Foto Cortesia | Prada
PUBLICIDADE

Os boatos já vinham de antes, mas foi só em fevereiro deste ano que Raf Simons foi oficializado codiretor criativo da Prada ao lado de Miuccia. De lá para cá deu tudo errado, ou quase. A Covid-19 fez com que boa parte do planejamento fosse atrasada e repensada. O primeiro dia de trabalho do estilista belga na marca italiana, por exemplo, estava marcado para 1 abril, mas só aconteceu em julho. As restrições de contato social também dificultaram o trabalho e cancelaram a mega apresentação que marcaria o início dessa grande parceria. No seu lugar, um desfile transmitido ao vivo, seguido de uma conversa entre os dois estilistas.

Não foi uma apresentação de grandes emoções, pelo contrário. Foi uma bastante racional. E tudo bem. Apesar de as expectativas mais emocionadas não terem sido satisfeitas, o que recebemos foi ainda melhor. Uma leitura de processo muito bem construída, como se Raf e Miuccia mostrassem diante de nossos olhos a luta de um nascimento.

Em tempos caóticos, existe certo sentido na busca por algum tipo de controle. Ainda mais quando nos colocam sob uma lente de aumento, como que examinados por um microscópio ou vigiados por várias câmeras. Assim chegamos ao cenário do desfile de verão 2021 da Prada: uma pequena sala acarpetada, cercada por cortinas, algumas colunas e muitas câmeras e telas suspensas. Nelas, podíamos ler o nome de cada modelo sendo filmada (todas elas estreantes nas passarelas) e o número do look que vestia. Tudo imerso num ambiente de tom bastante peculiar (o vídeo representa melhor do que as fotos). Um amarelo nem quente nem frio, nem confortável nem perturbador. Era… asséptico, artificial, químico. É uma cor também muito presente no universo imagético da Prada bem como de Raf Simons. O match perfeito cromático.

Prada, verão 2021.

Foto Cortesia | Prada

Prada, verão 2021.

Foto Cortesia | Prada

As roupas também buscavam este equilíbrio. Na conversa após o desfile, Miuccia e Raf falaram sobre essa equação de estilo e identidade: "não é subtração nem adição, são os dois juntos.". No release, a marca fala em "diálogo", na "definição e redefinição de valores e ideias, num exame fundamental sobre o significado de Prada".

Alguns exemplos ilustram bem essa conversa: as estampas vintage que Miuccia sempre amou aparecem agora mais gráficas, ao lado de textos e desenhos geométricos comuns ao trabalho da Raf; a saia rodada e de cintura marcada, tão característica do look Prada, chega em uma construção mais firme e estruturada, lembrando a arquitetura da alfaiataria de Simons; e o casaco ou sobretudo de alfaiataria que ambos tanto gostam surge como denominador comum. Hora mais street, lembrando um moletom, ora mais clássico e feminino. Quase sempre, porém, segurado pela modelo, num gesto que ambos estilistas já usaram e repetiram inúmeras vezes.

Prada, verão 2021.

Foto Cortesia | Prada

Prada, verão 2021.

Foto Cortesia | Prada

Dá até para pensar nesses elementos como partes de um uniforme. "Não como aqueles de policiais, soldados ou bombeiros", disse Raf na conversa pós-desfile. "Mas como base para a construção de um estilo, de uma identidade." Podemos então pensar nesse desfile como uma espécie de laboratório. Os looks seriam experiências em busca de uma nova identidade. O que ajuda a entender o styling de peças sobrepostas, os itens híbridos (a saia com bolso gigante, como se a bolsa estivesse ali fundida, a capa com bolso nas costas, o casaco-hoodie) e abordagem extremamente controlada sobre tudo.

Diferentemente de outros desfiles nesta temporada, aqui nada é aleatório ou gratuito. Cada detalhe, cada estampa, da silhueta e tecido é considerado, pensado, calculado. Vide o logo, trabalhado e reposicionado inúmeras vezes como que numa experiência de tentativa e erro: de um simples triângulo algo apagado à bijuteria.

A aparência sintética dos tecidos também não é à toa. Miuccia ama história e frequentemente olha para o passado em busca de inspiração. Porém, há sempre algo fora do lugar, num link direto com o presente. Quase sempre isso se dá para um elemento estranho de origem industrial. Com Raf é a mesma coisa, ainda que suas referências de passado sejam mais leves (ou seria sua conexão com o presente que é mais forte?).

Prada, verão 2021.

Foto Cortesia | Prada

Prada, verão 2021.

Foto Cortesia | Prada

A cada novo olhar sobre um look é possível notar alguns detalhes antes despercebidos. Tamanha maestria técnica e riqueza visual andam em falta no mercado. Ainda mais com tanto potencial comercial.

Não é fácil nascer assim. Nos laboratórios das redes, corremos feito cobaias, nossos comportamentos analisados, contabilizados e não raro virados contra nós mesmos. Mas pessoas que se juntam para fazer algo em comum estão além da soma de suas identidades, há um ingrediente surpresa, uma força estranha que não está na soma, mas nas possibilidades de relação. Nem o Google localiza.

O que será que está por baixo desses casacos que tão cuidadosamente as modelos seguram com as mãos? Será que tem algo em mutação nessas blusas que se rasgam, algo maior e mais forte ganha corpo? Pode ser. O que é talvez nem eles saibam ainda. E essa é uma das belezas da coisa. Em vez de esperar uma nova coleção que possa se encaixar nas nossas fantasias, vamos aplaudir e comemorar essa com muito entusiasmo.

Prada, verão 2021.

Foto Cortesia | Prada

Miuccia disse na entrevista que vê a moda como uma forma de reagir à sociedade. E fez isso estreitando uma admiração mútua em uma parceria verdadeira com alguém que sempre falou com ela de uma maneira inspiradora. Dois idiomas, uma linguagem de cura criativa no meio de uma pandemia de doença, indiferença e desesperança.

Enfim, a reação.




Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE