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A cada novo álbum, St Vincent assume uma nova imagem, para não dizer uma nova persona, da estética quase romântica de Marry me (2007) à dominatrix de MASSEDUCTION (2017). Em seu mais recente trabalho, Daddy's home, com lançamento marcado para 14 de maio, ela buscou inspiração nos anos 70, nos filmes de John Cassavetes, nas atrizes Gena Rowlands (mulher do diretor) e Candy Darling, que atuou em filmes de Andy Warhol e a quem presta homenagem na capa do disco.

Musicalmente, o álbum também bebe da mesma década, como mostra o primeiro dos dois singles liberados até aqui, "Pay your way in pain". O título do disco não é gratuito: o trabalho é inspirado na saída do pai de St. Vincent – ou Annie Clark, 38 anos –, da prisão, após dez anos, por um esquema milionário de manipulação de ações. "A história é tão problemática, mas a parte musical foi muito divertida de fazer", contou à ELLE por uma ligação de Zoom. "Não estou procurando por simpatia, só estou tentando contar a situação com humor e compaixão."

Daddy's home é o sexto trabalho da cantora, compositora, guitarrista e produtora estadunidense. Vincent, que já dividiu um disco com David Byrne (Love this giant, 2012), esteve duas vezes no Brasil. Em meio à pandemia, ela se dividiu entre consertos em sua casa, a finalização do álbum, a apresentação de um podcast (Shower sessions), uma masterclass sobre composição e um remix para Paul McCartney, de quem recebeu uma ligação inesperada em uma sexta-feira à noite. Recentemente, ela também atuou ao lado da amiga Carrie Brownstein (Sleater-Kinney) em The nowhere inn, mocumentário exibido em Sundance no ano passado. "Os paralelos entre a atuação e a música são fortes: ouvir, reagir, estar presente. Adoraria fazer mais disso, é bem divertido."

Na entrevista a seguir, ela passa por esses temas, fala também sobre os primeiros meses do governo Biden, das suas vindas ao Brasil e das referências estéticas de Daddy's home:

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Como foi o último ano para você em meio à pandemia?

Felizmente, ninguém da minha família ou amigos ficaram doentes. Para ser sincera, é a primeira vez que paro em uma década. Inicialmente, fiquei bem ansiosa por estar em um único lugar. Mas depois, eu meio que me adaptei a isso e usei o tempo da forma mais construtiva possível. Aprendi a mexer no encanamento e em drywall. Se você tiver alguma sala na sua casa que precise de pintura...

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Acho que eu tenho. (risos) Mas você fez outras coisas além de um álbum: apresentou um podcast, deu uma masterclass sobre criatividade e composição. O que achou dessas experiências?

Os dois foram muito divertidos. Com o podcast, tive que fazer novas versões de velhas canções e reinventá-las. E não é sempre que você tem que pensar sobre o que sabe e em como apresentar isso em um masterclass. Também fiz algumas colaborações: um cover de Nine Inch Nails e um remix para Pau McCartney.

Mas fazer um álbum te ajudou a passar por esse período?

Me deu algo para focar todo o dia. Fiz metade do álbum antes da quarentena, sabia o que era, os instrumentos, a vibe, a paleta de cores. Era só uma questão de mergulhar (no material), ter certeza que todas as canções eram ótimas e escrever novas.

Você teve receio de abordar um tema tão pessoal como a saída de seu pai da prisão? Nem todo artista falaria sobre isso...

Decidi falar sobre esta parte autobiográfica porque essa história já havia sido contada um pouco pelos tabloides (na época em que ela namorou a modelo Cara Delevingne), mas nunca contei a minha versão. Não estou procurando por simpatia, só estou tentando contar a situação com humor e compaixão. O disco é sobre pessoas que falharam tentando fazer o seu melhor para sobreviver, como eu e como todo mundo. Fui cada personagem sobre o qual escrevi. Queria fazer novas canções com sons antigos e contar histórias de pessoas que passaram por dificuldades.


St. Vincent - Pay Your Way In Pain (Official Video) www.youtube.com


Falando nisso, "Pay your way in Pain", single do disco, é influenciado pelo funk. A sua playlist de inspiração para Daddy's home tem muitos nomes dos anos 70. Como essa influência surgiu neste álbum?

