Cultura

"O diabo veste Prada" faz 15 anos: os bastidores do longa

Anne Hathaway não foi a primeira escolha para o papel principal e Meryl Streep se inspirou em Clint Eastwood para viver Miranda. Conheça essas e outras histórias em torno do filme.

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Enquanto as marcas de luxo olhavam cada vez mais para o mercado asiático, modelos como a russa Natalia Vodianova dominavam as passarelas e a cintura do jeans descia vertiginisonamente, chegava aos cinemas a aguardada adaptação de O diabo veste Prada, filme baseado no livro homônimo de Lauren Weisberger.

O longa estreou numa sexta-feira, 30 de junho de 2006, nos cinemas dos Estados Unidos. Naquele fim de semana, o filme, com orçamento estimado em 35 milhões de dólares, faturou mais de 27 milhões de dólares de bilheteria. Ou seja, O diabo veste Prada quase se pagou em poucos dias de exibição.

O público lotou as salas embalado pelo sucesso do livro de Lauren, lançado três anos antes. O diabo veste Prada foi o primeiro romance da autora que, antes disso, teve uma breve passagem pela Vogue estadunidense, trabalhando como assistente da editora-chefe Anna Wintour. Logo, deduziu-se que Lauren tinha se inspirado em fatos e pessoas reais para escrever o livro. Mas o filme virou um sucesso ainda maior que o livro, com Anne Hathaway no papel de Andrea "Andy" Sachs, a assistente de Miranda Priestly, a fria e cruel editora de moda da fictícia revista Runway, vivida por Meryl Streep.

Nas telas, O diabo veste Prada ganhou tom de sátira e o público pode acompanhar o conto de fadas às avessas de Andy, a jovem cheia de planos, recém-saída da faculdade de jornalismo e indiferente ao universo da moda. Em vez de encontrar o emprego dos sonhos, acaba provando do pão que o diabo amassou, como na sequência de cenas em que Miranda chega ao escritório da revista e transforma a assistente em cabide, atirando bolsas e casacos em sua direção. Em uma de suas missões mais impossíveis, ela tem que conseguir o manuscrito de uma sequência de Harry Potter para os filhos da chefe, muito antes da aventura chegar às livrarias. Andy não somente prova dar conta do trabalho, como se transforma em uma Cinderela, que veste Chanel, entre outras grifes.

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As críticas ao filme vieram sobretudo de pessoas de dentro da moda, que sentiram falta do principal: a própria moda. Vestir-se da cabeça aos pés com grifes, não necessariamente tem a ver com moda, argumentavam os críticos. Os looks se resumiam a casacos de peles, bolsas caras, colares com o logo Chanel que, na opinião de fashionistas, pareciam uma caricatura de como quem está de fora imagina ser o mundo das pessoas da moda. Até a Miranda, interpretada por Meryl Streep, considerada por muitos o melhor do filme, parecia alguém estranha ao universo fashion.

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Debates à parte, relembramos aqui o filme e seus bastidores:

Relembre quem é quem no filme

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Meryl Streep é Miranda Priestly, a toda poderosa editora-chefe da revista Runway. Temida, tem como marca terminar suas frases friamente, dizendo "That's all".

Anne Hathaway interpreta Andy Sachs, a assistente de Miranda na Runway. Desde que passa a trabalhar na revista, Andy basicamente vive para trabalhar, o que afeta a relação com o namorado, amigos e família.

Adrian Grenier é Nate, o namorado de Andy. Embora morem juntos, Nate passa a ver cada vez menos a namorada por causa das demandas intermináveis da chefe dela.

Emily Blunt é Emily, a outra assistente de Miranda. É também quem orienta Andy sobre as peculiaridades da chefe.

Stanley Tucci é Nigel, o diretor de arte da Runway. A princípio mordaz, como todos na revista, Nigel aos poucos se sensibiliza com Andy, e se torna conselheiro e o mentor da transformação dela.

