Bairro da Glória, no Rio de Janeiro, se firma como o novo reduto da turma da moda
Entre bares e cafés moderninhos, praia secreta e parque natural, bairro carioca equilibra tradição, história e hype na confluência do Centro com a Zona Sul.
O Rio de Janeiro vive novamente dias de glória. Ou melhor, da Glória. Com seu jeito cool e uma certa aura de décadence avec élégance, o bairro banhado pela Baía de Guanabara foi redescoberto por moradores e visitantes da capital fluminense. Os sinais dessa virada estão por toda a parte: nas intervenções recentes da Prefeitura no vasto patrimônio arquitetônico histórico local (a região acumula a maior densidade de bens tombados por metro quadrado da cidade), na reabertura do Hotel Glória como residencial de luxo e na chegada de bares e cafés com bons cardápios e conceitos modernos. Agora, todos querem alcançar a Glória.
Situada muito claramente na divisa entre o Centro e a Zona Sul, a Glória tem vida agitada da manhã à noite, facilitada pelo luxo da proximidade: tudo fica perto o suficiente para caber numa caminhada só.
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Não é o bairro mais turístico do Rio, é bom dizer, mas oferece uma autêntica imersão na vida cotidiana da cidade. A Praia do Flamengo superou a sua má fama e voltou a ter águas limpas, lotando as areias e o mar de amigos e famílias. Quem apostou que seria sonho de apenas um verão mordeu a língua. A charmosa orla de pouco mais de 1 km tem vista para o Pão de Açúcar e é integrada ao Aterro do Flamengo, o maior parque urbano à beira-mar do mundo. Legado da arquiteta Lota de Macedo Soares (1910-1967), com paisagismo de Roberto Burle Marx (1909-1994), o local conta com mais de 10 mil árvores de centenas de espécies nativas e exóticas. Juntos, praia e aterro, mais a Prainha da Glória, compõem um programa perfeito para o dia.
Mas o bairro não se apaga quando o sol se põe. Moradores, habitués e novos clientes lotam rapidamente os bares e restaurantes, além do Teatro TotalEnergies, com boas peças em cartaz. Uma mistura na medida para quem busca agito fora do mainstream.
Dito tudo isso, em bom carioquês, bora?
Brava Doceria
A Rua Conde de Lages é o endereço histórico onde funcionou o primeiro escritório do arquiteto Oscar Niemeyer e a sede da Fundação Oscar Niemeyer. Hoje, abriga esta doceria que já virou atração fixa entre os gloriosos (como são chamados os moradores do bairro) e de quem vive nos arredores. Com um ano de funcionamento, a loja com iluminação em tons amarelos já dobrou de tamanho em sua primeira expansão, sem perder o charme da confeitaria de bairro, com produção artesanal e bem cuidada.

Sobremesa Beijo do boto. Foto: Fota Food
Criada pelos chefs confeiteiros Ana Clara e Pedro Mauro, que se conheceram quando dividiam a cozinha do Oro, restaurante duas estrelas Michelin, a casa tem como inspiração os sabores do Brasil e o trabalho de pequenos produtores. Não por acaso, o menu apresenta uma lista de todos os parceiros, entre eles, a Mestiço Chocolates, o Projeto Crioulo, especializado em fubá, e o Sítio Uçá, fornecedor de ovos caipiras.
Da combinação entre a criatividade e competência da dupla e produtos de altíssima qualidade, surgem criações como o Beijo do boto (R$ 45), que já virou um sucesso. A sobremesa reúne purê de amora, doce de cupuaçu, crocante de castanhas, sorvete de queijo, creme de requeijão do Marajó e óleo de manjericão. Best-sellers também são o pavê na taça (R$ 35), especialidade de Pedro, e o bolo de chocolate com cumaru (R$ 36, a fatia), elaborado com massa de cacau, brigadeiro de cacau e ganache de chocolate 70%.
