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Nada de close-up nas partes íntimas das artistas do pole dance em clubes de striptease. Sim, dá para mostrar a performance na barra vertical como uma forma de arte, sem sexualizar demais a mulher. Principalmente a negra, que está cansada de ser exposta à objetificação de seu corpo pela mídia branca patriarcal.

É nisso que aposta a série P-Valley, que entrou este mês no catálogo da plataforma Starzplay. O "P" é de "pussy" – palavra que precisou ser abreviada, assim que conglomerados de mídia, como Comcast e TimeWarner, se recusaram a aceitar um programa com "xoxota" no título.


Mas nada mudou no roteiro. A proposta é celebrar o corpo e a liberdade das mulheres negras, capturando as acrobacias no pole dance como um símbolo do empoderamento que a dança pode dar. Sem que as dançarinas precisem se desculpar pelo que fazem, embora enfrentem preconceito, muitas vezes vindo da própria família.

A trama é ambientada nos bastidores de Pynk, strip club em uma comunidade pobre localizada no delta do Mississippi, no Sul dos Estados Unidos. Foi nessa região com alta concentração de negros que tanto a showrunner e produtora executiva da série, Katori Hall, quanto a atriz protagonista, Brandee Evans (na foto acima), cresceram. Dramaturga premiada, Katori é autora da peça O Topo da Montanha, sobre Martin Luther King, que no Brasil ganhou uma montagem com Lázaro Ramos e Taís Araújo. Na entrevista a seguir, ela e Brandee conversam com ELLE sobre a importância de desestigmatizar a stripper, a decisão de só usar diretoras mulheres no set e os efeitos dos movimentos Me Too, Time's Up e Black Lives Matter.

katori hall de blusa preta Katori Hall, criadora da peça que virou série e teve seis anos de pesquisas com dançarinas.Foto Divulgação

Como nasceu a ideia de chacoalhar a imagem preconceituosa das dançarinas de pole?

Katori Hall Cresci carregando um grande estigma só por vir do sul dos Estados Unidos, onde o culto às strippers negras é muito popular. É normal frequentar os clubes nos finais de semana para apreciar o que essas mulheres conseguem fazer no palco. Por não concordar com o julgamento, fiz uma pesquisa de seis anos para conhecer melhor essas dançarinas. Daí nasceu a minha peça, Pussy Valley, na qual a série é baseada. Essas mulheres não tiram as roupas simplesmente. Elas fazem performances incrivelmente atléticas, exatamente como mostramos na série. As strippers são erroneamente confundidas com profissionais do sexo. No que elas fazem há apenas a ilusão de sexo.

É surpreendente o tratamento que o pole dance ganha na série, à altura de performances de Cirque du Soleil.

Katori As strippers realmente impressionam a plateia com suas acrobacias. E muitas vezes ela nem precisam tirar toda a roupa. No final do primeiro episódio, por exemplo, tudo o que Mercedes, a personagem de Brandee Evans, precisa fazer para levar a plateia à loucura é voar ao redor do pole. Como é a sua habilidade na barra que conta, ela está de biquíni. O seu trabalho é tão digno quanto qualquer outro, além de ser um negócio bilionário.

Brandee Evans Daí a importância de desestigmatizar essas mulheres, que não têm motivo para se envergonhar do que fazem. Antes de conhecê-las e ouvir suas histórias, eu mesma era preconceituosa. Hoje tenho orgulho de fazer parte de um grupo de strippers nas redes sociais. Elas são mulheres muito autoconfiantes que não correspondem ao estereótipo que temos. Se elas alcançaram alguma independência financeira com o corpo, isso se deve ao fato de terem treinando muito na barra.

Apesar de vermos dançarinas realmente empoderadas pelo trabalho que fazem, esses clubes muitas vezes não exploram as mulheres?

Katori Não negamos que libertação e exploração andam de mão dadas nesse ambiente. Algumas mulheres são, de fato, vítimas. Mas há também aquelas que descobrem como pode ser libertador trabalhar lá. Muitas esbanjam poder, tendo até mais de um agente para representá-las. Cardi B, que hoje é um ícone cultural, é um bom exemplo. Por ter sido dançarina de pole antes de se tornar rapper, ela sempre diz que o striptease salvou a sua vida. Foi assim que ela conseguiu guardar dinheiro para sair de um apartamento que dividia com um namorado abusivo.

