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"Te amo! Um bom dia, tô acordando aqui agora, tô indo lá pro trabalho (...) um bom dia de paz pra senhora, te amo, tá no meu coração, dá um abraço em minha vó e todo mundo aí!". Essa mensagem foi enviada por Cleiton Oliveira, de 22 anos, para a mãe, dando satisfações sobre suas idas e vindas. É uma das recordações que ela guarda do filho. É também o áudio que abre o videoclipe Cosmopolita, do rapper baiano Joab dos Santos Rodrigues, com direção criativa de Filipe Rodrigues – o segundo trabalho apresentado pelo ELLE Stories, uma curadoria de vídeos inéditos que você vai ver, em primeira mão, no nosso site.


Os irmãos Joab, 22 anos, e Filipe, 28 anos, são primos de Cleiton, jovem negro morto no ano passado pela polícia, no bairro em que nasceu, na periferia de Salvador. O videoclipe é uma homenagem a ele e a todos os jovens negros que tiveram trajetórias e sonhos interrompidos precocemente. "O clipe está conectado 100% com o que está acontecendo nos Estados Unidos. É um desabafo que poderia ser de George [George Floyd, homem negro asfixiado até a morte por um policial branco em Minneapolis], que fala por George, então, estamos muito conectados. Cleiton foi um George, Marielle foi um George. São mortes em circunstâncias diferentes, mas feitas pelas mesmas mãos, as mesmas já sujas de sangue", diz Filipe.

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Apesar da tragédia e da violência estarem na origem de Cosmopolita, o que se vê na tela são imagens da vida cotidiana na periferia, prosaicas e, muitas vezes, ternas. Enquanto Joab desfia a letra de seu rap (leia abaixo), alternam-se cenas de adolescentes fazendo manobras de skate, um dia de pescaria, crianças brincando, uma festa de aniversário. As imagens, captadas por celulares, foram coletadas de forma colaborativa, enviadas por vários amigos do rapper. Ao final, a tensão por trás das cenas banais se revela: tela preta, som de radiopatrulha, tiros e a estarrecedora informação de que 75% das vítimas de homicídio no Brasil são negras.

Em dados mais precisos, levantados pelo Atlas da Violência de 2017, 75,5% das vítimas de homicídio no Brasil são negras. Entre cada 100 mil negros brasileiros, aproximadamente 43 morrem assassinados. Entre os não-negros (brancos, amarelos e indígenas), essa taxa é de 16 homicídios para cada 100 mil pessoas.


foto PB de Filipe Rodrigues O diretor criativo Filipe Rodrigues: "Cleiton foi um George, Marielle foi um George".Foto Arquivo pessoal

Sem plano B

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Nascido em Salvador, no bairro de Cajazeiras, Filipe mora há três anos em São Paulo. Diretor agenciado da Thinkers, já trabalhou com nomes como Cláudia Leitte, Léo Santana e Ivete Sangalo, além de contar com algumas produções internacionais no portfólio. Antes de se jogar no audiovisual, Filipe foi técnico em informática numa farmácia de manipulação. Um dia, pediu demissão e investiu todo o dinheiro da rescisão na compra de uma câmera. "Quando saí do banco, olhei para meu colega e falei 'não tem plano B, man. Depositei o dinheiro para um cara que eu só conhecia via email, não sei se a câmera vai fechar, não tenho o que fazer'". A câmera chegou. E depois de muito book e foto de casamento, mil freelas, mil trutas, mil tretas, Filipe se inseriu no mercado, onde está há mais de dez anos.

Joab mora em Cajazeiras e trabalha como mecânico: "Faço os corres por trás da arte. Eu gosto de atuar, filmar, tirar foto, gosto de produzir umas paradas. Colocar umas roupas que eu goste. Em cima disso, mostrar pras pessoas que as coisas são possíveis, tá ligado?! Tipo fazer o simples e viver bem com o simples, até você alcançar o que você almeja. Mas, até então, você pode se contentar em viver o presente do que você acredita".

O repertório de influências de Joab é vasto: vai de Fela Kuti a Wu-Tang Clan, passa pelo rap underground e por pensadores como Martin Luther King e Malcolm X. Ainda sobra espaço para segmentos do rock e do punk, além, claro, de nomes nacionais como Facção Central, Jorge Ben Jor, Emicida, Criolo e Racionais MC's. Mano Brown, por sinal, segue o rapper no Instagram. Joab acha graça e atribui o seguidor famoso a uma coincidência do período em que os Racionais estavam prestes a lançar "Mil faces de um homem leal (Marighella)": "Eu acho que o Brown me seguiu sem querer. Na época, eu fazia stencil com a imagem de Marighella e postava", conta Joab. "Ele viu que eu era um revolucionário, hahahaha!"


Jovem de mascara com a inscricao ubuntu sentado num toco de madeira Joab: rapper junta influências que vão de Fela Kuti a Jorge Ben Jor, além de pensadores como Martin Luther King e Malcolm X.Foto Arquivo pessoal


Mas, acima de todas as influências, as trocas entre os irmãos foram fundamentais. Filipe e Joab nutrem uma profunda admiração mútua. "Quando vim pra São Paulo, Joab já estava começando a entrar na música e a onda do rap explodiu", conta o irmão mais velho. "Teve uma vez que fui a Salvador visitar meus pais e ele me apresentou essa música. Escutei e falei 'caramba, esse cara tem talento viu?'", recorda. Joab vê Filipe como um referencial e destaca a sintonia entre os dois: "Eu e Filipe temos um gosto, um olhar, a gente olha pras paradas e vê as coisas, tá ligado?! Mas ele já é punk, é monstro".