Além da coleção de doces, há pratos para almoço que agradam à boca e aos olhos. O Chico Bento (R$ 58) é a grande estrela, com copa lombo braseado, polenta cremosa, couve queimada e glace.
No salão ou nas cadeiras na calçada, vale a pena ainda saborear o simples filtrado da casa (R$ 14), feito com grãos especiais e o iced coquinho (R$ 22), espresso duplo com caramelo de coco, leite e gelo. Já o afogado (R$ 18) une sorvete de baunilha e espresso com crocante de limão. Quer mais? Vinhos, vermute de caju e sanduíches complementam o menu. Destaque para o sardinha (R$ 32), preparado com brioche da padaria artesanal Araucária, picles de sardinha, pimentão braseado e folhas.
Brava Doceria: Rua Conde de Lages, 44, loja C, tel. (21) 97674-3164.
Queijo com prosa
A poucos passos da Brava, fica a loja de Daniel Martins, pioneiro na curadoria de queijos artesanais brasileiros. O projeto começou em 2015 como um clube de assinatura, modelo que segue até hoje, e há menos de um ano ganhou este ponto físico na Rua Conde de Lages.
Sommelier de cervejas e chef de cozinha, Daniel criou o Queijo com Prosa com a missão de disseminar e valorizar a produção artesanal brasileira, apoiando produtores e contribuindo para a preservação da cultura e da diversidade dos ingredientes nacionais.

Queijo com Prosa: curadoria caprichada. Foto: Tomas Rangel
O espaço comercializa diversas queijarias parceiras, e o cliente pode aproveitar um vasto catálogo de produtos feitos a partir de diferentes tipos de leite – cru, de búfala, cabra, ovelha e vaca, além de opções orgânicas e sem lactose. A curadoria revela a diversidade de territórios, técnicas e tradições que compõem a produção queijeira brasileira. Por sinal, há quase nove anos Daniel atua como jurado em concursos de queijos no Brasil e no exterior, experiência que ampliou sua rede de contatos com produtores e seu conhecimento sobre a produção nacional, e o ajuda a garimpar pequenos tesouros para a loja.
Entre os destaques da seleção atual está o Nete (R$ 53,36, 220 g), produzido com leite cru de vacas da raça Jersey, de rebanho próprio criado a pasto. Maturado por três meses sobre prateleiras de madeira, o queijo desenvolveu uma cobertura de mofo branco e cinza, responsável por notas de cogumelo. De textura amanteigada, tem sabor que remete a castanhas.
Já o Arupiara (R$ 58,90, 250 g) é produzido com leite de cabras nativas do sertão paraibano, na Fazenda Carnaúba, propriedade da família de Ariano Suassuna. Delicado e de sabor suave, o queijo também carrega uma referência especial ao escritor: a embalagem foi desenhada e concebida por ele.
De Pomerode, Santa Catarina, vem o Morro Azul, supercremoso e com pedaços de trufas negras (R$ 49,90, 125 g).
A excelente curadoria se estende ainda a chocolates, cafés, geleias, alfajores, doces de leite e méis, todos de pequenos produtores.
O endereço também se firma como um ponto de encontro descontraído, com opções para consumir ali mesmo: café coado da Francks Ultra Coffee, fermentado e maturado em barril de Jack Daniel’s (R$ 10), tábuas de queijos e charcutaria, vinhos brasileiros e estrangeiros em taça, cervejas, pão de queijo assado na hora e sanduíches. Entre eles, o Praça Paris (R$ 61) brilha: focaccia fina recheada com pastrami, camembert, um fio de melado de figo picante, pesto de rúcula e boursin cremoso.
A sobremesa é uma só e especial: torta cheesecake feita com creme de queijo da Canastra, e doce de leite com cumaru. Assim como os demais ingredientes da casa, os insumos vêm de pequenos produtores. E, para quem quiser levar um pouco dessa seleção para casa, há muitas outras opções disponíveis no site do Queijo com Prosa.
