Alaïa abre primeira loja no Brasil: relembre a história da maison 

Única butique da Alaïa na América Latina acaba de abrir as portas no Shopping Cidade Jardim. A grife aterrissa em solo nacional em um momento importante da marca, após o ex-diretor criativo Pieter Mulier resgatar a atenção global para a casa fundada por Azzedine Alaïa.


Alaïa, inverno 2026
Look da coleção de inverno 2026 da Alaïa. Foto: Divulgação



O Shopping Cidade Jardim, administrado pelo grupo JHSF, inaugurou na segunda-feira (05.10) a primeira loja da Alaïa na América Latina. O espaço tem projeto arquitetônico assinado pelo estúdio sueco Halleroed e homenageia as linhas limpas e geométricas do modernismo brasileiro. No mobiliário, há madeiras como a imbuia e o jacarandá. Entre os itens vintage, destaca-se uma mesa de centro do designer Sérgio Rodrigues. O piso é de mármore negro brasileiro. 

Loja Alaia Cidade Jardim

Loja da Alaïa no Shopping Cidade Jardim. Foto: Divulgação

A novidade integra uma expansão do centro de compras. São mais de três mil m² de nova área locável entregues neste ano. Além da Alaïa, o Cidade Jardim passa a abrigar as lojas da italiana Loro Piana (prevista para novembro), da estadunidense James Perse (ainda sem previsão de abertura), e da francesa Fusalp (já em funcionamento) – as etiquetas são exclusivas do shopping e operadas no país pela divisão de varejo internacional da JHSF. O projeto de ampliação inclui ainda o aumento das flagships da Dior, Chanel, Prada, Hermès e Tiffany & Co.

Loja Alaia Cidade Jardim

Loja da Alaïa no Shopping Cidade Jardim. Foto: Divulgação

Loja Alaia Cidade Jardim

Loja da Alaïa no Shopping Cidade Jardim. Foto: Divulgação

Loja Alaia Cidade Jardim

Loja da Alaïa no Shopping Cidade Jardim. Foto: Divulgação

Leia mais: Dior abre nova loja no shopping Cidade Jardim

A chegada da Alaïa ao Brasil acontece em uma fase boa da grife, impulsionada nos últimos anos pela direção criativa de Pieter Mulier. O designer comandou a casa entre fevereiro de 2021 e março de 2026 (agora, ele é o novo diretor criativo da Versace e fará a sua estreia nas passarelas com a etiqueta no início de 2027). Na Alaïa, Pieter foi o primeiro estilista a suceder o fundador desde a morte de Azzedine Alaïa, em novembro de 2017.

Durante seus cinco anos de gestão, o belga recuperou a atenção dos críticos e reacendeu o desejo entre os consumidores. Ele também conquistou o seu próprio espaço sob os holofotes. Antes disso, Pieter era conhecido principalmente como o braço direito de Raf Simons nas passagens do atual codiretor criativo da Prada por marcas como Jil Sander, Christian Dior e Calvin Klein, além da grife homônima do compatriota.

Azzedine Alaia

Alaïa, verão 2025. Foto: Divulgação

Embora o grupo Richemont (conglomerado dono da marca) não divulgue dados individuais de cada empresa que detém, estima-se que a Alaïa mais do que dobrou de tamanho sob o comando criativo de Mulier. O sucesso, inclusive, o levou a vencer como designer internacional do ano no CFDA Awards, em novembro de 2025, premiação do Council of Fashion Designers of America (Conselho de Designers de Moda da América).

Parte do êxito comercial veio da linha de acessórios. A bolsa de ombro Le Teckel virou febre com o seu design minimalista, formato horizontal e alças longas. O mesmo frisson aconteceu em torno das sapatilhas de balé com tira sobre o peito do pé e fivela de ajuste. Vendidas em versões de couro de cordeiro com tachas metálicas ou malha de rede com strass, elas se tornaram inconfundíveis mesmo sem logotipos. Foram usadas por estrelas como a cantora Rihanna e a atriz Jennifer Lawrence, e as réplicas pipocaram por toda parte.

