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A tarefa é complicada: fazer um disco dançante, de pista, num momento histórico em que se tornou inviável ir às pistas. Isolado dentro de casa, o duo eletrônico Noporn apresenta Sim, composto no período imediatamente anterior à pandemia e todo gravado em estúdio caseiro, durante a quarentena. O título afirmativo abriga uma série de dilemas que a artista plástica carioca Liana Padilha, fundadora do projeto, teve de enfrentar para dar continuidade à experiência iniciado na virada do século 20 para o 21 e celebrizado na pista underground do extinto clube noturno paulistano Xingu. De lá partiram, para o álbum inaugural Noporn (2006), de hits subterrâneos da noite paulistana como "Baile de Peruas", "Janelas", "Ctrl + Alt + Del" e "Xingu".

O Noporn ganhou vida a partir de um traumatismo de morte. Liana era casada com o estilista gaúcho-carioca Regis Fadel, com quem dividia a grife Sucumbe a Cólera. Ele acalentava um lado musical e compôs "Mantra: beije e me ame", que Marina Lima gravou em 1995. Com Liana e o amigo Luciano Lauri Pires, um designer digital paulista que também atacava de DJ, fazia experimentos caseiros com teclados e voz. Regis adoeceu, o que deu novo sentido à brincadeira. "Ele morreu de AVC, mas já tinha tido um problema no início do mesmo ano. Fazíamos mais como um laboratório para elevar a autoestima dele", lembra Liana. O Noporn, portanto, chegou a ser um trio.

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Da morte de Regis, em 2000, a flor musical começou a crescer transformada em dupla, com Luca Lauri como DJ, e Liana declamando sem pompa versos ora poéticos ou melancólicos, ora irônicos ou francamente debochados. Ela explica a motivação para as primeiras noitadas: "Era uma forma de eu estar numa festa, com as pessoas em volta, sem precisar ficar contando a minha tragédia, que tinha recém-acontecido, me deprimia pra caramba e me fazia ficar em casa".

Os poemas pop de Liana entraram em seguida, e hoje Noporn é autodefinido como um "projeto de poesia eletrônica para dançar". Parece contraditório, inclusive pelo tom sombrio das músicas lançadas no momento do boom do soturno (e hedonista) do electroclash. Mas funcionou e gerou um culto underground que prossegue até hoje. Liana se espanta com a faixa etária tocada pelo Noporn: "O público sempre tem a mesma idade. Pega uma parcela de pessoas do final da adolescência até 30 e poucos anos, em todas as épocas. Isso é muito maluco". E ri: "Vai ver que a minha poética é adolescente".

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A dupla em apresentação no festival MecaFoto: Divulgação/Hannah Carvalho

Apesar do nome Noporn, Liana faz do sexo a principal matéria-prima para sua poesia, provavelmente outro fator no impacto do projeto junto ao público jovem. Ela conta a origem: "Na época tudo era 'food porn', 'não sei que lá porn'. Então, Luca, Regis e eu falamos: é no porn, porque é sexual, não é pornográfico. Comecei a perceber que a pornografia heterossexual sempre tem um papel muito ruim para a mulher, muito injusto, submisso ou dominador fake. Aquilo é para o gozo do homem". O questionamento de fundo feminista se amplificou: "Cheguei à conclusão óbvia de que todo mundo que é vivo e sexualmente ativo hoje aprendeu sexo pela pornografia. A partir do momento que não se tem educação sexual na infância e se aprende com a pornografia, é um país de abusados de ambos os sexos, tanto as meninas quanto os meninos. O que eu faço é no porn mesmo, é sexo como o sexo é".

Depois da boa acolhida ao primeiro disco, o Noporn desacelerou. Liana voltou a morar no Rio, após 20 anos em São Paulo, e continuou se apresentando esporadicamente com Luca. Em paralelo, criou um projeto de música e artes plásticas chamado Tintapreta, que a aproximou do sociólogo e músico Lucas Freire, 31 anos, ex-integrante das bandas cariocas indie-roqueiras-eletrônicas Dorgas e Séculos Apaixonados.