Queijo com prosa: Rua Conde de Lages, 44, tels. (21) 99754-2407 e (21) 99847-1549 (e-commerce).
Butiá
Mil-folhas de mandioca com molho poivre. Katsu sando de sobrecoxa com tucupi e jiló. Tartar com carne-de-sol sobre tapioca suflada e creme de castanha fermentado. Em uma portinha laranja na ladeira Santo Amaro, o Butiá, nome do fruto de uma palmeira típica do sul do país, valoriza a capacidade brasileira de transformar referências de fora em coisas nossas, utilizando ingredientes nacionais.
“O conceito do Butiá parte da valorização da nossa cultura. Pegamos referências de diferentes lugares e damos a elas uma identidade brasileira”, conta Alysson Saraivo, chef e um dos sócios da casa.

Katso sando. Foto: Cumaru Comunicação Gastronômica
A ideia também é levada para a carta de drinks. Vide o Butiá Sour (R$ 29), que mistura cachaça de Butiá, limão e açúcar, e o Glória Tropical (R$ 28), feito com cachaça infusionada com cravo e manga.
A valorização do Brasil ainda se espraia pelo ambiente: logo na entrada, há um banco de cobogó. O piso é de cimento queimado amarelo, para lembrar uma casa do interior, os banheiros são coloridos, remetendo ao Brasil dos anos 1970, e as paredes são ocupadas por obras de artistas cariocas, que podem ser compradas diretamente dos próprios autores.
No segundo domingo do mês, no espírito de comunidade que toma conta do bairro, o público se reúne na feirinha do Butiá, com DJ e pequenos produtores de comidas, roupas e artesanato. É uma delícia participar do fervo que toma conta da calçada.
Butiá: Rua Santo Amaro, 158, tel. (21) 97143-8222.
Fatchia
O frisson dos discos que o Rio vive atualmente já encontrava terreno firme há dois anos com o Fatchia, pizza disco bar instalado na rua Benjamin Constant. Quase na boca da estação de metrô Glória, a casa nasceu da união de nomes acostumados a criar endereços queridinhos entre o público que gosta de estar na rua: Jonas Aisengart (Quartinho, Chanchada, Deja Vu, Giancarlo) e Edu Araújo (Quartinho, Chanchada, Dainer, Giancarlo), ao lado do DJ Rodrigo Facchinetti.
A turma agora extrapola o CEP majoritariamente de Botafogo e se encontra na Glória, num charmoso sobrado de três andares, que reproduz o clima de uma festa em casa. Na decoração, uma grande estante de madeira abriga vinis à venda, enquanto livros, abajures, pôsteres, cadeiras diversas e mesas pequenas completam os ambientes. Logo na chegada, a garçonete avisa que as mesas são compartilhadas. Não há reservas nem possibilidade de guardar lugar. Afinal, quem guarda lugar em uma festa de amigo?

Fatchia: pizza e música. Foto: João Pedro Dias & Filipe Braga
“Esse movimento da Glória é muito interessante, parecido com o que vimos em Botafogo há muitos anos. A diferença é que Botafogo tem muita loja, a Glória é residencial. Ela vive essa característica do hype, de gerar mais desejo do que novidade”, diz Jonas.
O projeto começou com Facchinetti, que promovia noites de pizza e música em sua casa, para alguns amigos. Alugou o ponto na Glória e, ainda durante a reforma, convidou Edu e Jonas para fazerem parte do projeto. Os sabores das pizzas, de estilo Detroit (quadradas, com massa crocante e borda de queijo caramelizada), são pensados por Facchinetti e Edu. Jonas, por sua vez, cuida da carta de drinks, inspirada nas casas de Nova York das décadas de 1990 e 2000. O autoral Balla Lemon Iced Tea (R$ 34) leva Ballantine’s Finest, xarope de siciliano com caramelo salgado e chá preto. Já o BFF Caju (R$ 38) é uma releitura do caju amigo, feita com cachaça, caju, soda, caramelo, especiarias e compota de caju no espeto.