A escolha das atrizes

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Depois do filme, alguns nomes do elenco ganharam um novo status em Hollywood. Foi o caso de Anne e Emily Blunt. Curiosamente, Anne não foi a primeira escolha dos produtores. Até então, ela era mais conhecida por sua atuação em O diário da princesa (2001), dos estúdios Disney. Os produtores queriam uma atriz com uma carreira dramática mais consolidada.

O papel de Andy foi oferecido a Rachel McAdams, que o recusou por três vezes. Outros nomes cogitados foram os de Scarlett Johansson, Natalie Portman, Kate Hudson e Kirsten Dunst. Após a estreia de O diabo veste Prada, Anne subiu de patamar. Fez outras comédias de sucesso (Noivas em guerra e Agente 86) e também interpretou personagens mais densos (O casamento de Rachel e O preço da verdade). Em 2011, ela foi convidada a apresentar a cerimônia do Oscar ao lado do ator James Franco.

Já Emily Blunt tinha uma carreira voltada para séries e filmes de TV, antes de viver Emily. Com o sucesso de O diabo veste Prada, que revelou o lado cômico da atriz, ela se tornou um nome requisitado em Hollywood, alternando papéis em filmes de época e blockbusters (A jovem Rainha Victória, Os agentes do destino, O retorno de Mary Poppins).

Outra curiosidade sobre o elenco é que o nome de Meryl Streep correu por fora. No começo do projeto, se pensou em Michelle Pfeiffer, Catherine Zeta-Jones ou Glenn Close para o papel de Miranda.

Participações especiais x o receio de represálias

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Designers famosos, abordados na fase de pré-produção do filme, recusaram participar do projeto. A roteirista Aline Brosh McKenna contou à Entertainment Weekly que o motivo era receio de represálias. A exceção foi Valentino, que faz uma ponta no filme. O acerto com o estilista acabou sendo mais simples do que o esperado.

O diretor David Frankel soube que o estilista estava em Nova York na mesma época em que filmava as cenas de desfile do filme. Ele sugeriu à produtora Wendy Finerman, em tom de brincadeira, que ligasse para Valentino. Graças a amigos em comum, a produtora conseguiu fazer o convite, e o estilista topou. No filme, ele recebe Miranda no backstage, ao final de um desfile. O designer se sentiu honrado com o convite e por contracenar, mesmo que rapidamente, com Meryl Streep.

Gisele Bündchen foi outra celebridade da moda que aceitou participar de O diabo veste Prada. O convite foi feito durante um voo a Los Angeles em que estavam a modelo e a roteirista Aline Brosh McKenna. No avião, a roteirista se apresentou e, para que a modelo não pensasse se tratar de uma maluca, McKenna repetiu o tempo todo que Meryl Streep estava no filme. Gisele se interessou, mas fez um pedido: faria uma ponta desde que não fosse no papel de modelo. Pedido prontamente atendido ali no voo mesmo. Gisele é Serena, colega de Andy e Emily na Runway.

Os looks do filme

Coube à stylist Patricia Fields (Sex and the city e Ugly Betty) criar o figurino dos personagens de O diabo veste Prada. Fields diz ter seguido um caminho totalmente original, fugindo de referências de como se vestem editoras de moda na vida real. Depois da primeira conversa com Meryl Streep, Fields se lembrou das silhuetas de Donna Karan do início da carreira. As peças da estilista, garimpadas nos arquivos da marca, se tornaram, então, a base do estilo de Miranda. A partir daí, Fields adicionou outros designers aos looks.

Com Andy foi um pouco diferente. Fields tinha na cabeça que a assistente era uma garota Chanel, antes mesmo de conhecer Anne. A personagem era uma jovem com gosto por peças mais clássicas. Um dos looks preferidos de Fields é Andy de minissaia, botas thigh-high e um paletó em tweed com brasão e abotoamento transpassado.

