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Cultura

"O Brasil não está pronto para bailarinos negros"

Em sua autobiografia, A sapatilha que mudou meu mundo, Ingrid Silva conta sua trajetória e mostra que, apesar de alguns avanços, o mundo da dança precisa se atualizar.

Foto: Divulgação/Laura Yost
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Primeira bailarina do Dance Theatre of Harlem, de Nova York, Ingrid Silva, 33 anos, ganhou atenção ao aparecer em programas como o estadunidense Today show, e ao contar que, assim como os bailarinos negros faziam nos anos 60, ela também tinha de pintar suas sapatilhas com base da cor de sua pele para poder dançar, já que não se fabricava este tipo de calçado para pessoas negras. Esta e várias outras passagens de sua história estão em A sapatilha que mudou meu mundo, autobiografia lançada recentemente pela Globo Livros.

Ingrid falou com a ELLE de Nova York, enquanto amamentava a filha, Laura, de 9 meses. E contou que desejava contar sua história há tempos, mas a ideia só tomou corpo dois anos atrás. Foi em meio à quarentena, nos Estados Unidos, que ela sentou para escrever sobre si, reunindo memórias e anotações feitas quando ainda morava no Brasil.

No livro, ela relata detalhes de sua infância em Benfica, na zona norte do Rio de Janeiro, quando deu seus primeiros passos na carreira, aos 8 anos. Depois de se formar na companhia de dança de Debora Colker, seguiu para um estágio com o Grupo Corpo, em Minas Gerais. Dali, acabou aprovada para estudar no Dance Theatre of Harlem, instituição de bailarinos negros fundada no final dos anos 1960 por Arthur Mitchell e Karel Shook. "Vim para Nova York aos 18 anos, sem conhecer ninguém e sem falar a língua. Tive de aprender tudo sozinha e precisei de muita coragem para passar tudo o que passei e encontrar meu lugar no mundo", lembra.

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Foto: Divulgação/Thalita Ramos

"Nunca vou me esquecer quando entrei pela primeira vez no Dance Theatre of Harlem e dei de cara com Mr. Mitchell. Vi que várias meninas que se pareciam comigo, de coque e sapatilha. Na hora, pensei: onde eu estive por tanto tempo? Vim de um mundo onde eu não era aceita e onde jamais iria conseguir um emprego como bailarina profissional", recorda. "Depois que cheguei aqui, a sensação foi: 'acordei'. Me reconectei com a dança e com a minha ancestralidade. E, sobretudo, descobri mais sobre a minha negritude".

É a isso que ela credita, por exemplo, ter adotado o cabelo afro natural, algo raro no mundo do balé e que ela ostenta com orgulho. Raro também é encontrar bailarinas que são mães. Ingrid é a primeira de sua companhia, a Dance Theatre of Harlem a ter filhos e conta que foi extremamente acolhida. "Eu tive o maior apoio das pessoas. E muita sorte. Pode não parecer, mas o mundo da dança é extremamente competitivo, machista e leva os bailarinos a uma degradação física e psicológica muito grande. Para sobreviver, é preciso ter uma casca grossa", revela.

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As sapatilhas que dão título ao livro – e cuja história a tornou famosa – fazem hoje parte do acervo permanente do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana Smithsonian, em Washington, nos Estados Unidos, desde o ano passado. "Nem consigo expressar como eu – uma mulher negra, brasileira e periférica – me senti quando essas sapatilhas foram parar em um museu. Me faz pensar como vai ser a dança no futuro, como as coisas ainda vão mudar", reflete.

Foto: Divulgação/Thalita Ramos

Apesar da honraria, não significa que houve mudanças neste cenário, já que as sapatilhas ainda não são fabricadas em todos os tons de pele negra. "É preciso encomendá-las e o preço é mais alto do que o das sapatilhas convencionais. As marcas alegam que não existe mercado. Isso limita o acesso", conta Ingrid, que pensa em criar uma linha de sapatilhas e meias-calças para que este problema não ocorra.

Ela sabe que é uma pioneira ao abrir portas que sempre permaneceram fechadas e vem colhendo reconhecimento por isso: no ano passado, foi eleita uma das 100 pessoas negras com menos de 40 anos mais influentes mundo pela Mipad (Most Influential People of African Descent). Também foi uma das principais palestrantes no Harvard Lead Conference, painel de empoderamento e desenvolvimento de mulheres latino-americanas, realizada pela Universidade de Harvard, em 2020.

"Se ocupei um lugar de destaque neste mundo, que bom. Agora, é preciso trazer outras pessoas."

Isso mostra que uma de suas principais bandeiras é não desistir de abrir espaço para ter os seus por perto, caminho que vem pavimentando desde 2017, quando fundou a EmpowHerNY, uma plataforma internacional de empoderamento feminino. Desde 2019, também está à frente do Blacks in Ballet, projeto que fundou ao lado dos brasileiros Fábio Marino e Ruan Galdino e cuja função é revelar bailarinos negros espalhados pelo mundo e contar suas histórias. "Muitas vezes, as pessoas se espantam quando descobrem que sou bailarina. Justamente porque além de não verem bailarinos negros, acham que não tenho o estereótipo de uma. Esta plataforma é uma maneira de educar as pessoas e mostrar que a arte está evoluindo", conta. "O Brasil, por exemplo, ainda está preso a um padrão antigo de balé. Temos muitos talentos negros, que não veem espaço para atuar e acabam indo brilhar fora. Infelizmente, o país não está pronto para bailarinos negros", diz ela, que cita como exemplo Ismael Ivo, dançarino, coreógrafo e diretor do Balé da Cidade de São Paulo, morto este ano pela Covid-19.

Vivendo fora do Brasil por 33 anos, Ismael teve uma extensa e gloriosa carreira internacional: dançou com Pina Bausch, foi diretor do setor de dança da Bienal de Veneza entre 2005 e 2012 e o primeiro negro e estrangeiro a dirigir o Teatro Nacional Alemão, em Weimar. "Ele é um ícone. E foi o primeiro e único diretor negro na história da dança no Brasil. Isso é vergonhoso. Quantos nomes tivemos, como as bailarinas Mercedes Batista, Bethania Gomes e outros que não tiveram espaço aqui?", opina.

Foto: Divulgação

"Ter mudado de país me abriu os olhos para isso que, até então, não era uma questão para mim. No final, fica a pergunta: vale a pena ficar ou é melhor se profissionalizar e ganhar a vida onde somos mais valorizados e respeitados?"

Apesar de perceber este atraso com tintas racistas, ela revela planos para mudar este panorama. "Quero realizar um festival de dança no Brasil onde possa convidar profissionais de fora para ministrar aulas, principalmente no interior do Brasil, fornecer bolsas de estudos e revelar talentos ainda desconhecidos", explica. "Se ocupei um lugar de destaque neste mundo, que bom. Agora, é preciso trazer outras pessoas. Tem uma frase do Mr. Mitchell que eu gosto muito e traduz isso muito bem: 'Você representa algo muito maior do que você mesmo'."

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