Para se comer com as mãos, as pizzas vão de ricota com cebola caramelizada (R$ 38) e pesto genovese e cogumelos frescos (R$ 32) a ragu de ossobuco, muçarela, boursin e folhas de hortelã (R$ 38) e molho pomodoro picante, stracciatella e flor de sal (R$ 32). Quer um docinho? A de creme de amendoim com doce de leite, marshmallow caramelizado, crumble e flor de sal (R$ 28) atiça a curiosidade.
Dentro de um mês, o trio pretende abrir o Fatchia Café, na Rua Gomes Freire, dando continuidade ao movimento de ocupação do Centro. A pegada será semelhante à da casa mãe: quem subir os poucos degraus até o sobrado se depara com um ambiente com clima de casa e vinis, mas agora em um contexto diurno. O cardápio de comidas e bebidas ficará a cargo de Edu, que já acumula experiência no assunto com o Dainer e o Café 18 do Forte.
Fatchia: Rua Benjamin Constant, 8.
Bistrô da Casa
A Casa da Glória foi erguida em 1770 como propriedade do Visconde de Souto, primeiro banqueiro particular do Rio. O histórico casarão já foi de templo Hare Krishna à sede da ONG Viva Rio, e hoje é um espaço multiúso, que recebe atividades culturais, eventos, cursos e workshops. Lá funciona também o Bistrô da Casa, que é igualmente versátil: de dia, é piscina, brisa e brunch, e, à noite, luz baixa, jazz ao vivo e taças de vinho.
Nesse ponto cobiçado da cidade, parte do conjunto arquitetônico do Outeiro da Glória, patrimônio histórico e cultural, o chef Christiano Ramalho mescla bem sua base de gastronomia francesa com ingredientes nacionais. As criações têm a proposta de atender tanto o café da manhã como almoços e jantares à beira da piscina.

Bistrô da Casa: café da manhã à beira da piscina. Foto: Rodrigo Azevedo
O couvert de polvilho artesanal com pasta que muda a cada dia (R$ 15) já anuncia o nível alto do menu. A parte dos principais é marcada pelo arroz com caldo de camarão, camarões grelhados e burrata assada (R$ 86), e pelo filé, que vem com o molho levemente apimentado com aipim gratinado (R$ 89). Duas dicas mais que certeiras de sobremesa são o mil-folhas de mascarpone artesanal e frutas vermelhas (R$ 34), e o bolo de aipim com doce de leite da casa e sorvete de coco queimado (R$ 30).
Democrático, o almoço conta ainda com duas fórmulas de executivo, servidas de segunda a sexta-feira, das 12h às 16h. Quem escolhe a primeira paga apenas pelo principal escolhido, com acompanhamento e molho (a coxa de pato com batata à provençal e ragu de cogumelos trufados, a R$ 59, é imperdível. A segunda fórmula é composta por entrada, prato principal e sobremesa pelo preço fixo de R$ 68.
A nova carta de drinques autorais ocupa lugar de destaque na experiência. Vale provar o Casa no Campo, preparado com vodca de mel e camomila de maracujá (R$ 33).
Aos fins de semana e feriados, o agradável restaurante à beira da piscina tem café da manhã, servido a partir das 10h, com combos, tábua de queijos brasileiros (R$ 60), tartines, sanduíches, waffles, tapiocas, pão de queijo. Há ainda vários pratos à base de ovos do Sítio Santa Cândida, como ovos rancheiros (R$ 46) e beneditinos de parma (R$ 38).
Bistrô da Casa: Ladeira da Glória, 98, tel. (21) 96585-5546.
Deja Vu Café e Bar
É praticamente um ímã de criativos e gente moderna em geral: nos finais de semana parece que toda a turma mais antenada da cidade vai se refrescar no Deja Vu, o bar com arquitetura art déco e nouveau na rua do Russel.
