Cultura

Três peças online para você assistir em casa

Alessandra Negrini, Fabiana Gugli e Luis Lobianco encenam "A árvore", "Terra em trânsito" e "Macbeth 2020"

Foto: Divulgação/Heloisa Andersen
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Saudades de um terceiro sinal, né, minha filha? Desde março de 2020, a pandemia imobiliza quem gosta de teatro em um eterno entreato. Algumas cortinas voltaram a se abrir por um período breve no apagar das luzes do ano passado (no Rio, em setembro; em São Paulo, em outubro), mesmo que com restrições de lotação.

Mas o repique da Covid-19 no começo de 2021 mais uma vez trancafiou salas país afora. Para companhias e profissionais da cena, a solução foi produzir versões filmadas de espetáculos, ora captadas ao vivo a cada apresentação, ora rodadas de uma só tacada, editadas e compartilhadas em sites e plataformas online –o que, a bem da verdade, as distancia da vertigem do teatro, onde o erro iminente, a possibilidade do tropeço, a irrupção de um ruído indesejado, o "branco" paralisante do ator são ingredientes essenciais.

Enquanto esperamos a chance de voltar a testemunhar presencialmente a vulnerabilidade sublime de atores largados à própria sorte em um palco, vamos aproveitar a contribuição que a tecnologia oferece para preencher um pouco o vazio de corações teatrófilos. Anote aí três dicas de peças online para você assistir em casa:

Terra em Trânsito - Comercial www.youtube.com


Terra em trânsito

Quinze anos depois da primeira montagem, que consagrou a atriz Fabiana Gugli como nome incontornável da cena paulistana, ela e o diretor Gerald Thomas revisitam o retrato delirante, mas cheio de ternura e empatia, de uma cantora lírica esperando o momento de entrar no palco para interpretar uma ária de Tristão e Isolda. Na solidão do camarim – agora montado na casa de Gugli e decorado com objetos e figurinos que marcaram sua carreira até aqui –, a protagonista tem por companhia apenas um ganso, que ela alimenta compulsivamente a fim de transformar em foie gras em boa hora. Nesse revival, os espelhos da encenação original viram a lente da câmera. É a ela que a artista se dirige para enfileirar inquietações sobre a profissão, imprecações contra Donald Trump (George W. Bush era o algoz em 2006) e devaneios de toda ordem. É também esse olhar indiscreto da máquina-público que flagra as pílulas que a cantora consome compulsivamente para aplacar a ansiedade. O cenário mudou, o texto sofreu ajustes e atualizações, mas o ritmo febril da escrita de Thomas, que liquidifica humor, comentário social, metateatro, escatologia e cultura pop, permanece intacto, assim como o deleite com que Gugli avança em direção ao abismo que terminará por tragar sua personagem.

Sábados e domingos, às 20h. Até 25 de abril. Depois, o filme-peça fica disponível de 1º a 31 de maio
Onde ver: bit.ly/terraemtransito
Grátis

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Foto: Divulgação/Heloisa Andersen


A árvore

Uma das autoras mais interessantes do teatro brasileiro há pelo menos 15 anos, a mineira Silvia Gomez chega ao seu sétimo texto encenado com A árvore, que é também seu primeiro monólogo e a estreia da atriz Alessandra Negrini em voo solo. Um dos traços marcantes da dramaturgia de Gomez é a intromissão do insólito, do fantástico, o gosto por desvios repentinos para o surreal em tramas à primeira vista prosaicas. A nova criação não trai essa inclinação: depois de sofrer um grande baque, a personagem principal começa a se transformar em planta. A inspiração veio de uma imagem (novamente) simples na superfície: um fio de cabelo preso a uma planta. A partir desse estalo inicial, o estofo veio de livros e pesquisas que se debruçam sobre a inteligência e os sentimentos dos seres vegetais, como os apontamentos reunidos em Revolução das plantas, do italiano Stefano Mancuso. A questão que atravessa o teatro de Gomez como um refrão ressoa mais uma vez aqui: como um deslocamento, um movimento para fora de nós mesmos pode revelar quem de fato somos?

Sexta e sábado, às 20h; domingo, às 19h; até 18 de abril
Onde ver: www.teatrofaap.com.br
R$ 30


Bastidores www.youtube.com


Macbeth 2020

Além de ser uma das tragédias mais conhecidas de Shakespeare, Macbeth é a mais temida por atores. Pudera. Com mais ou menos pitadas de imaginação, o folclore em torno da peça inclui incêndios em cena aberta, incidentes com cenários, assassinatos reais diante de plateias estupefatas. Por isso, muitos só se referem a ela como "a peça escocesa", esquivando-se de pronunciar seu nome oficial. Tomando como ponto de partida essa mitologia macabra, o ator Luis Lobianco – que o grande público conhece de vídeos do Porta dos Fundos e de humorísticos como Vai que cola – resolveu brincar. Aqui, ele interpreta sete tipos inspirados em arquétipos (ou figuras-clichês) da cena teatral. Na galeria, estão o ator inglês de formação clássica, a diretora que gosta de performances viscerais e o performer vanguardista consumido pela própria ego trip. Todos tratados sem condescendência, com um humor ácido temperado de afeto. Construído como um documentário de tintas sensacionalistas, o espetáculo alterna os depoimentos desses personagens sobre os perrengues vividos na tentativa de encenar suas versões da peça escocesa com trechos do texto em si. Ator de muitos recursos, Lobianco transita com habilidade entre a comicidade aloprada de suas criaturas e a atmosfera lúgubre do original.

Disponível até 30 de maio
Onde ver: http://www.sympla.com.br/macbeth2020.
Gratuito



A atriz de longas como O Som ao redor e Aquarius conta quais as séries, filmes, peças, discos, cantores e shows que a marcaram profundamente, de Emicida a Lovecraft country.




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