Moda

Como foi o 1º dia de SPFW

Com apresentações 100% digitais, marcas propõem novas formas de fazer, pensar e apresentar moda.

Foto: Marie Werneck
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Começou pontualmente às 14h da quarta-feira (04.11) a mais recente edição do São Paulo Fashion Week.

A frase acima traz algumas raridades que denotam, em maior ou menor grau, a peculiaridade da moda (e de uma semana de moda) nos tempos atuais. A pontualidade, por exemplo: é de praxe desfiles começarem com meia hora de atraso. Desfile, aliás, é uma palavra complicada nesta temporada. Devido à pandemia da Covid-19, o evento se dá de forma 100% digital, o que permitiu que algumas marcas explorassem outras formas de apresentação.

Para muita marca, a imersão digital é inédita, um reflexo bastante fiel à maneira como o mercado nacional lidava com a digitalização de seus processos, vendas e até criação. Os resultados terão impacto direto na maneira como público, imprensa e clientes se relacionarão com aquelas peças. Por enquanto, temos mais perguntas do que respostas: eles funcionam comercialmente? Despertam desejo no consumidor e público em geral? São interessantes o suficiente para prender a atenção por cerca de cinco ou oito minutos (tempo máximo estipulado pela organização do evento)? São capazes de transmitir um bom entendimento sobre a roupa? São tão impactantes quanto a imagem de uma passarela? Ficarão na memória? São questionamentos como esses que tentaremos explorar a seguir e ao longo dos próximos dias.

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Fernanda Yamamoto


"Jamais filmaria uma passarela convencional", disse Fernanda Yamamoto. "Nossos desfiles sempre contaram histórias, tinham um porquê. Reproduzir isso não faz sentido agora", continua a estilista, que abriu o ciclo de apresentações digitais que vão de hoje até domingo (08.11).

Fernanda faz parte de um grupo de marcas independentes especialmente impactadas pelos efeitos da pandemia. Devido ao fechamento das lojas, ela só conseguiu lançar sua coleção (pronta desde março) em setembro. Há alguns anos dedicada à produção responsável ambiental e socialmente, produzir algo completamente novo seria uma grande contradição. "O trabalho que apresentamos neste SPFW representa muito do que a marca enxerga como seu papel no mundo", explica ela.

Em parceira com a poeta Clarisse Romeiro e com Coral Jovem do Estado de São Paulo (responsável pela trilha), Fernanda concebeu um vídeo sobre sentimentos vividos por ela e sua equipe durante a quarentena. "São sensações, desejos e questionamentos que a Clarice transformou em palíndromos que, depois, viraram estampas", diz.

Palíndromos são palavras ou frases que podem ser lidas da esquerda para a direita e da direita para a esquerda sem que se perca o sentido. Coincidência ou não, é algo que dialoga com a leitura japonesa, da qual Fernanda tem ascendência. Palavras como "somos", "sós", "o breve é verbo", viraram carimbos (esculpidos em madeira pelo grupo Ybyatã) que serviram para estampar a pequena seleção de blusas, vestidos, bolsas e lenços.

O resultado lembra a poesia urbana que muita gente tira sarro, mas tem toda uma objetividade e delicadeza no que quer avisar. Se apresentando pela primeira vez em vídeo, a estilista conta que segue tentando mostrar a moda como um suporte para falar das questões de hoje. "Letra a letra são carimbadas, criam sílabas, formam palavras, que viram estampas, aparecem em roupas. As vozes cantadas, também, quando juntas, ganham uma potência que só. É para falar, literalmente, que sozinho não se faz roupa."

Ainda que roupa não tenha sido exatamente o foco da apresentação. E aqui trata-se de uma decisão não puramente criativa. Com estoques elevados, pouca receita e escassez de tecidos, muita marca se viu forçada a apresentar o que já estava pronto ou criar uma quantidade mínima de peças (sem previsão de produção para vendas) para uma apresentação puramente imagética ou conceitual – e com baixíssimo custo.

Lenny Niemeyer


"O impacto nos fornecedores foi uma grande dificuldade", diz Lenny Niemeyer. "Tive que mudar o ritmo de produção e fazer apostas em cima da hora." A coleção apresentada na noite de hoje, por exemplo, depende da disponibilidade dos parceiros para ser produzida comercialmente. Tudo isso teve impacto direto nas roupas e construção de imagem.

Tudo começou a partir de um ensaio do fotógrafo Marcio Simnch com flores e plásticos refletivos. As imagens serviram de base para estampas, cartela de cores, texturas e volumes. Formas orgânicas arredondadas e fluidas, se combinam com cortes retos, padronagens de botânica com grafismos geométricos, tecidos naturais com sintéticos de aparência plastificada.

A apresentação se deu por meio de um fashion film, algo inédito para a estilista. "Entrei em crise existencial", diz ela. "Estou acostumada com passarela, aquela emoção, música alta. Porém, isso não é mais possível e tentar simular essas sensações no digital seria impossível", afirma.