O clipe Cosmopolita traz uma nostalgia bacana de quem viveu o movimento hip-hop no Brasil no final dos anos 90 e início do ano 2000. Tem uma vibe que remete a um trecho de "Fórmula mágica da paz", um clássico do rap nacional, dos Racionais MC's ["Ninguém é mais que ninguém absolutamente, aqui quem fala é mais um sobrevivente. Eu era só um moleque, só pensava em dançar, cabelo black e tênis all star. Na roda da função mó zoeira. Tomando vinho seco em volta da fogueira. A noite inteira só contando história"].

É uma denúncia sobre as estruturas racistas que fundamentam esse país, mas vai além disso. Ele nos lembra que a arte é um pilar fundamentalmente responsável pela construção do imaginário coletivo. Seja para construir novas histórias, descolonizar olhares, quebrar estereótipos impostos para a manutenção de poder. Com imagens potentes, olhares diversos, plurais, Cosmopolita traz uma ruptura a respeito dos estereótipos construídos ao longo dos anos sobre existir como negro e suas subjetividades dentro do audiovisual. Esse vídeo é sobre três jovens negros da periferia de Salvador, construindo novas narrativas, trazendo olhares para que a sociedade se abra para um novo imaginário. Um imaginário onde pessoas negras podem ter igualdade de oportunidades, podem viver amores, se divertir e sonhar, sem medo. Um trabalho enriquecedor e imperdível.


Cosmopolita

(Joab)

Sei, tudo vem, tudo vai, sem regressar jamais

Tudo foi, nada mais

Perderam a cabeça, perderam ideais

Perderam o que tinham na caça dos reais

Perdoe-me pai, regai-me mais, singelo pecador jais

Inocente julgado culpado, jogado, ferido por homens banais

Que traz desordem aos seus semelhantes

Portando armas se achando gigantes

Acorrentei-me ao movimento e me colocaram de coadjuvante

Cada flow uma sintonia, cada mente uma odisseia

Prenderam-me na casa verde por causa de perturbadoras ideias

O pixador frustrado sem tela, eu frustrado pensando sem te-la

Alimentei-me do pólen das flores que encontrei no campo só pra não perdê-la

De vez em quando eu me pego, pensando no que faço e que erro

Percebo que a falta de amor é a conclusão dessa guerra de ego

E se todos fossemos cegos? O que julgaria?

Me trocou por um livro inútil mas ela me disse que a capa servia

Nao quero mais essa vida, eu parti-mi-ei dessa tirania

Apontaram o ladrão, não que ele era, mas pelo que ele vestia

Nesse mar de hipócrisia, todos cometem a iniquidade

O menor da favela procura a verdade, vive uma vida de curta metragem

Bota a jaqueta preta e foi pro corre cheio de maldade

Não voltou pra casa, foi pego na pista, a pista tá salgada, ficou até mais tarde

Ninguém sabe a verdade, conheceis e liberto serás

Ninguém vira sábio sem errar, ninguém vai pra frente sem ter o que deixar para trás

Preso por ideais, derrubei bastilha e dei a fuga de alcatraz

No egito antigo, há um tempo atrás, palavras de um profeta que nao morre mais

Tudo que é ruim te atrai, ao cair da noite são muitos convites, ela deita na cama e te pede mais

Te abraça e diz que te ama, que quer uma família e conhecer seus pais

Ao amanhecer, limpa sua carteira e te dar falsa paz

Basta saber escolher, por quem viver e pelo que morrer

Muitos que foram plantados e apodreceram antes de crescer

Não aguardou o tempo, quem se apressa na vida ela atrasa você

Muitos que foram sem saber, não queira ser mais um pra crer


Ficha Técnica

Director / DoP
Filipe Rodrigues

Creative Director
FIlipe Rodrigues

Visual effects
Bruno Zambelli

Sound Designer
Joab Rodrigues
Lucas Carvalho

Editor
Fr

Imagens
Gabriel Nogueira
Monga
Drê
Pierre

Agradecimentos
Mau Balostrada
Dricca Bispo
Pedro Zaki
Bia Musto
Tinhoso
José Elohim
Antonio Santiago
Samara Chaves
Emira Sofia
Geeli
Dj Moura
Ivete Ivas
Alfa
Deus
Valdineia Soriano
Leno Sacramento
Ednaldo
Regina
Gremory Lil Devil
Dikessom
Caroline Simas
Jade Alvez
Livia Latestaire
Pierre
Maristela Mazorca


Com a interpretação de artistas do Balé da Cidade de São Paulo, o diretor Manuel Nogueira traduz em dança e música a angústia e os questionamentos trazidos pela pandemia. O curta-metragem inaugura o ELLE Stories, uma curadoria de vídeos inéditos que você vai ver, em primeira mão, no nosso site.


Hanayrá Negreiros, em sua coluna mensal, costura e escreve sobre moda, memórias e futuros possíveis.


Com ajuda das artes e do pensamento crítico, a escritora Joice Berth traz em sua coluna um novo olhar para a pauta do dia.

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