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Num primeiro olhar, o verão 2022 da Balenciaga parece um desfile comum, igual aos tantos outros que já vimos, com casting de meninas bastante parecidas, para não dizer iguais. A princípio, o que está mais fora de lugar é a plateia, toda de preto, quase uniformizada, telefones ao alto, acompanhando cada movimento na passarela – e ainda assim, nada muito diferente do que foi, um dia, a realidade. Dada hora, a semelhança entre uma modelo e outra começa a se fazer notada, de uma maneira quase irreal, impessoal, pouco humana até. E a ideia era exatamente essa: discutir o que é real e o que não é.

Para isso, o diretor de criação Demna Gvasalia decidiu clonar a pintora, amiga e musa Eliza Douglas para desfilar os 44 looks da coleção. O processo envolveu o treinamento de dublês para andar igual a ela e uma complexa tecnologia digital para scannear e aplicar sobre eles o rosto de Eliza. Segundo o estilista, a ideia era fazer uma crítica à obsessão da moda por tendências, o que diminuiria o potencial da individualidade.


Como Demna foge desse esquema homogenizador não ficou muito claro. A ideia essencial do seu trabalho, a reinterpretação de peças banais e comuns ao cotidiano de muita gente (os moletons, os jeans largos, os tênis), viralizou a tal ponto que a premissa pró-individualidade e anti-tendências foi colocada em xeque. Ainda assim, é uma discussão interessante, principalmente no que diz respeito à mediação da realidade pelas telas dos telefones e computadores. A criação de personalidade digitais, os deep fakes e pasteurização estética são pontos relevantes, cada vez mais presentes em nossas vidas.

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Vale lembrar também que já faz algum tempo que Demna está meio obcecado pela dicotomia entre realidade e fantasia. Em menor ou menor grau, suas últimas coleções falam sobre a diferença entre o real e o falso, o material e o imaterial, o físico e virtual. No verão 2021, teve aquele "desfile" nas ruas de Paris, de madrugada, rumo à festa que todo mundo queria e não podia, pois pandemia. Na temporada seguinte, foi tudo 100% digital, com as roupas apresentadas como parte de um videogame.

Sobre as roupas, um pouco mais do mesmo. Quase como um best of de coleções passadas. A alfaiataria oversized, os ombros bem marcados, os moletons com tratamento de luxo (agora em conjuntinho com corset, vide o look 41), as jaquetas de náilon com formas e volumes estruturados, bem na escola Cristóbal Balenciaga e as bolsas inspiradas em sacolas de feira.

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Também aparecem na coleção algumas bolsas da parceria entre Gucci e Balenciaga e uma versão em vermelho do vestido de veludo usado por Dua Lipa em uma festa pós-Oscar. Na época, especulou-se que o modelo seria uma prévia do que Demna apresentaria no retorno da Balenciaga à coleção de alta-costura, 53 anos depois. Não foi bem isso, mas o look que encerra o desfile inflou mais um tantinho as expectativas para o tal comeback, no dia 07 de julho, em um desfile presencial.

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