão disso. Empoderamento significa dar poder e eu conscientizo as pessoas de que elas detêm o poder, eu não dou poder pra ninguém.

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O conceito do styling do clipe é bem marcante, os looks contam a sua história. Você tem uma relação antiga e particular com a moda, né?

Antes eu não tinha roupa. Eu não comprava, minhas tias me davam e eu usava da minha maneira, eu nunca tinha roupa da moda. E eu comecei a tomar gosto por isso, ser diferente. Quando era mais nova, tinha aquela coisa, via meus amigos com roupas atuais. Mas minha mãe não falou que não tinha como comprar e aí eu tinha que viver de acordo com o contexto em que estava inserida. Na minha casa os valores, sempre foram outros. Nunca faltou comida, felicidade, educação, estudei em bons colégios, mas essa questão do consumo, por a gente não ter grana, minha mãe me fazia entender que não era prioridade pra gente. No clipe, eu quis muito estar perto dessa construção dos looks, eu mandei as referências, e o stylist [Marcell Maia] foi cirúrgico, aberto às minhas ideias.

Fala um pouco sobre esse período, tinha esse esforço da sua família para você estudar. Com o tempo você começou a postar vídeos na internet e foi se tornando mais conhecida. Como é que as coisas aconteceram na música?

Eu amo estudar, mas sofri muito. Não consigo fazer as pessoas entenderem hoje o quanto foi difícil para mim. Se a escola tem um sistema de bolsa [no ensino médio, era bolsista em uma escola particular a 2 horas da sua casa], tem que estar preparada para lidar com essas pessoas. Não quis fazer faculdade porque comecei a entender que tudo que fazia meu coração vibrar tinha a ver com arte. E assim que eu acabei o colégio, assinei com a Universal. Eu me sinto muito feliz por ter ouvido a mim mesma, por ter uma mãe e um pai que falaram o quanto o amor próprio era importante a ponto de eu me respeitar.

Na sua casa a música já era bem presente?

Sim. A música sempre foi algo muito forte na minha vida, ajudou a construir minha personalidade. Meus pais ouviam música basicamente todos os dias. Minha mãe tem até hoje caixas de som que meu pai [falecido há três anos] fez à mão. Ele comprou a madeira, ele comprou tudo pra poder fazer. O cara que eu mais ouvi na minha vida foi Djavan. Mas tocava bastante Mart'nália, Maria Rita, Elis Regina, Caetano, Gal Costa, Chico Buarque, João Bosco. Eu sou apaixonada por MPB, é o gênero que eu mais ouço. Minhas amigas ouviam Justin Bieber, eu ouvia Elis Regina.

Você tem falado sobre esse gênero que é a marca desse seu novo trabalho que você chamou de TrapCal. Essa bagagem da MPB está inserida nessa ideia?

Eu acredito muito na pluralidade. Essa mistura com o trap, que é o que tem de mais novo, o trap é a gíria da gíria, para mim é tecnologia, código, quase criptografado, acho isso interessante. O 'cal' vem de tropical, de Brasil, da minha vontade de exaltar a música brasileira. Hoje nada mais se inventa, acho que a gente faz um recorte, uma colagem de tudo que a gente gosta. Na minha visão, a música brasileira está precisando cada vez mais desse entendimento do que veio antes. Acho que a gente respeita, mas precisa falar sobre isso porque a música é como livros de história. Se eu não falo sobre isso, se eu não dou continuidade falando, cai no esquecimento, e não quero que minha geração esqueça quem foi Djavan, Dona Ivone Lara, Alcione, porque isso fez quem a gente é.

E como tem sido trabalhar com o Mario Caldato? A pandemia atrapalhou seus planos nesse projeto com ele?

A primeira música que ele me entregou eu fiquei 'mano...' [risos]. Óbvio que a distância atrapalha, mas o fato de ele ser tão experiente e me ouvir me dá muita coragem. Eu estava com a mala pronta para viajar e não rolou. Ia ser minha primeira vez nos Estados Unidos. Mas não fiquei triste. Todo muito que eu conheço tinha um projeto. Eu acredito que se a gente não estivesse pronto para perder nosso projeto, a gente não estava pronto para colocar na rua. Eu tinha um projeto antes da pandemia, eu tenho um projeto hoje muito melhor. Não é romantizando. Querendo ou não, o tempo muitas vezes é bem vindo para a gente repensar certas coisas. Eu quero construir minha carreira de uma maneira sólida. Não estou com pressa. Eu quero construir uma história, não quero só um hit. Quero chegar a um nível em que tenho os hits, mas construí algo para além dessa superficialidade que existe na indústria em que eu trabalho.

Conversamos com artistas do gênero em diferentes momentos de suas carreiras para entender a complexa e instigante estética do trap brasileiro.



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