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Na varanda de 10 metros quadrados de seu apartamento, em São Paulo, João A. Fladt Queiroz, construtor de biomas e consultor de sustentabilidade, cultiva cerca de 70 espécies de plantas ornamentais, ervas e temperos. Mais do que isso, ele tem ainda seis tipos de abelhas sem ferrão, nativas do Brasil, em caixas de madeira próprias, que funcionam como colmeias.

Esse refúgio verde ainda não permite que João use 100% de alimentos frescos cultivados por ele, mas os benefícios que a iniciativa traz vão muito além da sua casa. O pequeno jardim foi pensado para potencializar um dos processos mais essenciais para a geração e a manutenção da vida: a polinização.

Os principais responsáveis por isso são os insetos, entre eles, as abelhas nativas e exóticas, que transportam pequenos grãos de pólen até as flores e plantas, garantindo sua reprodução e a produção de frutos. Esses pequenos animais têm papel fundamental na agricultura, como mostra este relatório da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e da Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (Rebipp).

O uso de pesticidas, as mudanças climáticas e a degradação dos habitats dos agentes polinizadores, no entanto, têm reduzido a quantidade e a diversidade desses insetos, principalmente das abelhas. O assunto é motivo de preocupação mundial e já virou tema de filmes e documentários. Não à toa, a criação de abelhas sem ferrão e o incentivo à polinização vem despertando interesse cada vez maior também entre não especialistas, que se empenham em contribuir para manter vivo esse ciclo, ainda que em menor escala, em pequenas hortas e jardins urbanos.

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Jardim florido com caixas de abelhas As caixas de abelhas já viraram parte da decoração da varanda da casa de João, em São Paulo.Foto: João A. Fladt Queiroz

Jardim florido com duas caixas de abelhas

Nascido em uma família de fazendeiros e formado em administração de empresas, João sempre gostou de estar próximo à natureza. O contato com a meliponicultura – a criação de abelhas sem ferrão – se intensificou quando ele atuou como consultor na área de pesquisa e planejamento estratégico para uma marca de cervejas artesanais, cuja campanha abordava o problema da extinção das abelhas. Há cerca de dois anos, ele integra a diretoria de jovens líderes e novas tecnologias na Sociedade Rural Brasileira, além de coordenar projetos de jardins sustentáveis, feitos majoritariamente com espécies brasileiras e potencializados pela criação de abelhas sem ferrão.

Para quem quer entrar nesse mundo, o primeiro passo é conhecer as plantas importantes para a atração e alimentação dos polinizadores em áreas urbanas, explica o consultor de sustentabilidade: "Para ter abelhas sadias em casa, você precisa de um mix de plantas que terá floração o ano todo". A partir daí, você pode decidir entre manter espécies de plantas variadas e deixar que polinizadores "visitantes" façam seu trabalho de maneira espontânea ou montar uma estrutura para as abelhas sem ferrão. A vantagem dessa segunda alternativa é que você tende a potencializar o processo de polinização, o que, por sua vez, ajuda a ter um jardim mais florido – e habitado só por inofensivas abelhas sem ferrão.

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João e as abelhas: "Jardins verdes urbanos podem ajudar muito os insetos polinizadores e estimulam a floração das espécies.Foto: Arquivo pessoal


Não espere, entretanto, que uma criação de abelhas vá render litros e litros de mel. João já consegue extrair mel e pólen de suas caixas de abelhas, mas explica que isso exige certa prática (ele indica aqui um material para consulta sobre aproveitamento integral das caixas). Muitas pessoas que aderem ao hobbie não estão focadas na obtenção de mel. Vale pela curtição de ter um cantinho florido, colaborar com a polinização e acompanhar a natureza em ação. A seguir, confira as dicas para montar sua horta, canteiro ou jardim polinizador, com ou sem abelhas próprias.

Dicas para uma horta polinizadora

O local
Escolha a área mais ensolarada da sua casa: hortas, usualmente, precisam de muita iluminação.

A seleção das espécies
Ao definir o mix de espécies que será plantado, leve sempre em consideração:
- A quantidade de luz disponível no ambiente.
- A quantidade de vento.
- Sua disposição de regar a horta.

As plantas a seguir se adaptam bem ao contexto urbano e atraem tanto abelhas passageiras ou próprias, sem ferrão. A lista contempla a meta de uma plantação melípona anual – basicamente, a ideia é ter flores na sua horta ou jardim o ano todo e, para isso, variedade é essencial. Escolha de acordo com a época de floração delas em sua região.

Manjericão
Cúrcuma
Jambu
Erva-doce
Cebolinha
Girassol
Ora-pro-nóbis
Maracujá
Pitangueira
Jabuticaba
Goiaba
Araçá
Capixingui
Lantana
Coentro
Funcho
Calêndula
Tomate

Vá de orgânico!
Prefira mudas orgânicas (sem agrotóxicos ou adubo químico no cultivo). João indica o site Sabor de Fazenda para mais informações.

Capriche na base
A coisa mais importante para uma horta ou para qualquer planta é o solo. Ele funciona como um sistema imunológico e digestivo para as plantas. Fazer com que trabalhem em harmonia é 70% da solução. Para um solo de horta, é sempre bom ter 2 partes de composto, 1 parte de húmus de minhoca e 1 parte de areia. A horta não gosta de bases molhadas demais, então, o solo tem que ser drenado.

Paciência
Após tudo plantado, o bioma – conjunto de vida vegetal e animal –, deve estar funcionando de maneira orgânica dentro de 2 meses.

Abelha uruçu amarela.Foto: João A. Fladt Queiroz


Quer criar suas próprias abelhas?

Se fossem consideradas pets, as abelhas estariam entre os bichinhos mais sensíveis. Sim, elas se alimentam sozinhas e você não precisa limpar a sujeira delas, porém é preciso monitorar a temperatura, o vento, o sol, a disponibilidade de comida, entre outros fatores. Veja alguns cuidados abaixo.

A horta
Os fundamentos para montar a horta são os mesmos para a versão com ou sem abelhas próprias). No caso de colmeia própria, a conta indicada é de meio metro quadrado de plantas por colmeia.

Abelhas de boa procedência
Busque criadores certificados pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) para escolher e encomendar a sua colmeia. Algumas boas fontes de informação:
www.meliponicultura.org
@sosabelhassemferrao
@meliponario_lucena
@amesampa

Colmeia protegida
A colmeia deve sempre ser instalada em um lugar protegido da chuva, do vento e do sol extremo. O vento dificulta o voo das abelhas quando elas estão saindo ou voltando com nutrientes. O sol faz com que elas tenham que trabalhar muito para manter a colmeia resfriada e, em alguns casos, o calor em excesso acaba derretendo a cera por dentro. Já a chuva pode molhar a colmeia e gerar fungos.

Sempre de olho
A caixa, em geral, exige pouca manutenção. Mas é bom manter-se atento à atividade: caso o fluxo de abelhas diminua, é importante abrir a caixa para ver se algo está ocorrendo e buscar a ajuda de um especialista.

Comidinha extra
No inverno, vale suplementar a alimentação delas com um xarope de 1 litro de água para 400 g de açúcar e um limão espremido. Coloque em um copo, dentro da colmeia. Ele funciona como um néctar, só que produzido por humanos.

Fonte: João A. Fladt Queiroz, construtor de biomas e consultor de sustentabilidade.




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