Robin Givhan fala à ELLE sobre Virgil Abloh e como manter as portas abertas às novas gerações
A premiada jornalista participa do Summit Fashion System, no Rio2C.
Robin Givhan não gosta do termo “jornalismo de moda”. Para ela, jornalismo é jornalismo e ponto. Não importam a área ou a especialidade, os princípios e as premissas são os mesmos. Sua carreira começou no Detroit Free Press, jornal em que trabalhou como repórter por sete anos. Em 1995, depois de passagens por San Francisco Chronicle e Vogue, foi contratada pelo The Washington Post, publicação com a qual colaborou intermitentemente até o ano passado nas funções de editora e crítica de moda.
O escopo de suas matérias extrapola os desfiles de Nova York, Londres, Milão e Paris. Mais frequentes são as análises sobre o que personalidades políticas vestiram, os desdobramentos e significados dessas escolhas. Em 2006, ela se tornou a primeira – e até então a única – jornalista a receber um
Prêmio Pulitzer (o equivalente jornalístico do Oscar) por crítica de moda. Na ocasião, o júri descreveu seus textos como “ensaios sagazes e minuciosamente observados, que transformam a crítica de moda em crítica cultural”.
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Foto: Divulgação
Robin também é autora de A batalha de Versalhes (Zahar), de 2015, livro sobre a competição histórica entre estilistas estadunidenses e franceses nos anos 1970, e Make it ours (sem tradução no Brasil), de 2025, a biografia de Virgil Abloh, o designer, DJ, empresário e diretor criativo da Off-White e da linha masculina da Louis Vuitton, morto em novembro de 2021.
É sobre o mais recente lançamento que ela fala no Summit Fashion System, na abertura do evento Rio2C, em 26 de maio, no Rio de Janeiro. Será sua primeira vez no Brasil e na América do Sul. “Não fui antes porquenão falo espanhol nem português. São duas línguas completamente razoáveis
de esperar que alguém fale”, explica ela em entrevista exclusiva. O restante da conversa você confere a seguir.

Robin Givhan Foto: Kevin J. Miyazaki
Como o jornalismo apareceu na sua vida?
Foi por causa da minha mãe. No final dos anos 1980, quando eu estava me formando, todo mundo ia para a faculdade de direito ou para Wall Street. Tinha pensado em cursar medicina, mas isso ficou de lado. Estava considerando a advocacia. Fiz até vestibular para direito. Então, minha mãe perguntou por quê. Eu disse que queria ser advogada, e ela respondeu: “Se é realmente o que você quer, ótimo, mas lembre que você sempre amou escrever. Então, já pensou em fazer jornalismo?” Foi uma combinação de plantar a ideia na minha cabeça e dar permissão para perseguir algo que parecia mais criativo e menos corporativo.
E a moda?
Foi uma coincidência. Meu primeiro emprego foi no jornal da minha cidade natal, Detroit, em Michigan. Escrevi sobre o techno, que nasceu e foi forte lá, mas não estava focada em nada específico. Aí a editora de moda do jornal virou colunista e precisavam de alguém para substituí-la. Era um período
em que todos os jornais de médio porte do país tinham escritores dedicados à moda. Eles cobriam a indústria em Nova York e na Europa. Parecia um assunto interessante e eu queria ter uma especialidade. Pensei: “Ah, eu uso roupas. (risos) Por que não? Vou me candidatar e ver no que dá”.
O que a fez continuar?
Não consegui o emprego dela. Consegui um abaixo, para cobrir moda masculina. Foi um ótimo começo porque era uma parte menor da indústria, não mudava tão rapidamente quanto a feminina e era mais acolhedor. Estilistas e assessorias ficavam felizes em receber você. Aprendi como tudo funcionava, como os designers escolhiam os tecidos, como era a produção. Continuei porque é uma indústria fascinante. Ela inclui entretenimento, personagens maravilhosos, é um negócio global, pode refletir cultura, identidade, política, etnia. Dá para escrever sobre qualquer coisa pelas lentes da moda.
“É uma indústria fascinante. Inclui personagens maravilhosos, pode refletir cultura, identidade, política, etnia. Dá para escrever sobre qualquer coisa pelas lentes da moda.”
Seus dois livros, A batalha de Versalhes e Make it ours, exploram o funcionamento interno da moda e enfatizam como esse setor é suscetível a fatores externos. De onde vem o interesse por essa abordagem?
Uma grande parte vem de como cheguei à moda. Eu não era uma pessoa apaixonada pelo assunto, então mantive distância. Também me intriga como a moda se encaixa na cultura de forma mais ampla: como algo que acontece na política ou na sociedade impacta a aparência das nossas roupas e como nos vestimos. E quase toda a minha carreira foi em publicações de interesse geral. Sempre fui consciente de que meu público não é só o núcleo da moda. Há pessoas que podem esbarrar por acaso nos meus textos, há gente que realmente detesta moda, há quem se interesse, mas não se sente bem-vindo. Quero trazer todos para a discussão. Então tento oferecer um ponto de entrada, que pode ser por meio de tecnologia, esporte ou o que for.
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