O novo disco sacramenta a saída de Luca Lauri, hoje designer-chefe no banco Itaú, e a efetivação de Lucas Freire, com quem Liana forma um casal, como segundo elemento o Noporn. Ela contextualiza a troca: "O lançamento do segundo disco (Boca, de 2016) foi meio morno, porque a gente não fazia show. Luca só podia fazer show em São Paulo. Ele tinha parado o mestrado para fazer o segundo álbum, mas assim que lançou voltou. Então, não tinha como se adaptar para tocar. Ele é a fim da coisa acadêmica, de estudar. E curte música também, mas mais como uma coisa de que participa, como no álbum novo, em duas ou três músicas". Em Sim, Luca é coautor de "Festa no meu quarto", "Pérola suja" e "Butterfly" e participa musicalmente das duas últimas. "Festa no Meu Quarto" parece tema de quarentena, mas já existia antes da pandemia. "Vou te chamar pra uma festa/ Uma festa no meu quarto/ Só eu e você, mais ninguém", diz a letra.

Lucas diz que sua entrada "mudou tudo" no Noporn, Liana afirma que "mudou bastante". As premissas básicas do projeto continuam inalteradas, apesar de alguns grooves mais enérgicos (como em "Slow Sex"), mas eles são unânimes em afirmar que é um trabalho mais introspectivo que os anteriores. "O disco 1 é bem para aquele público electroclash, hedonista, drogado, gloss, fútil, engraçado, divertido e montado", interpreta a autora. "O 2 já tem a ver com essas festas do Rio, que têm uma força sexual muito grande. E esse disco 3 é muito o que a gente ouve aqui em casa, Serge Gainsbourg, 'La Javanaise'". Como referenciais para seu peculiar canto falado, Liana menciona Laurie Anderson, Marina Lima e as declamações de Maria Bethânia.

O Noporn em show no Circo Voador, no RioFoto: Divulgação/Michelle Castilho


No final de 2020, Noporn foi contemplado pela Lei Aldir Blanc (de socorro a projetos e espaços artísticos na pandemia) para gravar seis vídeos musicais em seu canal no YouTube. Segundo eles, isso não significou conforto econômico, depois de 14 meses sem fazer apresentações ao vivo. "Tudo ficou menor. Já estava ruim antes da pandemia, ela só veio coroar e desculpar coisas que já estavam muito malfeitas." Lucas concorda: "A gente ainda está baqueado. Após a onda de shows online, agora ninguém aguenta mais. Depois que isso passou, não tem show, não tem nada. A gente está sem rodar a música". Volta Liana: "Agora é esperar, porque festival não vai ter. A gente tem um louco andando no país, ninguém sabe para onde vai".

Dos mais de 20 anos de estrada no Noporn, Liana ainda se diverte com os cruzamentos intergeracionais que provoca. "Nem sabem o que é Xingu, pensam que é o dos índios. Teve um menino de 20 e poucos anos, geração Z, que falou: 'Vai dizer que você morou no Xingu?'. É, morei, morei muito no Xingu", ri. Lucas conta que começou a frequentar a noite em 2007, no Rio. Mesmo em São Paulo, não teria conhecido o Xingu, que fechou em 2005. "Eu nunca tinha ouvido Noporn até conhecer a Liana", admite. "A primeira vez foi fazendo som com ela, aí fui pesquisar, conhecer o contexto, ouvir os álbuns."

Duas décadas depois, Liana lembra de Regis como o elemento mais sexualmente "safado" do trio inicial, e diz que se estivesse vivo ele provavelmente seria Noporn. Em sua ausência, a reinvenção do projeto sem noite nem pista passa pelo enfrentamento a um Brasil em que a cólera não sucumbe, mas triunfa. "I wanna be a butterfly/ I want to fly again/ sim, sim, sim, sim, sim", tateia o escapismo melancólico de "Butterfly".

***

Liana e Lucas citam quantidade ímpar de referências musicais que ajudaram e ajudam a moldar a sonoridade do Noporn. Ela as enumera, para além de Serge Gainsbourg: "A gente ouve muito Moodymann, que é house, deve ter a minha idade e toca até hoje. Thundercat, Erykah Badu, Sade. Soul music, muita. Jazz. Música brasileira todos os dias, Itamar Assumpção, Negro Leo, muito Cassiano, Azymuth, Ricardo Richaid. Cauby Peixoto, que Lucas adora". Adicionam ao rol "uns modernos" ("Eu amo Teto Preto, Laura Diaz, acho ela muito sensacional como cantora, quase meio Elis Regina", diz Liana), mais Chico Buarque, Guinga, João Bosco e Aldir Blanc. A pedido de ELLE, os dois elaboraram uma playlist com algumas das influências ouvidas durante a criação de Sim.





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