Fui muito influenciada pela música que estava acontecendo em Nova York de 1971 a 1976, pré-disco e pré-punk. Artistas como Stevie Wonder e Steely Dan estavam fazendo este rock, infundido pelo soul, funk e jazz. Era uma época de muita sofisticação nas músicas, nas harmonias. Voltei para este período porque ouvi esse tipo de música mais do que tudo na minha vida, mas nunca mergulhei realmente nisso ou toquei esse tipo de som.

Esteticamente, você parece assumir uma nova personalidade a cada novo álbum. Daddy's home faz um tributo a Candy Darling. O que fez você escolhê-la?

Uma das coisas que amo em Candy Darling é que ela é muito glamourosa. Mas ao mesmo tempo é como se ela carregasse uma faca em seus saltos. Ela é durona de um jeito tão cool. Estava pensando em Candy Darling, (na atriz) Gena Rowlands e nos filmes John Cassavetes (com quem Gena foi casada). Um glamour que está no ar há três dias e usa esmalte barato.

Como você se prepara para um álbum, visualmente? Trabalha com algum stylist?

Eu quero que toda a parte visual do álbum conte a história da música. O que é divertido para mim é que posso ser outra pessoa a cada disco. Faço moodboards.

Jura?

Claro! Vocês precisa fazer moodboard para decidir "não é isso, é aquilo". Há muita Candy Darling, Gena Rowlands e (a modelo) Lauren Hutton neste moodboard. Com minha amiga Avigail Collins, refino isso. Me juntei ao meu time criativo para falar: "É este tipo de maquiagem, de cabelo, é a assim que deve ser". De novo: um glamour que não dorme há três dias. Tudo no look deve contar a história da música.

Você participou de McCartney III Imagined. Já era uma fã de Beatles? Teve a chance de conversar com McCartney sobre a faixa que remixou?

Eu sou uma grande fã de Beatles. Não sei se confio em alguém que não é fã deles. Quem são essas pessoas? Elas escondem cadáveres em seus jardins? Era uma sexta-feira à noite quando vi um +44 (código internacional da Inglaterra) no meu telefone. Achei interessante. Atendi e era Paul McCartney do outro lado da linha. Ele foi tão adorável, soou exatamente como Paul McCartney, disse o que você imagina que ele diria, bem-humorado. Depois que desligamos, ri de espanto.


Foto: Divulgação/Zackery Michael


Você está lançando um álbum e o futuro dos shows e festivais está incerto. Como você tem lidado com isso e vê este cenário?

Estou morrendo para tocar ao vivo novamente. Não há nada que possa substituir aquele tipo de comunhão, de energia e troca entre as pessoas. É por isso que as pessoas vão à igreja. Não há nada que possa substituir isso. Acho que pelo fato disso ter sido tirado de nós por um ano só vai nos fazer apreciar mais ouvir música ao vivo. Ficarei tão feliz em tocar novamente para as pessoas que provavelmente vou chorar na primeira vez que estiver em um palco depois disso.

Você já veio duas vezes ao Brasil, tocando no Lollapalooza. O que você guarda do país?

Eu amo o Brasil. Na última vez que estive (em 2019), toquei em um clube pequeno (Cine Joia, em São Paulo) antes do Lollapalooza. A plateia era tão carinhosa, estava tão tocada que comecei a chorar – não foi um choro feio. Estava a 12 horas de onde venho, em outra parte do mundo e todo mundo cantando junto em um língua que não é nem a sua primeira.

Como você avalia esses primeiros meses de governo Biden?

Parece que ele governa como um bêbado. Todo dia era um novo caos. Pessoalmente, não sou uma fã de Trump. Acho que os Estados Unidos estão se recuperando um pouco do caos. A vacina está finalmente se desenrolando. Há uma ajuda a caminho para as pessoas em termos de estímulos (econômicos). Há muito trabalho para se fazer em termos de igualdade social, racial. Parece que há um caminho para a palavra.

Quais são seus planos para os próximos meses?

Vou tocar no Saturday Night Live e provavelmente fazer versões ao vivo das novas músicas. Não há um lugar para ir e tocar... Acho que vou fazer mais músicas e videoclipes. E sonhar com quando tudo isso se normalizar.


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