PFW: Chanel, inverno 2026
Na Chanel, Matthieu Blazy dobra a aposta na silhueta alongada e esguia dos anos 1920 e reforça sua visão de estilo universal com roupas das mais sóbrias às mais brilhantes e encantadoras da estação.
Apresentado na noite de segunda-feira (09.03), o inverno 2026 da Chanel é a coleção mais redonda do diretor criativo Matthieu Blazy em termos de visão, relevância e adequação – atual e histórica.
É apenas a quarta apresentação do estilista para a maison (as anteriores foram as de verão 2026 de prêt-à-porter, métiers d’art 2026 e verão 2026 de alta-costura). Como o cenário dá a entender, com guindastes azuis, amarelos, vermelhos e brancos erguidos dentro do Grand Palais, trata-se ainda de um trabalho em andamento. Se é que algum dia deixa de ser. Afinal, o que é a moda senão uma grande construção de imagens, linguagens, estilos e identidades?
Matthieu entende as estruturas que sustentam esses prédios atualmente. Não é uma base única para edifícios de desenhos idênticos. Quer dizer, a base pode até ser a mesma, já o que se constrói sobre ela, não. Como as coleções passadas, esta é desenvolvida em cima das formas clássicas do tailleur Chanel. Ele serve como uma tela em branco ou como os pilares para projetos de personalidades, corpos e finalidades variados.

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação
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Quem abre o desfile é a modelo Stephanie Cavalli, a mesma que abriu a apresentação de alta-costura em janeiro. Ela veste um conjunto preto de saia e jaqueta de tricô. Na sequência, vem um look quase igual, só que branco. Quase todo o bloco inicial é composto de peças inspiradas em elementos básicos do guarda-roupa. O ponto de partida são os itens masculinos e/ou de trabalhadores que Gabrielle Chanel incorporou primeiro ao seu visual e depois à moda global, elevando o status e a influência daquelas roupas.
Eis que, de repente, vem um vestido longo sereia, com leve volume inflado arrematado por um colar dourado com pedras marrons. Um pouco depois, aparece uma versão em vermelho. Entre eles, rola um terno dourado e, logo na sequência, um vestido de jérsei com corte reto, saia plissada e cintura deslocada para baixo da linha do quadril.
Matthieu aposta na silhueta dos anos 1920 desde a sua estreia e por motivos óbvios (foi nessa década que Chanel, a maison e a couturière se estabeleceram). Desta vez, porém, ele dobra a aposta. A cintura desce ainda mais, reforçada por saias e vestidos com cintos posicionados abaixo dos glúteos. A imagem é poderosa, com potencial de viralização similar ao das minissaias do verão 2022 da Miu Miu.

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação
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É uma comparação inevitável, mas convém ir além. Aqui, a silhueta não tem apenas apelo jovem e sexy. Trata-se de uma nova proposta e visão. Elas acompanham um movimento de redução generalizada em curso há algum tempo. No caso, menos embalada pelo boom das canetas emagrecedoras ou pelo culto ao corpo e mais por uma mudança na maneira como o que se veste chama atenção.
Tem a ver com cortar excessos e pensar em imagens menos espalhafatosas, criadas exclusivamente para engajar num post de mídias sociais. O foco é o corpo e a relação com o que a gente escolhe cobri-lo, mas de um jeito bem pessoal, funcional e autêntico. Com isso, volumes oversized e tudo mais que é exagerado em termos de proporção e shape saem de cena.

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação
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A inclinação para a década de 1920 também tem a ver com o interesse de Matthieu pela vida e figura de Gabrielle Chanel. Alguns looks do inverno 2026, como os das coleções anteriores, são inspirações diretas em retratos da estilista no início do século 20. A referência, contudo, não para na interpretação. É como se o diretor de criação imaginasse a fundadora com roupas de 2026: com uma calça de alfaiataria de cintura alta e jaqueta xadrez com gola felpuda, por exemplo. Ou com um conjunto de bermuda e jaqueta bomber com padronagem xadrez e camisa azul. Talvez, à noite, com um vestido de bordados florais e babados acetinados caindo soltos a partir do busto.
Em uma entrevista ao jornal francês Le Figaro, nos anos 1950, a couturière falou que “a moda é, ao mesmo tempo, lagarta e borboleta. Seja uma lagarta de dia e uma borboleta à noite. Não há nada mais confortável que uma lagarta e nada mais feito para o amor do que uma borboleta. Precisamos de vestidos que rastejam e de vestidos que voam. A borboleta não vai ao mercado, e a lagarta não vai ao baile”.
Tenho dúvidas se Matthieu concorda com essa última frase. Tendo a acreditar que, para ele, borboleta e lagarta vão onde bem entenderem. De todo modo, vale prestar atenção em como o designer transforma essa ambivalência de Coco Chanel em polivalência.

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação
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Na quinta-feira passada (05.03), a primeira coleção do estilista (a de verão 2026) chegou às lojas da grife em Paris. Desde então, elas estão abarrotadas de gente. Não chega a ter fila na porta, mas rola uma espera de até uma hora para ser atendido por um vendedor. No desfile de segunda-feira (09.03), quase toda a primeira fila estava vestida dos pés à cabeça com itens da etiqueta.
Não se via tamanha comoção, frenesi e adesão desde 2015, quando Alessandro Michele estreou na Gucci. Agora, no entanto, quase ninguém parecia montado ou fantasiado. Uma das maiores qualidades da Chanel de agora é seu apelo universal. No sentido de que suas roupas se adaptam e servem de plataforma para diferentes personalidades e expressões individuais.

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação

Chanel, inverno 2026. Foto: Divulgação
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