Viola Davis encarna guerreira amazona em “A Mulher Rei”

Capa da ELLE Volume 09, atriz interpreta general de um exército feminino em filme que tem tudo para causar nas garotas negras o efeito que Pantera Negra provocou nos meninos.


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“Sublime”. “Magnífica”. “Estupenda”. Desde que A mulher rei realizou sua première no Festival de Cinema de Toronto (Canadá), na semana passada, a imprensa se derrama em elogios à atuação de Viola Davis neste longa de ação, que estreia no Brasil na próxima quinta-feira (22.09).

A presença da atriz, capa da ELLE Volume 09, impressiona – como, aliás, em todos os filmes em que ela atua. Mais do que a interpretação, no entanto, a imagem poderosa que Viola imprime à guerreira Nanisca, general que comanda um exército de mulheres, tem tudo para causar nas garotas negras o efeito que o protagonista de Pantera Negra provocou nos meninos. É possível, finalmente, que elas se vejam como super-heroínas.

“Quando comecei a trabalhar nesse projeto, alguém me disse que fazia muito sentido eu estar envolvida na produção, pois mulheres negras retintas sempre interpretam ‘guerreiras e lutam usando os músculos’. Eu respondi: ‘Sério? Quando você viu isso?’. Eu não vejo dessa forma, por isso, A mulher rei é o meu protesto, minha revolução. É a minha forma de gritar para o mundo que existo”, disse Viola em entrevista à ELLE em Los Angeles, em agosto passado, logo após o shooting feito para a revista.


A Mulher Rei | Trailer Oficial | Em breve exclusivamente nos cinemas

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Em busca de representatividade, Viola escolheu uma das mais fascinantes histórias africanas, a das Agojie, exército feminino que compunha as forças do rei Guezo no império de Daomé (atual Benin, ao oeste do continente), no século 19. O imaginário sobre as “amazonas de Daomé”, como são conhecidas, é tão potente que sobreviveu ao tempo. Seus feitos se espalharam por outros continentes com a diáspora africana e sua atuação inspira discussões sobre o evidente pioneirismo do feminismo na África. É tal a fama dessas personagens que, em julho passado, tornou-se viral a imagem de uma estátua gigante de uma guerreira esculpida em bronze, que acabara de ser instalada na Esplanada das Amazonas, em uma praça no centro da capital Cotonou, no Benin.

Com tantos ingredientes instigantes, as roteiristas Dana Stevens e Gina Prince-Bythewood criaram uma aventura que mescla ficção com referências históricas e contemporâneas, na produção dirigida por Gina (A vida secreta das abelhas), com elenco formado quase que exclusivamente por atrizes e atores negros – entre eles, John Boyega, Sheila Atim, Thuso Mbedu e Lashana Lynch.

A intensa abertura dita o ritmo de A mulher rei, numa cena que funciona para deixar o público em estado de atenção. Do meio de um campo escuro, aparentemente deserto, aparecem de repente dezenas de mulheres vestidas com roupas de couro e adornos de búzios, espadas em punho, prontas para atacar. A luta é sangrenta. Cabeças rolam, sangue esguicha, casas pegam fogo. As Agojie são cruéis.

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Fotos: Divulgação

É junto delas, numa fortaleza ao lado do rei (e de seu harém), que vai parar Nawi (a atriz Thuso Mbedu, da série Underground Railroad), jovem que, por recusar o casamento arranjado com um homem mais velho, é condenada a tornar-se uma guerreira. “As Agojie eram consideradas sem importância”, diz Viola. “Elas tinham a pele mais escura, eram vistas como pouco atraentes e indisciplinadas. Não tinham permissão para se casar, ter filhos, fazer sexo. Ser guerreiras deu a elas uma identidade num mundo que as rejeitou. Elas usaram isso para lutar, para viver, para se conectar e para ter importância.”

Conexão brasileira

Como todos os personagens interpretados por Viola, Nanisca tem múltiplas camadas. Ela é cruel, mas guarda um segredo que revela suas fragilidades. Ao mesmo tempo em que ataca em nome do rei, demonstra senso ético, questionando o monarca sobre a violência interna causada pelo comércio de africanos escravizados para a América – ao qual Guezo era favorável, apesar de ter sido ele próprio vítima desse sistema. Antes de ascender ao poder, após a morte de seu pai, o futuro rei foi traído pelo irmão, que o prendeu, vendeu sua mãe, Nã Agotimé, para traficantes e assumiu o trono.

Aqui, é necessário um parênteses que faz de A Mulher Rei uma obra relevante para a história da escravidão no Brasil. Segundo a tradição oral, Nã Agotimé teria sido enviada ao país e seria a fundadora da Casa das Minas, terreiro de tradição matriarcal, chefiado por mulheres, em São Luís (Maranhão) – hoje tombado pelo Iphan. Após dar um golpe de Estado e retomar o trono com a ajuda do traficante de escravizados Francisco Félix de Souza, Guezo teria pedido a esse baiano de pele clara que o ajudasse a encontrar sua mãe – não há documentos comprovando se ele conseguiu encontrá-la ou não.

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No longa, a figura do poderoso Francisco Félix (um dos traficantes de escravizados mais ricos do Brasil) inspira dois personagens, os únicos com tom de pele clara do elenco, um português e um brasileiro, filho de uma mulher negra e de um branco, o que o leva a ser tratado como um cidadão de “segunda classe” pelo parceiro no tráfico.

Black Lives Matter

O feminismo de A mulher rei vai além da trama. O filme é também interpretado, dirigido, escrito e coproduzido por mulheres – entre elas, a própria Viola, em parceria com o marido, o ator Julius Tennon. “Chegamos em um ponto de nossas carreiras em que queremos ter livre arbítrio sobre as narrativas e ver imagens que de fato reflitam quem somos, e não a fantasia de um olhar masculino. Esse filme é um reflexo disso”, diz Viola. Não à toa, ainda que os corpos bem torneados das atrizes estejam em exposição o tempo todo, eles não são explorados como um objeto de desejo sexual – as cenas românticas, aliás, são totalmente dispensáveis.

Por fim, a exemplo de outras produções pós-Black Lives Matter, A Mulher Rei se apropria de heroínas contemporâneas em suas homenagens finais. Para saber quem, dobre a atenção nas últimas cenas.

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Viola Davis na capa do volume 09 da ELLE Brasil. Clique aqui para fazer sua assinatura ou comprar o exemplar avulso.Fotos: MAR+VIN

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