Zanele Muholi ganha exposição em São Paulo
Artista da África do Sul usa a fotografia para reescrever a história visual da comunidade negra e queer.

Em seu livro Diante da dor dos outros, a escritora e ensaísta estadunidense Susan Sontag (1933-2004) observa que a guerra e a fotografia são atividades congruentes, pois há uma identificação irreprimível entre a ação de disparar a câmera para determinado tema e a arma em direção a um ser humano. Zanele Muholi, cujo trabalho estará no Instituto Moreira Salles de 22 de fevereiro a 22 de junho, na maior retrospectiva sobre sua obra na América Latina, vem atualizando essa ideia e já declarou que usa a câmera deliberadamente como uma arma de combate.
Como se vê na exposição em cartaz até 26 de janeiro na Tate Modern, em Londres, e na mostra em São Paulo, com trabalhos que vão desde o início de sua trajetória até produções inéditas, a prática de Zanele está voltada para a reescrita de uma história imagética negra e queer na África do Sul, onde nasceu. Nela, o dispositivo fotográfico é uma ferramenta poderosa para que a própria comunidade LGBTQIA+ se torne a protagonista na construção das imagens e decida a realidade que quer mostrar. Por isso, Zanele, que é uma pessoa não binária, prefere o termo ativismo visual, em lugar de fotografia.
Imagem realizada na Suécia, em 2015
Nessa experiência, em que poderia existir violência, há sobretudo afeto e colaboração. Os retratados não são vistos como representantes de um tema, mas como colaboradores na formação de um arquivo comum no qual as imagens, assim como as vozes, são tão importantes quanto o olhar de quem fotografa. Na série Faces e fases, que começou a ser desenvolvida em 2006 e foi exibida na Bienal de São Paulo de 2010, por exemplo, os retratos vêm muitas vezes acompanhados de depoimentos.
LEIA MAIS: INDICADO A DEZ OSCARS, “O BRUTALISTA” TRAZ O PASSADO PARA ENTENDER O PRESENTE
“Lutei e mostrei a muitos que não há nada de errado em ser diabética, epiléptica e HIV/ Representei muitas das irmãs lésbicas infectadas pelo HIV/ Disse a verdade, não importam os julgamentos (…) Eu mostrei ao meu estuprador o quão forte eu era/ Independentemente de ele ter envenenado meu sangue com seu HIV”, escreve a poeta e ativista Busi Sigasa (1981-2007) em Remember me when I’m gone (Lembre-se de mim quando eu partir) – ela morreu um ano depois de ser fotografada por Zanele.
O depoimento que acompanha o retrato de Lungile Dladla, por sua vez, narra como, em um piscar de olhos, poucas horas após o funeral de sua tia, ele foi abordado por um homem que o levou para um campo e o estuprou para livrá-lo “dessa homossexualidade”. Seu texto, intitulado I am not a victim but a victor (Não sou uma vítima, mas um vencedor), é um exemplo de como os retratos e relatos individuais, dentro da série Faces e fases, podem se transformar em uma experiência coletiva, constituindo um verdadeiro álbum de família, no qual quem fotografa também aparece entre as pessoas retratadas.
Autorretrato de 2016, feito na África do Sul
LEIA MAIS: 6 EXPOSIÇÕES EM SÃO PAULO PARA VISITAR EM FEVEREIRO
Aos 52 anos, Zanele faz parte de uma geração que participou da primeira votação multirracial da África do Sul, quando Nelson Mandela foi eleito presidente, em 1994. Dois anos depois, viu seu país sancionar a primeira constituição do mundo a proibir discriminação com base na orientação sexual. Nesse contexto, a fotografia aparece não só como a possibilidade de se ver refletida em um novo momento da democracia, mas como um registro do abismo que separava as leis no papel da realidade do dia a dia.
Seu ativismo visual, dessa maneira, sempre foi uma estratégia de sobrevivência, pois, enquanto direitos passaram a ser assegurados, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 2006, os crimes de ódio continuaram aumentando na África do Sul. Por isso, em Apenas meio quadro (2003-2006), Zanele registra situações de intimidade ao lado de outras cenas que documentam eventos traumáticos – seu foco nas fotos está principalmente na textura da pele e em suas cicatrizes. Nessa série, há também a ideia de ouvir a experiência das pessoas e os desafios de subverter a dor para transformá-la em celebração da existência LGBTQIA+. É uma postura que se torna ainda mais nítida em trabalhos como Ser (2006) e Belezas corajosas (2014), que estão ainda hoje em desenvolvimento e trazem, respectivamente, casais em momentos de rotina e mulheres trans e pessoas não binárias posando como se estivessem em capas de revistas de moda. Muitos dos participantes de Belezas corajosas, inclusive, são concorrentes de concursos de beleza queer, um espaço de resistência e no qual Zanele chegou a concorrer (e ganhou o segundo lugar), em 1997.
Bester II, autorretrato de 2019, que faz referência ao trabalho da mãe de Zanele como empregada doméstica
Em todas as suas séries fotográficas, o processo é colaborativo e os envolvidos determinam onde e como querem ser retratados. É por isso que, em sua passagem por São Paulo, por ocasião do Festival Zum (um evento voltado à fotografia promovido pelo IMS), em novembro passado, antes de dar continuidade à série Faces e fases, Zanele quis primeiro se aproximar da realidade brasileira, visitando tanto organizações como a Ocupação 9 de Julho, o Museu da Diversidade Sexual e o Museu Afro Brasil quanto espaços de acolhimento à comunidade queer, como a Casa 1 e a Casa Chama.
Nesse período, apresentou seu trabalho a quem não o conhecia e também ouviu uma infinidade de relatos. Somente após essa troca, fez o convite para quem quisesse participar de suas sessões de fotos. “Há uma relação de afeto que é construída para as fotos, mesmo que seja rápida”, explica Daniele Queiroz, que assina a curadoria da exposição no IMS ao lado de Thyago Nogueira e Ana Vitório. “E também há um convite à ação das próprias pessoas, que são protagonistas da imagem e escolhem como querem aparecer”, completa.
Quando Zanele fotografa os outros, procura enxergar quem está à sua frente como se estivesse vendo a si. “Sei como é difícil para outras pessoas estarem em fotografias ou serem fotografadas. Então, quando fotografo, as pessoas diante de mim são basicamente eu”, diz. “São seres humanos, com seus sentimentos, assim como os meus. E não fotografo de fora, por isso continuo dizendo às
pessoas que sou uma delas. Ou uma de nós, se é possível dizer assim.”
Para Somnyama Ngonyama (salve, leoa negra), sua série de autorretratos iniciada em 2012, a principal inspiração foi sua mãe, Bester Muholi, morta em 2009 e a quem lembra como um exemplo de força, coragem e resiliência. Os pregadores de roupa que utiliza em Bester I, Mayotte (2015), por exemplo, são uma referência direta ao trabalho doméstico que ela realizou por 42 anos, antes de ser forçada a se aposentar em decorrência de problemas de saúde.
Os exemplares dessa série são quase todos nomeados em sua língua materna, um jeito de incorporar o zulu à prática fotográfica e se expressar em um idioma que é realmente africano. É também sua forma de reparação à opressão linguística praticada durante o Apartheid (1948-1994), já que, para Zanele, a linguagem, visual ou escrita, será sempre um ato de resistência.
LEIA MAIS: PATTI SMITH: “NÃO SE PREOCUPE, VAI DAR CERTO, VAMOS DAR UM JEITO”
Para ler conteúdos exclusivos e multimídia, assine a ELLE View, nossa revista digital mensal para assinantes