Embora muita gente ache que o figurino do filme ficou tão datado quanto os celulares que aparecem em cena, Fields garante ter criado looks atemporais, inspirados em clássicos da moda.

Miranda Priestly por Meryl Streep

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O cabelo branco de Miranda foi ideia de Meryl Streep. Ela sabia que não seria algo fácil de negociar com os executivos do estúdio. O branco poderia ser confundido com grisalho. Por isso, Meryl fez questão dela mesma bancar a escolha.

Segundo o diretor David Frankel, foi a primeira vez que Meryl agiu como Miranda. Ela conseguiu impor sua versão da personagem e ninguém abriu a boca para contestar sua escolha.

Além do cabelo, a atriz adotou um tom de voz quase sussurrante nas falas de Miranda. A personagem é capaz de dizer coisas absurdas, sem alterar a voz. A inspiração, segundo a atriz, veio da atitude do ator e diretor Clint Eastwood, ao comandar um set de filmagem. Eastwood jamais eleva o tom de voz ao se dirigir à equipe. E, dessa forma, é extremamente respeitado pelas pessoas em volta dele.

Cerúleo é a cor mais quente

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Umas das cenas mais memoráveis do filme e que rendeu até memes é o discurso de Miranda sobre o azul cerúleo (ou da cor do céu), tonalidade do suéter de Andy nessa passagem do filme. A "aula" acontece depois da editora se irritar com o desprezo da assistente pela discussão em torno da escolha de uma tonalidade de azul.

Miranda parte para o ataque. Informa à assistente que o azul cerúleo representa milhões de dólares e inúmeros empregos na indústria. E que era cômico Andy pensar que a escolha da roupa partiu dela, como se não tivesse relação alguma com a indústria da moda. Se a assistente vestia o suéter azul cerúleo, era porque ele tinha sido escolhido por pessoas da sala de Miranda.

Sequência só em livro

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Lauren Weisberger tinha 26 anos quando O diabo veste Prada foi lançado. Com o sucesso do livro de estreia, ganhou muito dinheiro e logo sentiu a pressão para emplacar um segundo romance. Demorou dois anos para que isso acontecesse.

Hoje, aos 44 anos, Lauren é autora de sete livros. Entre eles, a sequência de O Diabo veste Prada. Em Revenge wears Prada (2013), Andy está de volta, uma década depois. Ela agora é editora-chefe de uma revista de noivas chamada The plunge. Tudo vai bem na vida de Andy, que está às vésperas de se casar. Mas eis que Miranda ressurge para atormentar sua vida novamente. Miranda trabalha agora para Elias-Clark, uma editora poderosa que está interessada em comprar a revista de Andy por muito dinheiro. Ao contrário do livro, Lauren nunca mais conversou com sua ex-chefe.

Os livros de Lauren depois de O diabo veste Prada são:
Everyone worth knowing (2005)
Chasing Harry Winston (2008)
Last night at Chateau Marmont (2010)
Revenge wears Prada (2013)
The singles game (2016)
When life gives you a Lululemons (2018)
Where the grass is green (2021)

O diabo veste Prada chega à Broadway

Demorou, mas aconteceu. Desde 2017, circulava a notícia da montagem de um musical baseado no filme. Mas agora a estreia tem data marcada. Será em Chicago, no dia 19 de julho. O espetáculo ficará em cartaz na cidade até meados de agosto e depois se muda para Broadway, em Nova York. Com músicas de Elton John, a montagem traz Beth Leavel no papel de Miranda, e Taylor Iman Jones no de Andy.

A história, entretanto, passou por uma revisão. "A equipe está tentando muito prestar homenagem a este querido filme, que as pessoas não param de assistir, e ao incrível romance de Lauren Weisberger. Mas também tenta refletir sobre as enormes mudanças no mundo da moda. Em particular, em termos de um sentido há muito esperado: o da inclusão", escreveu o autor da montagem, Paul Rudnick, no programa do espetáculo.

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