Achar a casa faz parte do programa: mesmo com letreiro neon, é preciso estar atento para notar a pequena porta. No interior, as luminárias e o mobiliário remetem ao clima das décadas de 60, 70 e 80, com peças garimpadas e ícones esquecidos do imaginário popular, como tijolos de vidro. Quando o movimento está mais intenso, pequenas mesas redondas ocupam a calçada de pedras portuguesas.

Crudo de atum. Foto: Bruno Machado
“Nosso espaço é uma carta de amor e saudade ao Rio de outras décadas. Um Rio já visto, sonhado e sentido, que fazemos questão de revisitar e manter vivo”, diz Matheus Viana, um dos sócios, que define a Glória como “uma Paris tropical fadada à Guanabara”.
Mas engana-se quem pensa que o lugar entrega só vibe e gente bonita. O vinho é protagonista no Deja Vu, principalmente os naturais. Com rótulos vindos em sua maioria do Novo Mundo, além de uma seleção de brasileiros, os valores começam em R$ 98 e não passam dos R$ 200. As taças servidas nas torneiras, de vinho tinto e branco, saem a R$ 15.
A casa renovou o menu para marcar o primeiro aniversário, comemorado em julho, com opções que firmam o conceito construído desde a abertura: um bar de outros tempos para descobrir coisas novas. Oito novos coquetéis entraram no cardápio, como o delicado, seco e com acidez pronunciada Glória (R$ 38), que mescla Jerez fino, Absolut Vanilia, pêssego e vinagre de maçã. Para quem gosta de drinks mais intensos, o Meia Noite (R$ 38) é uma boa pedida: leva whisky Chivas 12 anos infusionado com manteiga noisette, caramelo e bitter.
O endereço acertou também no que não está no copo: o bolinho de Bourguignon (R$ 34), o crudo de atum (R$ 58) e as almôndegas Polpette (R$ 44) são apenas algumas entradas do menu desenhado pelo chef Paulo Nuza (ex-Cora e Virado), no qual também fazem sucesso o ravioli com gema caipira, ricota e queijo Comté, finalizada com manteiga noisette e sálvia (R$ 52). As sobremesas incluem pudim de queijo Comté, calda de caramelo e cereja amarena (R$ 38).
Deja Vu Café e Bar: Rua do Russel, 344.
Glória ArtBooks
Morador da Glória por mais de dez anos, o curador e pesquisador Victor Gorgulho idealizou uma livraria com livros de arte e cultura contemporânea dentro do Deja Vu, em uma conexão entre as prateleiras e a vida do bairro. “Na Glória convivem famílias, jovens, artistas, estudantes, moradores de comunidade, profissionais do sexo, feirantes, yogis, gente zen e do bem, sem hierarquizações ou classismos, como vemos em outros bairros da Zona Sul do Rio. A Glória inspira uma certa democracia que sempre vai me encantar. High e low estão na mesma medida por aqui. É o equilíbrio perfeito”, comenta Victor.
Com curadoria muito singular, as publicações são escolhidas por meio de pesquisa no acervo de editoras brasileiras e estrangeiras. Também acontecem vendas diretas de artistas que lançam publicações independentes. Como uma livraria é um catálogo vivo que nunca está pronto, Victor está sempre ventilando as estantes com novidades a cada 15 dias. Nesse fluxo, alguns títulos mal chegam e já são vendidos. É o caso do Sofia Coppola Archive, repleto de fotografias dos bastidores de longas da cineasta, que Victor nunca consegue ter por muito tempo.

Gloria Artbooks: cantinho da leitura no Deja Vu. Foto: Estil Creative Co
Foi de Victor a ideia de instalar a livraria dentro do Deja Vu. Sem portas ou um espaço exclusivo para ela, ocupa um canto do salão do primeiro andar, com suas prateleiras ao alcance do público que está aproveitando o bar.
