Séries “Habeas corpus” conta a história de inocentes condenados pela Justiça
Marjorie Estiano e Any Gabrielly falam sobre a produção da Netflix baseada em casos reais.
Desde 2016, a organização sem fins lucrativos Innocence Project Brasil busca reverter condenações de inocentes no país, além de outros erros cometidos pela Justiça. Premiado com o título de melhor prática de advocacia em 2019, o trabalho da instituição serviu de base para Habeas corpus, primeira série jurídica da Netflix Brasil que estreia nesta quarta-feira (23.09).
A trama gira em torno de Inez (Marjorie Estiano), uma professora de Direito e ex-advogada criminalista que monta um grupo de estudantes para revisar a prisão de um jovem (Hypólito), vítima de racismo no tribunal. Entre os alunos está Marina (Any Gabrielly), cuja relação com o caso – e com a própria Inez – esconde motivações pessoais. Vladimir Brichta, Danton Mello, Natália Lage e Marisa Orth completam o elenco.
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“Ouvir os depoimentos das pessoas e das famílias que passaram por isso, ver como alguém foi abandonado, completamente desamparado pelo Estado, por um sistema que deveria proteger e defender era de partir o coração”, diz Marjorie em entrevista à ELLE. “Me arrepio quando ouço a pergunta ‘O direito à Justiça é para todos?’. Acho que a nossa série coloca diante do público uma realidade da qual muitas vezes não queremos falar”, diz Any sobre inocentes condenados.
A seguir, a conversa das atrizes com a ELLE:
Referências para as personagens
Marjorie Estiano: “Busco referências na vida real. É onde costumo sempre beber para construir meus personagens, compreender as circunstâncias e os contextos. A realidade é muito rica e inspiradora. O processo para Habeas corpus foi bastante intenso. Tivemos um choque de humildade ao perceber que não dá para compreender o que é exercer o Direito e como funciona o sistema de Justiça em suas minúcias. É muito complexo, muito vasto. Foi um trabalho de aproximação, de entender o vocabulário, os instrumentos, as instâncias onde a Justiça se manifesta e, principalmente, o impacto que ela tem sobre a vulnerabilidade social e a importância que pode ter para diminuir essas distâncias.
Também buscamos referências nas pessoas que estavam conosco. Tínhamos advogados para consultar, fizemos visitas a fóruns e ouvimos histórias reais. Todo o processo foi construído a partir disso, tentando compreender esse sistema”.

Marjorie Estiano como a professora Inez. Netflix
Aprendizados com Marjorie
Any Gabrielly: “Aprendi muita coisa com ela. Marjorie é uma atriz fascinante, não só quando gritam ação e ela faz a cena, mas também pelo jeito como se debruça sobre os trabalhos e como enxerga o ofício. É algo que admiro muito e quero levar como inspiração para conduzir a minha carreira”.
Ela é uma atriz muito generosa, atenta, presente e viva com os colegas. Estava nervosa no começo, pensando: ‘Nossa, é a Marjorie. Tenho que ser boa’. Mas criou-se um clima de parceria muito grande e muito rapidamente e me senti muito acolhida”.
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O sistema judiciário brasileiro
Any Gabrielly: “Até hoje me arrepio quando ouço a pergunta ‘O direito à Justiça é para todos?’. Acho que a nossa série coloca diante do público uma realidade da qual muitas vezes não queremos falar. É desconfortável e doloroso pensar que ela existe. Mas, de uma forma muito delicada e sensível, Habeas corpus traz isso para a mesa e diz: ‘Isso aqui está acontecendo. Onde você está nessa história?’’. A série provoca essa reflexão. Temos que ser pessoas que questionam sempre”.
Marjorie Estiano: “E que as pessoas possam batalhem para que o sistema seja corrigido, fiscalizado e aprimorado. Ele é um alicerce da sociedade, é fundamental para o nosso convívio e não tem como abrir mão disso”.
Acho que a série traz essa intimidade com a Justiça e convida o público a fazer parte dela, a parar de ser apenas espectador do jornal e entender onde ele participa disso: na eleição, no voto, na vida. Ele já faz parte disso, mas pode ser ativo ou passivo”.

Any Gabrielly, Marjorie Estiano e Hipólyto em cena. Netflix
Baseado na vida real
Marjorie Estiano: “Foram tantas histórias que escutamos, além das visitas aos fóruns e do contato com os advogados do Innocence Project, que tivemos uma série de momentos chocantes.
Ouvir os depoimentos das pessoas e das famílias que passaram por isso era de partir o coração. Ver como alguém foi abandonado, completamente desamparado pelo Estado, por um sistema que deveria proteger e defender. E perceber como essas pessoas se sentem sozinhas. Encontrar o Innocence Project, que é uma organização voluntária dedicada a trabalhar pela revisão criminal de pessoas inocentes que foram condenadas, é necessário.
Porque, no fim das contas, as vítimas acabam tendo apenas esse voluntariado. Se a organização não as defende, essas pessoas ficam sozinhas. É por isso que muitos (parentes de vítimas de erros judiciais) acabam se tornando advogados para fazer a defesa de um familiar. Isso é muito comum”.
Any Gabrielly: “Durante nossa preparação para a série, o Innocence Project conseguiu comprovar a inocência de Francisco Mairlon, que estava há quase 15 anos preso. Foi um caso que acompanhamos pela televisão. Vimos a condenação dele ser revogada e isso foi muito impactante”.
Marjorie Estiano: “Acompanhamos ele saindo da cadeia, os jornalistas fazendo perguntas, a emoção da Dora Cavalcanti (advogada criminal e fundadora da organização) falando daquela conquista, saindo do tribunal. Foi muito impactante. Nunca tinha me dado conta de uma realidade como essa dessa maneira”.

Na trama, o grupo de estudantes de Direito conduzidos pela professora Inez (Marjorie Estiano, em pé, ao centro). Netflix
Propósito
Marjorie Estiano: “A gente vive dentro de uma bolha e muitas vezes só se depara rapidamente com essas histórias pelo jornal ou porque tem algum contato com elas. Então, poder, através do entretenimento, aproximar o público dessas histórias é um privilégio. É um trabalho que tem utilidade pública”.
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