Sapatilha Alaia

Sapatilhas Mary Jane da Alaïa que viraram um hit de vendas. Foto: Divulgação

Leia mais: São Paulo recebe o primeiro café Lacoste da América Latina

Nas roupas, Pieter reforçou a conhecida pesquisa de modelagens da grife. Ele usava tecidos cortados em espiral que, ao menor movimento do corpo, transformavam a percepção da roupa em um jogo óptico de volume e densidade. As suas criações homenageavam o mestre de várias formas: a exaltação da silhueta feminina, os capuzes frequentes, o toque de futurismo, as peças de contorno escultural e a prática da repetição exaustiva até alcançar a perfeição.

No seu último desfile para a casa (inverno 2026), apresentado em março, o designer referenciou o impacto pop de Azzedine. A atriz Alicia Silverstone acompanhou da primeira fila: na passarela, Pieter reapresentou o vestido vermelho usado por ela ao dar vida à personagem Cher Horowitz no filme As Patricinhas de Beverly Hills (1995). Na cena clássica, Cher é assaltada em um beco e se recusa a deitar no chão, justificando ao ladrão: “Este vestido é um Alaïa. Ele é um estilista importantíssimo”.

Azzedine Alaïa era, de fato, importantíssimo. Filho de agricultores, ele se mudou da Tunísia para Paris no final dos anos 1950. Na época, passava os dias vasculhando mercados de pulgas atrás de peças de couturiers que admirava como Paul Poiret para investigar a fundo como as roupas haviam sido construídas. Em 1982, ele lançou a própria marca.

O costureiro africano tinha uma obsessão pela forma mais pura da roupa, garantindo que o tecido acompanhasse o desenho natural do corpo, fosse de tricô, lycra ou couro. Inspirado na estilista francesa Madeleine Vionnet – que no início do século 20 ajudou a libertar os movimentos femininos –, ele modernizou tal conceito usando malhas para criar desde leggings até vestidos de festa.

Azzedine Alaia

A cantora Tina Turner ao lado do estilista Azzedine Alaïa. Foto: Getty Images

Leia mais: Paris Fashion Week: Alaïa, verão 2026

Logo, Azzedine ganhou o apelido de King of cling (rei do justo). Foi ele quem consolidou o conceito de moda bodyconscious: não se tratava apenas de fazer vestidos apertados, mas de usar a modelagem para esculpir as linhas da mulher. Suas roupas vestiram modelos como Veronica Webb, Stephanie Seymour e Naomi Campbell, além de estrelas da música como Tina Turner, Madonna e Lady Gaga.

Nos anos 1990, quando a moda se interessou pelo minimalismo andrógino, ele se manteve fiel às suas figuras de femmes fatales. Aquele era um símbolo de como o estilista preservava a independência do negócio. Ele nunca se curvou às tendências, jamais apressou a produção para caber no calendário tradicional das semanas de moda e recusava-se a expandir o ateliê. Com equipe enxuta, fazia quase tudo sozinho e se envolvia pessoalmente do design à modelagem e aos ajustes finais.

Azzedine Alaia

A modelo Naomi Campbell desfilando para a Alaïa. Foto: Getty Images

Azzedine Alaia

Grace Jones na passarela do verão 1986 de alta-costura da Alaïa. Foto: Getty Images

O último desfile de Azzedine Alaïa em vida foi em julho de 2017, com a coleção de alta-costura de inverno daquele ano, após um hiato de seis anos longe das passarelas. Naomi Campbell, que o chamava de pai, abriu e fechou a apresentação.

Desde 2007, a Alaïa pertence ao grupo suíço Richemont (também dono da Chloé e da Dunhill). Se comparada às joalherias do conglomerado, como Cartier e Van Cleef & Arpels, a grife de moda é bem menor. A holding, porém, tem aumentado os investimentos na etiqueta de forma gradual, adicionando butiques em cidades como Paris, Nova York, Londres, Pequim e, agora, São Paulo.

Mas a pressa nunca fez sentido ali. Após a morte do fundador, a maison passou três anos relançando best-sellers do acervo até nomear Pieter Mulier para a direção criativa. Fiel à sua natureza, o tempo para a próxima era ainda está se desenhando com calma.

Leia também: Exposição da Dior reúne itens de Azzedine Alaïa 

 

Para ler reportagens e séries especiais, assine a ELLE View, a área exclusiva da ELLE para assinantes.