“O Deja Vu acolheu o Glória após eu literalmente pedir a eles para me deixarem existir lá dentro, com o projeto. Os sócios são amigos queridos, a quem recorri dizendo ‘eu queria ter alugado essa loja pra fazer a minha livraria! Por favor, deixem eu participar também!’, conta, aos risos.
Pertinho dali, no Tropigalpão, Victor está construindo o Glória Artbooks na versão biblioteca pública, misturando livros de seu acervo, garimpados em leilões e em viagens no Brasil e no exterior, com doações de artistas e instituições culturais. A proposta é ampliar o acesso do público a livros raros e esgotados, conferindo a esses títulos uma dimensão pública, democrática e coletiva.
Glória Artbooks: Rua do Russel, 344, dentro do Deja Vu.
Isca
Na calçada do imenso Edifício Manchete, onde funciona o Teatro TotalEnergies (ex-Teatro Adolpho Bloch), pintxos, bocadillos e tortillas fisgam a clientela pela boca. O bar com balcão verde e mesinhas do lado de fora (Taís Araújo e Lázaro Ramos frequentam) foi criado por Tatiana Fernandes e Gabriel Cabral, mesma dupla fundadora da COMUNA, coletivo que alavancou Botafogo ao hype da cidade e fechou em 2020.
Comer peixes, frutos do mar e outros ingredientes sobre fatias de pão e espetados em um palito poderia parecer exótico, mas tem tudo a ver com o Rio: do tamanho de duas mordidas, são perfeitos para petiscar acompanhados de bebidas. A ideia teve a inspiração e um certo empurrãozinho de um amigo basco de Tatiana, terra de origem dos petiscos.

Tartar do mar. Foto: Instagram @iscaisca
No ponto fixo estabelecido na Glória chegam a sair mais de 150 pintxos em uma noite de sábado. O de tartar de camarão e polvo, mexilhão escabeche e cabeça de camarão frita (R$ 18), o de tomate ralado e jamón (R$ 12) e a opção vegetariana feita com legumes grelhados e conservados no azeite, alho e vinagre e boursin de cabra (R$ 18) são grandes responsáveis por esse movimento.
A cozinha trabalha ainda com outras pequenas porções, frias e quentes, como bocadillo de peixe do dia empanado, molho tártaro e maionese de ervas (R$ 32) e tortilla de batata, cebola caramelizada e aioli (R$ 30).
O bar completa a proposta com coquetelaria, vinhos naturais e chope. A carta autoral de drinks vem com criações como o Breakfast Martini (R$ 30), feito com gim, limão, Cointreau e geleia de laranja. O rol de vinhos percorre regiões diversas, de Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul, a Swartland, na África do Sul.
Isca: Rua do Russel, 724.
Manchete
O sucesso do Isca foi a prova de que a área tem potencial e, assim, Tatiana e Gabriel abriram a segunda casa na rua do Russel, quase parede com parede com o primeiro empreendimento.
“O Manchete foi pensado para ser um boteco de bairro, com vocação para servir a rua e a vizinhança da Glória. Por isso, o foco do cardápio está no almoço e no delivery, com uma cozinha direta, cotidiana e bem executada, centrada no prato feito e na ideia de oferecer uma refeição acessível, saborosa e confiável para quem vive e circula por aqui”, sintetiza Tatiana.
Composto basicamente por um balcão e uma geladeira na parte interna, o bar tem vida na calçada, com mesas de plástico vermelhas, onde brilham PFs de personalidade. Fazem salivar as almôndegas de cogumelo e berinjela ao sugo (R$ 35) e o bife de alcatra com alho tostado em azeite (R$ 42), ambos servidos com arroz, feijão, farofa e salpicão de vegetais com batata palha da casa.
O sanduíche de milanesa de frango ou copa lombo suíno, coleslaw e aioli (R$ 36) é outro queridinho do menu. Nos fins de semana, o almoço se estende até as 18h30, para acompanhar o ritmo da região e receber também quem aproveita o dia na praia.
Manchete: Rua do Russel, 724.