A decisão de ter apenas diretoras mulheres no set foi fundamental para evitar a objetificação dos corpos?

Katori Vivenciar esse mundo como mulher foi realmente um requisito básico para a direção (que contou com Kimberly Peirce, de Meninos Não Choram, de 1999, entre outras). Na hora de tomar as decisões técnicas, fugíamos da perspectiva masculina sobre as strippers. A câmera jamais poderia registrar o desejo dos homens ao vê-las. É o contrário. Mostramos como elas se sentem quando são admiradas pelos clientes.

Brandee Ter apenas diretoras fez uma grande diferença para nós, atrizes. Em vez de fazerem muitas tomadas com as dançarinas na barra, as cineastas preferiam poucos takes. Assim que elas tinham o que precisavam, pulavam para a próxima cena. Claramente elas não queriam expor as atrizes desnecessariamente, tanto diante da câmera quanto diante da equipe no set.

Brandee Evans de top brilhante Brandee Evans, em primeiro plano: "Saber que estaria protegida me deixou muito mais à vontade no set".Foto divulgação

Mostrada da perspectiva feminina, a nudez aqui traz mais nuances, sem carregar na sexualização.

Katori Sabíamos que precisaríamos ser honestas quanto à nudez, por fazer parte do trabalho. Mas nunca apontamos a câmera apenas para os seios ou outras partes íntimas. Os close-ups são nos rostos das dançarinas. Foi um recurso que usamos mais para mostrar o que está passando na cabeça delas durante a apresentação na barra. Quando elas dançam, mostramos flashbacks de suas vidas para que o espectador entenda as suas emoções. Pelo que elas já enfrentaram no passado, percebemos como as mulheres encontraram nessa arena uma forma de se libertarem, ainda que o local tenha sido criado para explorá-las.

Brandee Saber que estaria protegida me deixou muito mais à vontade no set. Pude abrir as pernas sem medo, por saber que a minha imagem jamais seria capturada de forma inapropriada. Mesmo que eu levantasse a minha perna para o alto, sabia que a câmera não faria um close da minha vagina.

Assim como as strippers, qual a luta da artista negra hoje para vencer na indústria do entretenimento?

Katori Nunca consegui saber se enfrentei tantos obstáculos por ser negra ou simplesmente por ser mulher (risos). É uma batalha constante. Até para vender a ideia de P-Valley não foi fácil encontrar quem topasse me ouvir. Nunca tive as mesmas oportunidades das minhas colegas brancas. Se as coisas estão mudando para os negros, isso se deve mais ao fato de a indústria ter percebido que representamos uma parcela muito grande de consumidores, uma população que foi muito pouco representada na mídia. O que também me ajudou a fazer a série foi o Starz (canal a cabo nos EUA) já ter outras showrunners de sucesso que não são brancas, como a negra Courtney Kemp (de Power) e a mexicana Tanya Saracho (de Vida).

O que mudou de fato com os movimentos Me Too e Time's Up? E o que esperar do Black Lives Matter?

Brandee Não consigo imaginar uma série como P-Valley dez anos atrás. Acredito que só o fato de a indústria ter aceitado uma série que apresenta a stripper sob uma outra luz já é resultado das discussões que os movimentos feministas levantaram. Até hoje essas mulheres não tinham sido humanizadas.

Katori Por enquanto, são pequenos gestos. Logo depois que George Floyd foi morto, vítima da brutalidade da polícia, a comoção foi imediata. Vimos a reação não só de indivíduos como também de empresas. A Nike foi um exemplo. Mas é importante saber o que essas companhias estão fazendo pelos negros e pelas mulheres que trabalham para eles. Espero ver as ações corresponderem ao que as empresas aparentemente defendem. No caso do racismo, não sei se as principais perguntas estão sendo feitas. Será que o modelo de negócios dessas empresas não contribui para manter a desigualdade? Ou coisa pior: será que o negócio deles não existe justamente em função da supremacia branca? É isso que eu realmente gostaria que os executivos respondessem.



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