Victor Hugo Mattos


Essa adaptação é um exercício que promete se repetir ao longo do evento. Victor Hugo Mattos, por exemplo, optou por um vídeo-performance com narração de Letrux. As cenas de mar, praia e sol são desdobramentos dos sentimentos e pensamentos que vivenciou durante os quatro meses que passou no litoral baiano, próximo à família. Numa vibe meio sereia tropical encontra garota do fantástico, o designer reforça seu trabalho manual com crochê, rico em bordados de búzios, pedrarias, conchas e franjas, agora com direito a inspeção em close-up. Boa parte da coleção foi feita em upcycling, diga-se de passagem.

Isabela Capeto


Num bem-vindo retorno ao SPFW, a carioca Isabela Capeto apostou na dança como principal ferramenta de comunicação. Com direção de Caio Blat e Luisa Arraes, a estilista fez de seu desfile uma espécie de videoclipe com cinco bailarinos da comunidade da Maré, coreografados por Malia Lima. Com nome de Brota, a coleção recupera shapes, estampas, tecidos e modelagens que fizeram história – e alegria – na marca e nas suas clientes. "O que mais escuto das minhas consumidoras é como minha roupa funciona para ir à praia, ao mercado, à feira ou a uma festa. Quis traduzir um pouco desse bom-humor e facilidade no vestir", explica. Vem daí os vestidos com modelagem fluida, prints e texturas coloridas pelo qual Isabela é conhecida. Os tecidos são naturais, frescos e comunicam um mix de conforto para ficar em casa com energia e diversão em se vestir.

"Meu analista sempre dizia: Isabela, volta para casa! Até que fui forçada a voltar", diz a estilista, que sofreu perdas pessoais difíceis na pandemia. A apresentação surge como mecanismo de escape, celebração e adaptação. Inclua aí novas formas de pensar, fazer e vender moda. Durante os últimos meses, Capeto internalizou muito dos processos, revisitou trabalhos antigos, lançou um site e transformou sua casa em ateliê – é lá, aliás, que o vídeo é ambientado. "Não se trata de uma ruptura, mas de valores que ganham novos significados, se fortaleceram, por meio da consolidação dos elos", explica.

Irrita


Voltar para casa, olhar para dentro, autoconhecimento são alguns dos temas recorrentes entre os participantes desta edição do SPFW e explicam por que muitas roupas que veremos não são exatamente novas, mas releituras de clássicos da marca. É um mix de economia e adaptação aos recursos disponíveis, mas também um exercício de reforço de identidade.

À frente da Irrita, Rita Comparato evoca tais sentimentos com um vídeo-performance com as bailarinas Clarice Lima, Ísis Vergílio (sim, ela mesma, repórter de ELLE), Karen Marçal, Marcela Costa. O clima não é estranho àqueles que passamos durante a quarentena: você coloca uma música, trabalha, faz faxina, uma ioga, fica estressada, toma um vinho, se acalma, aprende a ficar sozinha, a conversar (e conviver) com você mesma. De repente, sua roupa é a sua melhor amiga, o seu par de valsa, com quem você ri, joga baralho e até briga. Bem-humorado, o vídeo de apresentação da Irrita é essa esquete da quarentena. "Para mim, o que é mais bonito no ser humano é a capacidade de se adaptar e criar dentro da própria mente", diz a estilista.

Foi mais ou menos o que Rita passou após deixar a Neon, marca que codirigiu com Dudu Bertholini até 2013, e lançar a Irrita, em 2018, ao lado da sócia Lia Camargo. Nessa nova fase, as roupas também expressam esse potencial de adaptação. São peças com modelagens e formas ajustáveis ou pensadas para vestir qualquer corpo. É uma marca que tem loja e ateliê acoplados, com pensamento bem próximo ao cliente e, por isso, com produção mais enxuta. Nesta coleção, são vestidos, túnicas, calças e blusas com shapes geométricos e silhuetas soltas, tudo devidamente estampado ao gosto da estilista.

ALG


Outra estreante nesta edição do SPFW é a ALG, linha mais acessível da À La Garçonne, marca de Alexandre Herchcovitch e Fábio Souza. Na contramão do que se viu neste primeiro dia, a apresentação foi em formato tradicional de desfile, quase como que em tempos pré-pandêmicos, não fosse a ausência de plateia e os protocolos sanitários envolvidos. Os looks também se conectam com desejos e ideias anteriores à quarentena e reforçados durante os meses de isolamento – principalmente o streetwear com suas referências esportivas e peças quase básicas, sempre confortáveis.

Segundo Alexandre, a ideia é simplificar a peça ao máximo para sua melhor e mais fácil assimilação. Daí, as propostas quase básicas de moletons, camisetas, bermudas em tecidos usuais, como malhas e algodão. O destaque vem no mix de elementos masculinos e femininos numa mesma peça ou look, nas proporções, nas estampas (com destaque para aquela de corrente, numa quase releitura de uma padronagem famosa da marca homônima de Herchcovitch), na alfaiataria esportiva e nas peças com pegada funcional, como as parkas com aberturas laterais que viram capa.

Em parceria com SPFW e profissionais da área, uma das medidas institui que desfiles deverão ter pelo menos metade de seus castings compostos por modelos negras, indígenas e asiáticas.



Entenda como a nova realidade está forçando muito estilista a repensar sua própria identidade, processo criativo e o design de moda.

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