Labuta Mar
Cria do Lilia, do criativo chef e restaurateur Lucio Vieira, o Labuta Mar foi um dos pioneiros na área até então quase deserta comercialmente da Rua do Russel. Ocupando, sem modificar, o ambiente de um antigo botequim, aposta em frutos do mar de uma maneira criativa, descomplicada e bem executada. Daí o tartar de peixe com molho de ostra, farofa de pão frito e gema curada (R$ 49) e o espetinho de polvo com sardela defumada, pico de galo e pão frito (R$ 65).
O chef João Vianna busca pessoalmente os peixes e frutos do mar no mercado São Pedro, em Niterói. A escolha próxima da origem garante produtos frescos e pagamento justo aos pescadores, dois pilares da casa.

Trio de ostras. Foto: Lipe Borges
“O Labuta Mar é sobre trabalho, respeito ao mar, ao produto e às pessoas. Cada peixe passa por um cuidado enorme até chegar à mesa. É assim que construímos uma cozinha viva, verdadeira, criativa e com identidade”, afirma João.
As ostras, que já são icônicas nas casas de Lucio, ganham destaque às quartas-feiras, na Quarta de Ostras, quando são servidas em sextetos com guarnições diferentes (R$ 89).
A carta de drinks criada por Lucas Memória segue a mesma vocação para combinações pouco óbvias, como o caramuru (R$ 36), que nasceu da mistura de Jambuzada Açaí & Guaraná, catuaba, Cynar e água com gás.
Para completar o programa, nas noites de terça, a partir das 19h, uma roda de chorinho anima a Praça Luís de Camões.
Labuta Mar: Rua do Russel, 450 B.
Feira da Glória
O perfil do Instagram mantido pelos próprios feirantes diz que ela é a maior feira livre da cidade. Não dá para comprovar a afirmação, mas que ela é gigante, isso é.
Organizada todos os domingos na Avenida Augusto Severo, a feira recentemente passou a ocupar também parte da Praça Paris, expandindo a grande diversidade de bebidas e comidas típicas de diversas regiões do Brasil e outros países, além de barracas de roupa, chopes artesanais, discos, livros, objetos de decoração e artesanato.
Depois de mais de 5 mil domingos de atividades, foi declarada patrimônio histórico cultural e imaterial do Estado do Rio, em 2025.
Feira da Glória: aos domingos, das 7h às 16h (mas o fervo gerado por apresentações musicais, como rodas de samba e forró, faz o programa não ter hora para acabar).
Tropigalpão
Todo lugar merece um bom espaço de cultura, não é? Inaugurado pela atriz e artista plástica Denise Milfont logo depois da pandemia, “por necessidade vital de sobreviver após esse momento tão difícil para todos nós”, como ela define, o Tropigalpão é parada obrigatória para quem quer descobrir o lado mais artístico do bairro.
Amplo, largo, com as salas expositivas cercadas por vidro e estruturas metálicas, o Tropi é uma galeria alternativa que se dedica a diversas atividades culturais, como exposições, performances, apresentações de eletroacústica, teatro e exibição de filmes em um lindo prédio de quatro andares na Rua Benjamin Constant.

Tropigalpão: arte na Glória. Foto: Rafael Salim
Além das mostras com curadoria de Denise, o espaço mantém uma programação aberta e dinâmica, construída a partir de propostas de artistas, produtores e parceiros. Lançamentos de livros, leituras teatrais, workshops, palestras e conversas com artistas fazem parte da agenda.
No térreo, fica o Café Heimen, com bebidas feitas com grãos de produção própria e agroflorestal vindos da encosta da Pedra Azul, no Espírito Santo. Todas as quintas-feiras, das 10h às 18h, acontece um projeto de videoarte no café, e um novo nome é convidado a cada mês. Já no último andar, a proposta de convívio ganha vida ao ar livre com um lindo jardim aberto à visitação.
Tropigalpão: Rua Benjamin Constant, 118.
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